Logo R7.com
RecordPlus

Fogo amigo do tarifaço de Trump atinge em cheio a campanha de Flávio Bolsonaro

Anúncio da nova tarifa de 25% sobre uma ampla lista de produtos brasileiros lá nos EUA produziu um fato político demolidor por aqui

Blog do Porfírio|Vladimir PorfírioOpens in new window

  • Google News

Adicione como fonte preferencial no Google

Opens in new window

LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Anúncio de tarifas de 25% dos EUA sobre produtos brasileiros afeta a campanha de Flávio Bolsonaro.
  • Relação próxima entre Bolsonaro e Trump vira desvantagem política para o bolsonarismo.
  • Controvérsias e investigações, como o caso das "rachadinhas", desgastam a imagem de Flávio.
  • Michelle Bolsonaro surge como possível alternativa política para a direita.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Flávio disse que pediu a Trump para tratar PCC e CV como terroristas
Estratégia política do bolsonarismo ao longo dos últimos anos foi mostrar proximidade a Trump Reprodução/Instagram/@flaviobolsonaro

As pesquisas mais recentes já não eram animadoras para a direita. Além do crescimento de sua rejeição, os levantamentos indicam sinais de curva descendente para a rejeição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No momento em que o petista promete consolidar a liderança da corrida presidencial, o chamado fogo amigo incendeia o parquinho bolsonarista.

De repente, como em tempos passados, a eleição brasileira voltou a gravitar em torno da relação entre Washington e Brasília e da proximidade cultivada ao longo dos últimos anos entre o trumpismo e a família Bolsonaro. Mas na visão de uma luneta invertida.


Veja Também

Essa associação entre Bolsonaro e as ações de Donald Trump não foi criada pelos adversários. Foi construída pelo próprio bolsonarismo, apostando numa vantagem a partir dessa amizade com o tio Sam.

Jair Bolsonaro, aliás, jamais escondeu sua admiração por Trump. Durante seu governo, fez questão de apresentar essa afinidade como demonstração de prestígio internacional, enquanto virava de costas para o resto do mundo civilizado.


Eduardo Bolsonaro aprofundou esse caminho, tornando-se um dos principais interlocutores do grupo político junto a setores conservadores norte-americanos. Suas viagens, reuniões e aparições públicas nos Estados Unidos sempre foram divulgadas como um ativo político. Mas virou tiro no pé.

Foi exatamente isso que aconteceu quando o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos anunciou a nova rodada de tarifas sobre produtos brasileiros.


A discussão rapidamente ultrapassou os gabinetes diplomáticos e desembarcou no cotidiano do eleitor. Entre os temas mencionados pelos americanos apareceu o Pix, sistema de pagamentos que se transformou numa das maiores inovações financeiras já produzidas pelo Estado brasileiro.

Os efeitos políticos da nova manifestação de Jair Bolsonaro, reiterando sua preferência pelo filho, contavam com o luxuoso auxílio de Alexandre de Moraes, que proibia um filho de visitar o pai cumprindo pena. Mas nem isso vingou. Tudo acabou ofuscado pelo impacto internacional do tarifaço.


Em vez de discutir propostas, a campanha terá de voltar a responder perguntas sobre Trump, Estados Unidos e soberania nacional. Nem o pedido de Flávio para que Trump esperasse a eleição passar funcionou.

O momento é particularmente delicado porque esse episódio não surge isoladamente. Ele se soma a uma sequência de controvérsias que já vinha impondo desgaste político ao senador. Um quadro de ladeira abaixo.

O caso das chamadas “rachadinhas”, alvo de investigações e de longa repercussão pública, continua sendo lembrado pelos adversários sempre que a trajetória política de Flávio entra em debate, embora sua defesa conteste as acusações e o processo tenha passado por diferentes fases judiciais.

Também houve repercussão em torno das notícias envolvendo o financiamento de um filme sobre Jair Bolsonaro, tema que alimentou questionamentos públicos e disputa política, contaminando a relação com aliados por conta de um repasse de mais de R$ 60 milhões de reais que ninguém sabia, e que surpreendeu aliados que ainda suspeitam do destino desse mega cascalho.

Ainda que as versões apresentadas pelos envolvidos sejam distintas, a controvérsia acabou acrescentando mais um elemento ao ambiente de desgaste que cerca o núcleo bolsonarista.

No plano interno, divergências tornadas públicas entre lideranças do próprio campo conservador, incluindo episódios envolvendo Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro, reforçaram a percepção de dificuldades para manter a unidade política justamente no momento em que a oposição precisava transmitir coesão ao eleitorado. Ali já estava dando ruim.

Campanhas eleitorais sobrevivem de controlar a agenda. Quando deixam de escolher os assuntos e passam apenas a reagir aos acontecimentos, normalmente já estão em posição defensiva. É sinal de game over.

É exatamente essa impressão que o noticiário transmite hoje. O debate econômico foi substituído por uma questão sobre relações internacionais. A discussão sobre propostas cedeu espaço à discussão sobre alianças políticas.

E a tentativa de apresentar Flávio Bolsonaro como alternativa nacional acabou novamente ofuscada por um personagem estrangeiro que, durante anos, foi tratado como um dos principais símbolos do próprio bolsonarismo.

Talvez resida aí a maior ironia desta campanha. Aquilo que durante muito tempo foi apresentado como demonstração de influência e prestígio internacional passou a fornecer aos adversários um poderoso argumento político. O tiro saiu pela culatra.

A ironia é que essa armadilha foi montada pela própria estratégia política do bolsonarismo ao longo dos últimos anos. Sempre que interessava, a proximidade com Trump era celebrada e vociferada como certificado de prestígio internacional.

