Governo alega que confrontos mataram 278 pessoas no Egito, oposição diz que total pode passar de dois mil
Autoridades declaram estado de emergência nacional e um toque de recolher no Cairo e em outras onze províncias por um mês
Internacional|Do R7, com AFP e Ansa

O Ministério da Saúde do Egito afirmou que 278 pessoas morreram nos confrontos ocorridos na última quarta-feira (14) no país, segundo o último balanço oficial. A maioria das vítimas é civil e somente 43 mortos são policiais ou militares egípcios. No Cairo, 61 pessoas morreram em manifestações na praça Rabaa al-Adawiya e 21, na praça Al-Nahda.
A Irmandade Muçulmana, porém, fala em mais de 2.000 mortos e 10 mil feridos em todo o país. Os confrontos começaram após uma violenta operação para desmontar acampamentos de islamitas, os quais tinham sido montados no dia 3 de julho, data em que o ex-presidente Mohamed MUrsi foi deposto por militares em um golpe.
O governo egípcio decretou na quarta-feira estado de emergência nacional depois da violenta dispersão dos manifestantes que estavam mobilizados há semanas no Cairo para exigir o retorno ao poder do presidente deposto Mohamed Mursi.
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As autoridades indicaram que 235 civis e 43 policiais tinham morrido em todo o país. Mas o registro é, provavelmente, muito mais elevado. Um jornalista da AFP contabilizou 124 corpos apenas nas proximidades da praça Rabaa al-Adawiya, quartel-general dos manifestantes pró-Mursi no Cairo, onde o Ministério da Saúde indicou 61 mortos.
Em um hospital improvisado em uma tenda, os médicos mantinham um ritmo frenético e abandonavam os casos mais críticos para atender os feridos com mais chances de sobreviver.
O banho de sangue provocou uma crise governamental, com a renúncia do vice-presidente Mohamed ElBaradei, e foi condenado pela ONU e por países ocidentais e muçulmanos.
Apesar da quantidade de mortos, o primeiro-ministro Hazem Beblawi afirmou na quarta-feira que a polícia havia agido com "toda moderação" durante dispersão dos partidários de Mursi.
As autoridades tinham prometido um retirada "gradual" dos manifestantes das praças cairotas de Rabaa al-Adawiya e Nahda, ocupadas há um mês e meio por milhares de egípcios.
Mas as tropas policiais e militares surpreenderam as pessoas acampadas nas duas praças, realizando um cerco ao amanhecer, e começaram a avançar com escavadeiras e disparando bombas de gás lacrimogêneo contra as barracas, que abrigavam várias mulheres e crianças.
O governo anunciou na manhã de quarta-feira o desmantelamento da Nahda. Já na parte da tarde, as forças de segurança anunciaram o controle total da praça Rabaa al-Adawiya.
A Irmandade Muçulmana, movimento de Mursi, afirma que a repressão deixou 2.200 mortos e mais de 10.000 feridos.
Outras regiões foram cenário de incidentes, com choques em Alexandria (norte) e o incêndio em pelo menos três igrejas cristãs coptas no centro do país.
O governo decretou estado de emergência nacional e um toque de recolher no Cairo e em outras onze províncias das sete horas da tarde até as seis da manhã. Ambas as medidas vão vigorar por um mês.
Antes, todas as conexões ferroviárias já haviam sido suspensas no Cairo para dificultar as mobilizações.
Crise no governo
A repressão desencadeou uma crise governamental e dividiu amplos setores civis e religiosos que haviam apoiado o golpe contra Mursi.
O vice-presidente Mohamed ElBaradei apresentou sua renúncia em uma carta enviada ao presidente interino, Adly Mansour.
"Ficou difícil para mim seguir assumindo a responsabilidade por decisões com que não concordo", escreveu o Prêmio Nobel da Paz. "Infelizmente, aqueles que vão ganhar com o que aconteceu hoje são os grupos extremistas, que querem a violência e o terror", acrescentou.
Na noite de quarta, o primeiro-ministro egípcio, Hazem Beblawi, disse não ter visto excessos na ação das forças de segurança.
Em um pronunciamento transmitido pela televisão, Beblawi agradeceu à polícia "por ter atuado com toda moderação".
Ao justificar a intervenção das forças de ordem, ele considerou que "nenhum Estado que se respeite teria conseguido tolerar" a ocupação das praças Rabaa al-Adawiya e Nahda por milhares de manifestantes durante um mês e meio.
A mesquita Al-Azhar do Cairo, principal autoridade mundial sunita (ramo do Islã), também lamentou a repressão.
"O uso da violência nunca foi uma alternativa a uma solução política", disse o grão-imã de Al-Azhar, Ahmed al-Tayyeb, em declarações à televisão. A Irmandade Muçulmana convocou uma mobilização geral para "conter o massacre".
"Isto não é uma tentativa de dispersão, e sim uma sangrenta tentativa de esmagar todas as vozes de oposição ao golpe militar que derrubou Mursi", escreveu no Twitter o porta-voz da Irmandade, Gehad al-Haddad.
A violência política já tinha deixado mais de 250 mortos desde o final de junho até antes da repressão da última quarta-feira.











