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Crime organizado no Brasil entrou definitivamente na era da tecnologia de guerra

Enquanto isso, o Estado continua preso a uma estrutura policial que, provavelmente, já perdeu sua capacidade operacional de neutralizar o crime

Blog do Porfírio|Vladimir PorfírioOpens in new window

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • O crime organizado no Rio de Janeiro evoluiu para o uso de tecnologia de guerra, como drones para lançar granadas, enquanto o Estado enfrenta dificuldades com uma estrutura policial obsoleta.
  • Facções criminosas controlam grande parte do território do estado, com a Polícia Militar indicando que apenas 15 dos 92 municípios não estão sob domínio do crime.
  • Há uma necessidade urgente de federalizar a inteligência e o combate ao crime, com propostas de envolvimento permanente da União e possíveis novos tributos para financiar a segurança pública.
  • A experiência positiva da força especial de segurança municipal do Rio de Janeiro destaca a importância de investimentos em treinamento, tecnologia e remuneração adequada para melhorar a eficácia policial.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

A guerra da criminalidade no Rio de Janeiro agora usa drone militar para o bombardeio Imagem gerada por IA/ChatGPT

O descontrole do crime na cidade do Rio de Janeiro pode ser traduzido pela notícia de que um drone teria sido utilizado para lançar uma granada de guerra sobre uma área residencial, atingindo a casa de uma família, na comunidade do Rio das Pedras.

O estampido da granada já não basta para assustar o Rio de Janeiro. O que realmente assusta é perceber que a conflagração em plena via urbana repete rotinas vividas nas guerras do Oriente Médio ou da Ucrânia, sem o pudor do compromisso de fazer mira apenas nas instalações militarizadas.


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A cena registrada em Rio das Pedras, onde uma granada foi lançada do alto durante uma disputa de território entre facções criminosas, simboliza uma mudança alarmante de patamar. A guerra da criminalidade no Rio de Janeiro agora usa drone militar para o bombardeio.

O crime organizado brasileiro entrou definitivamente na era da tecnologia de guerra, enquanto o Estado continua preso a uma estrutura policial que, provavelmente, já perdeu sua capacidade operacional para neutralizar o crime.


Não se trata apenas de uma nova modalidade de ataque. Trata-se da demonstração pública de que organizações criminosas passaram a operar com equipamentos, inteligência e logística superiores à capacidade de enfrentamento do aparato de segurança pública.

O carioca e os turistas precisam de mais que fé nas orações para seguir acreditando no amparo de uma polícia submetida, há mais de trinta anos, a uma crônica de salários baixos, efetivos insuficientes, equipamentos defasados, sucessivas crises institucionais e recorrência de casos em que policiais são seduzidos pelo crime.


Os números ajudam a compreender a dimensão da tragédia. Levantamento da inteligência da própria Polícia Militar fluminense aponta que apenas 15 dos 92 municípios do estado não estão sitiados pelo domínio consolidado de organizações criminosas.

Não se trata de alarmismo juvenil ou de fato isolado. Isso faz parte de uma engrenagem azeitada, com causas e efeitos muito bem definidos.


Estamos falando de uma unidade da Federação cuja Assembleia Legislativa é, comprovadamente, permeada por políticos financiados pelo crime. Uma pandemia que infectou a sociedade, numa dinâmica confirmada pela existência de um levantamento que aponta para 1.648 territórios mapeados sob o comando do crime, assinado pela Subsecretaria de Inteligência (SSI) da PMRJ no ano passado.

Nessa conta, 1.036 áreas encontram-se sob influência do “Comando Vermelho”, 340 nas mãos do “Terceiro Comando Puro”, 229 estão sob a tutela de milícias e 43 estão submetidas às ordens do grupo criminoso “Amigos dos Amigos”. Em outras palavras, o Estado perdeu o monopólio efetivo do controle territorial em grande parte do Rio de Janeiro.

Não precisa ter trabalhado na redação de um jornal do Rio de Janeiro, na editoria de Polícia, a antiga REPOL, para saber que esse quadro não nasceu ontem. Há mais de três décadas o Rio convive com uma política de segurança baseada em operações episódicas, confrontos espetaculares e baixíssima capacidade de investigação continuada. Isso sem falar nas desastrosas intervenções federais, com o infrutífero auxílio das Forças Armadas.

