Com apenas 20 anos, técnica do Mirassol diz que idade não atrapalha: ‘Pelo contrário’
Letícia Fernanda encerrou a carreira de atleta para se tornar auxiliar técnica e, em 2025, virou treinadora de categorias de base
Entrevista|Murilo Prado*, do R7
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“Letícia Fernanda, de 20 anos, é contratada pelo Mirassol”. De primeira, pode até parecer uma manchete qualquer sobre um novo reforço do clube do interior de São Paulo. No entanto, o que poucos esperavam era que a jovem citada fosse a nova treinadora da categoria sub-15 feminina da equipe.
Anunciada no último mês de fevereiro, Letícia Fernanda de Paula Barros é a responsável pela comissão técnica da categoria e comandará garotas entre 11 e 15 anos. Graduanda em Educação Física, ela possui Licença C de Treinadora pela CBF Academy e é integrante do Programa de Formação de Treinadoras da Federação Paulista de Futebol, iniciativa voltada ao desenvolvimento e à capacitação de mulheres na área técnica do esporte.
“A idade nunca me atrapalhou, pelo contrário. Acho que a idade sempre me ajudou muito nessa questão de gestão de grupo e de me relacionar com as atletas”, afirma a jovem em entrevista exclusiva ao R7.
Nascida em 2006, Letícia iniciou sua trajetória no futebol com apenas 5 anos. Aos 15, jogava competições da Federação Paulista e, com 17 anos, fez a transição para o campo, disputando o Paulista Sub-20 no Ituano. Já na faculdade, a então jogadora recebeu uma proposta para ser auxiliar da comissão técnica do sub-15 do time de Itu.
Assim, ela aceitou o convite e encerrou a carreira de jogadora. No Ituano, Letícia passou por algumas categorias até assumir o cargo de treinadora do sub-20, no final de 2025, no Campeonato Paulista. Com apenas 19 anos, treinou atletas mais velhas que ela.
Letícia faz parte apenas da primeira equipe de futebol feminino do Mirassol, apesar da história centenária do clube. Em 2026, a diretoria criou a modalidade buscando cumprir exigências da Conmebol para a participação do time masculino em competições continentais, como a Libertadores.
Segundo a técnica, no entanto, os diretores do Mirassol “não estão tratando isso como uma obrigação”. “Estão dando a mesma prioridade que têm para o futebol masculino”, afirma.
Em busca de grandes resultados, o clube do interior paulista também investiu em um centro de treinamento exclusivo para o futebol feminino, o CT Bolão, e contratou a executiva de futebol Rafaela Esteves (ex-Corinthians e Ferroviária) e a técnica Carine Bosetti (ex-Avaí/Kindermann) para comandar a equipe principal feminina.
Confira a entrevista na íntegra:
R7 – Como aconteceu a decisão de se tornar técnica com apenas 20 anos?
Letícia Fernanda – Desde jovem, eu sempre tive essa ideia de ser treinadora depois que eu parasse de jogar.
E é engraçado, porque desde pequenininha eu brincava de montar as melhores seleções do mundo, com os melhores jogadores do mundo. Então, sempre tive o sonho de ser jogadora de futebol, mas sempre tive bem claro na minha mente que, depois que eu parasse de jogar, eu seria treinadora.
R7 – Como surgiu o convite para assumir o sub-15 do Mirassol e qual a importância do projeto do time feminino, iniciado, principalmente, pela exigência da Conmebol para o time masculino participar da Libertadores?
Letícia Fernanda – O projeto é muito importante para o desenvolvimento do futebol feminino. O Mirassol precisava de uma equipe feminina para disputar a Libertadores, mas eles não estão tratando isso como uma obrigação. Estão dando a mesma prioridade que dão para o futebol masculino. Eles querem construir uma história e está sendo bem legal.
Sobre o convite do Mirassol, eu conheci a Rafa Esteves [executiva de futebol] no curso da Federação Paulista, que eu fiz no final do ano passado. E acho que esse curso abriu portas para todas as treinadoras que buscavam networking e conhecer pessoas que fossem ajudar a gente a sair da zona de conforto.
Para mim, [a escolha pelo Mirassol] foi sair da zona de conforto, abraçar um projeto grande, criar essa página em branco e desenvolver o sub-15 feminino para o ano de 2026.
R7 – Qual é a maior dificuldade dentro da carreira de técnica? A idade atrapalha em algum aspecto?
