Trump e a blindagem para big techs
O governo norte-americano ameaça países soberanos com tarifas para impedir que cobrem impostos de empresas privadas
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7
Para os críticos do Tio Sam, Donald Trump resolveu transformar a política comercial dos Estados Unidos numa linha de transmissão das gigantes da tecnologia. Sem fazer questão de disfarçar seus objetivos, mais recentemente, Trump anunciou que compraria briga com qualquer país que impusesse impostos sobre serviços digitais prestados por big techs norte-americanas.
Nas suas palavras ameaçadoras, ele avisou que pagará com tarifas de 100% sobre seus produtos o país que gerar despesas tributárias para estas gigantes americanas da tecnologia.
Segundo as informações já publicadas, esse “almoço” não sai de graça. O pesquisador Rick Claypool já garantiu que coleciona os bilhões de dólares, o total já despejado no caixa político de Trump pela Amazon, Apple, Google, Meta, Microsoft, Nvidia, OpenAI, Oracle, Palantir, SpaceX, Tesla e X. E isso inclui doações para a cerimônia de posse do republicano, gastos de campanha e presentes em geral.
Tudo muito sofisticado, para atender à legislação dos EUA, mas que não é muito distante do velho coronelismo nordestino do Brasil.
No caso das big techs, o governo norte-americano ameaça países soberanos com tarifas para impedir que estes cobrem impostos de empresas privadas, pelos negócios altamente lucrativos realizados em seus respectivos territórios ou domínios da web.
Numa licença poética, é possível afirmar que Trump recupera, em escala planetária, a lógica primitiva das milícias do Brasil, na medida em que utiliza as tarifas sobre produtos importados para os EUA como elemento de coação. A diferença é que, no lugar da taxa pela proteção, aparece o tarifaço; no lugar do “gato net”, o mercado digital; no lugar do favor local, a chantagem comercial contra nações soberanas.
Para seus críticos mais ácidos, inclusive dos EUA, Trump não governa como estadista. Ele é comparado a algo como um “coronel de Silicon Valley”. Sob essa percepção, ele se dedica ao trabalho de “proteção”, pela via da coação, em favor dos donos do engenho digital. Na prática, ele ameaça quem ousa contrariá-los e transforma a política externa dos Estados Unidos numa espécie de jagunçagem tarifária.
Não se trata de livre comércio. Muito menos de defesa dos interesses permanentes dos Estados Unidos. Trata-se de uma chantagem econômica contra Estados soberanos, para benefício de gigantes corporativas que se acham no direito de ganhar muito dinheiro, com exibição de conteúdo audiovisual, sem pagar a conta das despesas cobradas a emissoras de televisão e rádio no Brasil.
Soberania tributária
Uma rápida apuração indica que o direito internacional é cristalino ao reconhecer que cada país possui competência exclusiva para organizar seu próprio sistema tributário. A soberania tributária decorre diretamente do princípio da igualdade soberana dos Estados, previsto no artigo 2, parágrafo 7, que estabelece que a ONU não pode intervir em assuntos que pertençam essencialmente à jurisdição interna de qualquer Estado.
Soma-se a isso o direito de autodeterminação dos povos, igualmente protegido pelo sistema jurídico internacional, que impede que uma potência econômica utilize seu peso comercial para constranger escolhas legislativas de outras nações.
Em outras palavras, um país pode decidir cobrar imposto sobre mineração, petróleo, bancos, telecomunicações ou plataformas digitais. Essa é uma decisão política interna. Pode ser boa ou ruim. Pode ser alta ou baixa. Mas pertence exclusivamente ao Parlamento e ao povo daquele país. Ninguém tem o direito de meter o bedelho. Nada pode servir de pretexto para chantagens contra qualquer país.
É precisamente por isso que diversos governos vêm discutindo ou já implantaram tributos sobre serviços digitais. A expansão das plataformas tecnológicas permitiu que empresas bilionárias obtivessem receitas gigantescas em mercados nacionais sem, muitas vezes, recolher tributação proporcional à riqueza ali produzida. A própria Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) lidera, há anos, negociações internacionais para adaptar as regras tributárias à economia digital.
Trump simplesmente ignora esse debate internacional e, prestando contas aos seus aliados corporativos, fala como se pudesse obrigar uma nação soberana como a França a submeter-se à sua chantagem rasteira.
Não por acaso, é justamente na França que avançam as iniciativas de tributação sobre os serviços digitais dessas gigantes da tecnologia, empresas que parecem acreditar estar acima da soberania dos Estados.
Interesse
Nesse jogo a serviço dos interesses privados das big techs, o interesse do povo norte-americano parece ocupar um plano secundário.
Trump prometeu proteger a América, mas conseguiu encarecer até o hambúrguer do americano. A tarifa que nasceu para punir parceiros comerciais acabou sendo servida no prato do consumidor dos Estados Unidos, na forma de carne moída mais cara, lanche pesando no bolso e inflação nas lanchonetes.
Diversos estudos econômicos apontam que parte relevante dos custos das exageradas tarifas impostas pelos Estados Unidos acabou sendo repassada ao consumidor americano. Levantamentos recentes estimam aumento do custo de vida das famílias e impacto inflacionário decorrente da política tarifária, sem que ela tenha produzido os efeitos prometidos sobre o déficit comercial.
O preço do café no varejo norte-americano chegou a registrar alta anual próxima de 40%, impulsionado pela combinação entre tarifas, redução da oferta mundial e problemas climáticos na produção.
O hambúrguer também ficou mais caro. A própria Casa Branca reconheceu que o preço da carne moída atingiu US$ 6,69 por libra em dezembro de 2025, o maior valor da série histórica desde os anos 1980.
Ou seja, enquanto Trump trabalha para proteger empresas bilionárias da Califórnia, quem paga parte da conta dessas tarifas ameaçadoras é justamente o consumidor norte-americano.
Nem mesmo no plano político essa estratégia parece produzir consenso. Pesquisas de opinião divulgadas ao longo deste ano mostram que a condução da política tarifária continua dividindo o eleitorado americano e que cresce a percepção de que as tarifas elevam os preços internos e prejudicam consumidores e empresas dependentes de insumos importados.
Pouco preocupado com a queda de sua popularidade nas pesquisas, Trump já não demonstra a mesma disposição de seu primeiro mandato, quando executivos das big techs não gozavam de tanto prestígio. Talvez porque, naquela época, o desejo de um novo mandato exigia cautela. Hoje, essa possibilidade simplesmente não existe.
A 22ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos impede que qualquer cidadão exerça mais de dois mandatos presidenciais. Logo, o fundo do poço da popularidade não incomodaria Trump.
Isso altera completamente a lógica de sua motivação política. Sem possibilidade de nova candidatura presidencial, resta-lhe administrar os interesses do presente e consolidar alianças econômicas e corporativas.
Até lá, porém, o café do americano poderá continuar sendo servido mais caro e o hambúrguer corre o risco de seguir pesando mais no bolso. Uma dinâmica que, ironicamente, abre caminho à China e favorece a clara tendência pela diversificação comercial internacional, para países como o Brasil.
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