A cada governo, renova-se o compromisso com o combate ao crime. Mas, quatro anos depois — ou menos — permanece intacta a incapacidade estrutural de recuperar definitivamente os territórios que, dominados pelo crime, apenas são inundados pelo sangue da bandidagem de baixo calão a cada operação policial. Um contingente de vítimas fatais, quase sempre formado por gente sem perspectivas existenciais, pobre, parda ou preta.

Pouco ou nada é feito para estancar as rotinas de recrutamento de jovens para a atividade criminosa. A delinquência chega cada vez mais cedo à vida dos “meninos e meninas” pobres, quase sempre seduzidos por tudo o que pode ser pago com o dinheiro que jorra a serviço do crime. Nem a tese da redução da maioridade penal sai do lugar no Congresso Nacional, ainda que seja um equívoco tratar a medida como bala de prata.

Não por acaso, ao longo desse período multiplicaram-se episódios que demonstram a infiltração do crime nas próprias forças de segurança do Rio. Milícias formadas originalmente por agentes públicos se refletem na corrupção policial, na venda e no contrabando de armas, no vazamento de informações, na proteção de quadrilhas e nas inúmeras prisões de policiais envolvidos com organizações criminosas, fatos que se tornaram parte da rotina fluminense, penalizada pela coleção de ex-governadores que tiveram o destino do xilindró.

Para quem prefere esquecer, presto o incômodo serviço de lembrar o que aconteceu em 29 de junho de 2017, por meio da Operação Calabar, definida como a maior operação contra a corrupção policial da história do Estado do Rio de Janeiro até então.

Naquele episódio, a operação tinha o objetivo de cumprir, ao todo, 184 mandados de prisão preventiva, com foco principal no 7º Batalhão da PM (São Gonçalo, RJ), onde 96 policiais militares foram denunciados e tiveram a prisão decretada. No bolo dos “policiais arregados”, também havia a previsão de prisão de 70 traficantes e outros intermediários envolvidos no esquema criminoso.

Evidentemente, seria injusto generalizar, ainda que não seja raro ver fotografias de estacionamentos de batalhões recheados de automóveis de alto padrão.

Uma boa parcela dos policiais honra diariamente sua farda, até porque muita gente boa ficou de fora da lista de policiais presos na Operação Calabar. Mas também seria ingenuidade ignorar que salários incompatíveis, ausência de valorização profissional e condições precárias de trabalho criaram um ambiente extremamente vulnerável à cooptação criminosa.

Enquanto isso, uma experiência recente mostra que outro caminho para o combate ao crime é possível. A força especial de segurança municipal da Prefeitura do Rio conquistou rapidamente a confiança de parcela relevante da população carioca, quando apresentou resultados expressivos na recuperação de produtos roubados, prisões qualificadas e redução de crimes patrimoniais, sem transformar cada operação em espetáculo de tiros.

E a fórmula, pelo visto, começou com o investimento em seleção rigorosa, treinamento permanente, tecnologia e, sobretudo, remuneração superior a R$ 13 mil mensais. Uma receita que seria tratada como o “óbvio ululante”, na inesquecível definição de Nelson Rodrigues.

Não existe milagre. Basta comparar o padrão da polícia do Rio de Janeiro com o que acontece no Distrito Federal, onde um policial precisa de diploma de nível superior para se inscrever em concurso, recebendo uma remuneração que, em média, representa o triplo do salário do seu similar fluminense.

Profissionais bem treinados, bem remunerados e submetidos a rigorosos mecanismos de controle produzem melhores resultados do que estruturas sucateadas.

Se o padrão operacional e logístico da Polícia Militar de Brasília fosse o mesmo da realidade apresentada no Rio de Janeiro, comunidades como o Sol Nascente, a maior favela do Brasil, viveriam rotinas de faroeste em plena Capital Federal.

Mas, como sabemos, trata-se de um loteamento irregular onde ninguém precisa conviver com bandidos ostentando armamento de guerra na rua, à porta das residências, como acontece no Rio de Janeiro, em comunidades como a Maré e a Rocinha, além de outras localidades em mais de uma dúzia de capitais brasileiras.