Letícia Fernanda – Não, a idade nunca me atrapalhou. Acho que, pelo contrário, ela sempre me ajudou muito nessa questão de gestão de grupo e de me relacionar com as atletas. Nunca tive essa questão de a atleta não me respeitar por conta da minha idade. Elas sempre tiveram esse respeito justamente por a gente conversar e falar a mesma língua. Então, acho que isso sempre me ajudou.
R7 – O que você considera mais importante dentro da formação de um atleta?
Letícia Fernanda – Eu acho que o principal ponto é entender que a gente não está formando só atletas, a gente está formando uma pessoa. Assim, na maioria das vezes, a gente tem que colocar na cabeça delas que elas não vão seguir carreira, e têm que ter um plano. Têm que ter esse foco na escola, focando nos estudos para ter esse segundo plano de carreira.
Lógico que a gente quer que todas sejam jogadoras profissionais de futebol. Seria maravilhoso se no time de sub-15 todo mundo realmente chegasse ao profissional, mas a gente sabe que o futebol de verdade não é assim. Então, acho que esse é o foco principal da nossa formação aqui dentro do Mirassol. É formar a atleta em todos os âmbitos para ela se tornar uma adulta funcional e preparada para a vida.
R7 - Quais as suas principais inspirações dentro da carreira de técnica?
Letícia Fernanda – Eu me inspiro muito na Bia Vaz, que foi a minha treinadora do curso, e hoje na Carine Bosetti, que é a nossa treinadora profissional, com quem eu estou aprendendo bastante.
Ela está me ajudando bastante a ver essa parte do desenvolvimento das atletas.
R7 – Qual é o seu maior sonho, ou suas perspectivas?
Letícia Fernanda – Eu gosto de pensar a curto prazo e o meu maior sonho para este ano é fazer um bom trabalho. Iniciar esse trabalho de uma forma legal para que a gente possa desenvolver no decorrer do tempo.
[Para que] A gente consiga fazer um bom Campeonato Paulista, ter um elenco competitivo, que a gente consiga disputar todos os jogos de igual para igual. Acho que essa, para mim, é nossa principal meta agora dentro do campeonato deste ano.
R7 – Quais as principais características que vocês vão buscar nessas atletas?
Letícia Fernanda – As principais características que a gente busca são atletas competitivas que estejam dispostas a aprender, a se desenvolver e a participar dessa história que está sendo construída no Mirassol, que eu acho que é bem legal. Meninas que acreditam no projeto, que venham para construir essa história junto com a gente.
R7 – Como viu a fala machista do Gustavo Marques, do Bragantino, nas quartas de final do Paulistão, dizendo que “não adianta colocarem uma mulher para apitar um jogo desse tamanho”? E como você vê a vida das mulheres dentro do futebol?
Letícia Fernanda – Eu acho que a pessoa tem que sempre ser julgada pela qualidade, independente de gênero ou não. Não existe isso de falar que a pessoa é ruim por ela ser mulher ou por ser homem; isso não pode entrar em debate. A Daiane Muniz [árbitra da partida entre Bragantino e São Paulo] fez um excelente jogo e eu acho que foi uma crítica injusta.
O futebol está ficando meio chato nesse quesito de ‘eu perdi, culpa da arbitragem’. [A culpa] Nunca é do time. Enfim, acho que isso tem que acabar dentro do futebol brasileiro.
R7 – E qual recado você deixaria para as meninas que estão surgindo e sonham em participar de alguma forma do futebol feminino?
Letícia Fernanda – Eu espero que elas continuem lutando pelo sonho, independente da função. Eu sempre falo muito para as minhas atletas que, mesmo que elas não sejam jogadoras profissionais de futebol, existem várias profissões dentro do esporte que você pode seguir, que você pode trabalhar.
O futebol feminino e o futebol masculino precisam de mais mulheres trabalhando. E, assim, é uma coisa muito legal quando eu vejo atletas que não deram certo e seguem dentro do futebol. Porque isso é uma coisa que a gente ama, uma coisa que a gente gosta de fazer. E eu acho que é bem legal quando tem várias mulheres trabalhando dentro do esporte, não só no futebol.
Então é isso: mesmo que não dê certo, que continuem seguindo o sonho de trabalhar com futebol.
*Estagiário do R7, sob supervisão de Arnaldo Pagano, editor