Agora, quando decisões do governo americano produzem desgaste interno, torna-se muito mais difícil convencer o eleitor de que uma coisa nada tem a ver com a outra.

Ainda que não exista demonstração de que a família Bolsonaro tenha influenciado a decisão comercial, a imagem construída ao longo de anos faz com que uma parcela do eleitorado enxergue os acontecimentos como partes de um mesmo enredo político.

Enquanto isso, Lula ganha um terreno particularmente confortável. O presidente pode explorar o discurso da defesa da soberania nacional, apresentar-se como interlocutor institucional do país diante das pressões externas e deslocar o debate para um campo historicamente favorável aos ocupantes do Palácio do Planalto quando confrontados por governos estrangeiros.

Poucos elementos mobilizam tanto a opinião pública quanto a percepção de que interesses nacionais precisam ser protegidos diante de pressões vindas de fora. Trump fará de Lula o paladino da autodeterminação e da soberania.

As pesquisas recentes ajudam a compreender por que esse episódio assume proporções tão relevantes. Com Lula ampliando sua vantagem, reduzindo sua rejeição e permanecendo isolado na liderança, qualquer fato capaz de interromper a recuperação de um adversário ganha enorme peso estratégico.

O tarifaço americano não produz apenas consequências econômicas. Produz imagens. Produz manchetes. Produz associações políticas.

Quem transforma um governante estrangeiro em símbolo permanente de sua identidade política também passa a compartilhar os custos quando esse mesmo governante toma decisões impopulares perante o eleitorado nacional.

O que antes parecia uma medalha transforma-se em âncora. E âncoras, quando lançadas em plena corrida eleitoral, costumam impedir qualquer tentativa de uma candidatura ganhar velocidade.

Sobretudo quando tudo aponta para uma solução que agregaria valor à madrasta, Michelle Bolsonaro.

A direita começará a perceber que Flávio talvez carregue todos os passivos do bolsonarismo sem conseguir reproduzir integralmente seus ativos. Herdou o sobrenome, mas não a mesma capacidade de mobilização do pai. Herdou a rejeição familiar, mas não seu carisma junto ao eleitor radicalizado. Herdou o alinhamento com Trump, mas não controla o que Trump faz. Muito pelo contrário.

Michelle oferece à direita exatamente aquilo que Flávio perdeu. Ela consegue apresentar-se simultaneamente como continuidade e renovação. Carrega o sobrenome sem ser filha do sistema político construído pelo clã. Ela está vacinada contra a inspiração de milícias digitais. Conservando o acesso ao eleitor evangélico, comunica-se melhor com parte do público feminino e pode reivindicar o recall do marido sem carregar diretamente a longa coleção de controvérsias acumuladas pelos filhos.

Levantamentos recentes já estimularam análises sobre um possível “efeito Michelle”, sobretudo na transferência ou reorganização dos votos do campo conservador.

Não significa que Michelle seja uma candidata sem rejeição ou sem problemas. Significa apenas que, para uma direita encurralada, ela talvez seja a última esperança. Alguém que seja capaz de alterar o desenho do jogo.

Nesse tabuleiro, ela pode disputar a Presidência, compor como vice de um ex-governador mais palatável ao centro ou participar de uma chapa que preserve o eleitorado bolsonarista sem obrigar o eleitor que rejeita Lula a aceitar Flávio Bolsonaro envolto na lepra política, mesmo sendo herdeiro do Jair.

Essa possibilidade ganha força porque o ambiente familiar já não transmite união. As divergências públicas entre Michelle e os filhos de Jair Bolsonaro deixaram de ser fofoca doméstica para se transformar em fator eleitoral.

Quando Flávio tenta reduzir a importância dos vídeos em que ela o critica, não está apenas respondendo a uma desavença. Está admitindo que a família que pretende vender unidade ao Brasil não consegue manter unidade dentro de casa.

A direita pode insistir em Flávio por disciplina ao patriarca, mas disciplina não vence eleição quando os números começam a cheirar a derrota. O Centrão não é uma ordem religiosa. Governadores não entram em campanhas para demonstrar fidelidade familiar. Partidos não sacrificam bancadas, fundos eleitorais e alianças regionais não obedecem a uma carta escrita por um ex-presidente. Na primeira oportunidade, todos começarão a perguntar se Flávio ainda consegue vencer.

O tarifaço torna essa pergunta urgente porque fornece a Lula o terreno em que qualquer presidente sonha disputar uma eleição. O da defesa nacional contra a pressão estrangeira.

Enquanto Flávio precisa explicar as viagens da família aos Estados Unidos, Lula pode posar como defensor da soberania, do Pix, da indústria e dos empregos. Enquanto o senador implorou por postergação ao governo Trump, Lula agradece secretamente pelo presente político entregue por Washington.

Trump pretendia punir o Brasil. Pode ter punido o próprio candidato preferido de seu campo ideológico.

O tarifaço não mata sozinho uma candidatura. Mas funciona como diagnóstico definitivo de uma doença que já avançava. Flávio perde apoio, aumenta a distância para Lula, vê sua rejeição consolidar-se, não consegue transformar a bênção paterna em votos novos e ainda precisa responder pelos atos de um presidente estrangeiro que sua família passou anos apresentando como aliado íntimo.

Nesse cenário, Michelle deixa de ser sombra e vira saída de emergência. Não por ter resolvido todos os problemas da direita, mas porque Flávio começa a parecer incapaz de impedir a vitória de Lula.

O tarifaço de Trump pode ter produzido, assim, uma ironia histórica. O governo estrangeiro mais celebrado pelos Bolsonaro talvez seja justamente aquele que obrigará a direita brasileira a abandonar um Bolsonaro para tentar salvar o bolsonarismo.

Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.