O assassinato da vereadora Marielle Franco ilustra outra fragilidade histórica. Somente quando a Polícia Federal entrou no assunto das investigações foi possível avançar decisivamente na elucidação do crime político mais grave da história recente do país. Depois de anos se arrastando, a investigação ganhou outro rumo com a presença da Polícia Federal que, inclusive, com a ajuda de parte da Polícia Civil do Rio, descobriu que o delegado envolvido com a investigação estava entre aqueles que planejaram o bárbaro homicídio.

Talvez tenha chegado o momento de enfrentar um debate até hoje considerado politicamente inconveniente. O Rio de Janeiro já não vive apenas um problema estadual de segurança pública.

O Rio é um patrimônio nacional, enquanto sua indústria do turismo segue com o freio de mão puxado, sem argumentos para enfrentar a permanente impressão de insegurança da cidade. A cidade maravilhosa vive uma questão de segurança nacional, tanto por sua importância quanto pela repercussão que seus níveis de criminalidade provocam em outras unidades da Federação. O crime no Rio de Janeiro hoje não funciona como botequim. A partir das facções criminosas, passou a ter o caráter de uma holding.

Isso significa que passou da hora de discutir seriamente uma presença permanente da União na coordenação do enfrentamento às grandes organizações criminosas, mesmo sabendo que a Constituição Federal atribui aos estados a responsabilidade pela segurança pública. Passou da hora de medidas radicais com profilaxia garantida.

Não se trata de extinguir as polícias estaduais, mas de federalizar a inteligência, a integração dos bancos de dados, a investigação financeira, o monitoramento tecnológico, o combate à lavagem de dinheiro, o controle de fronteiras e presídios, além das operações estratégicas contra facções e milícias.

Ninguém está querendo propor a descaracterização do pacto federativo. Mas é fundamental que as dinâmicas de combate ao crime não sigam tuteladas por amarras institucionais. Esse, inclusive, foi o espírito da correspondência assinada por todos os secretários de Segurança Pública dos estados brasileiros, dirigida ao presidente Lula por ocasião do debate sobre a criação do Ministério do Combate ao Crime no Brasil.

Naturalmente, a União também esbarra numa limitação evidente: a falta de dinheiro. Uma guerra permanente contra organizações fortemente armadas exige investimentos bilionários em efetivos, armamentos, equipamentos, drones, satélites, inteligência artificial, perícia, laboratórios, helicópteros, embarcações e tecnologia de ponta.

O orçamento atual dificilmente comporta o esforço necessário. Não paga nem pelos primeiros quinze dias de ações contra o crime, dentro e fora dos presídios. Isso porque o orçamento atualizado do Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP) para o ano de 2026 é de R$ 2,80 bilhões.

Por isso, ainda que impopular, não deveria ser descartada a discussão sobre uma fonte permanente e direta de financiamento, inclusive mediante a criação de um tributo específico, transparente, temporário e integralmente vinculado à segurança pública, acompanhado de rígidos mecanismos de fiscalização para impedir desperdícios e desvios.

Não custa lembrar que o Brasil só conseguiu enfrentar as demandas impostas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), retirando a saúde do sucateamento, quando foi criado o Imposto Provisório sobre Movimentação Financeira (IPMF), posteriormente transformado na CPMF.

Pode parecer uma proposta ousada. Mais ousado, porém, é assistir passivamente ao momento em que organizações criminosas passaram a lançar granadas por drones sobre áreas urbanas, habitadas, enquanto o Estado insiste em combater uma guerra do século XXI com estruturas concebidas para o século passado.

O Rio de Janeiro talvez seja hoje o maior laboratório brasileiro da falência do modelo tradicional de segurança pública. Persistir na mesma estratégia significa apenas aguardar o próximo drone, a próxima granada e o próximo território perdido.

Só interessa às facções criminosas a falta de dinheiro para o combate ao crime organizado. Inclusive porque dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e investigações do Ministério Público indicam que as facções criminosas brasileiras movimentam entre R$ 15 bilhões e R$ 335 bilhões por ano apenas com o tráfico de drogas, a depender do mercado consumidor em que a substância é comercializada.

Isso sem falar nas receitas obtidas com outras modalidades criminosas que, somadas, entre as facções e o mercado ilegal, movimentam cerca de R$ 350 bilhões por ano no Brasil. Se o cálculo englobar o impacto total das perdas econômicas e da evasão fiscal geradas por essas atividades na economia formal, o montante pode atingir a assustadora cifra de R$ 473 bilhões anuais.

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