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Flavio Bolsonaro e os primeiros sinais de sua cristianização

Quando um aliado passa a calcular onde não aparecer ao lado de um candidato, o debate passa a ser sobre gerenciamento de risco

Blog do Porfírio|Vladimir PorfírioOpens in new window

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Brazilian Senator Flavio Bolsonaro speaks during an event in Sao Paulo, Brazil, June 18, 2026. REUTERS/Alexandre Meneghini
O discurso continua sendo de unidade; a agenda, porém, passa a obedecer a uma outra lógica Alexandre Meneghini/Reuters - 18.6.2026

A especulada cristianização da candidatura de Flávio Bolsonaro, caso confirmada, tem tudo para começar pelo Estado de São Paulo. Pelo menos é o que se pode extrair da notícia sobre uma suposta opção do governador Tarcísio de Freitas por uma campanha de reeleição, prevendo agendas com Ronaldo Caiado, do PSD, numa dinâmica que deve evitar a companhia de Flávio Bolsonaro, em que as taxas de rejeição do liberal possam comprometer a reeleição do governador paulista.

A palavra “cristianização” ocupa um lugar curioso no vocabulário político brasileiro. Não nasceu como conceito acadêmico nem como expressão jurídica. Foi forjada na prática das campanhas para descrever uma situação tão comum quanto devastadora.


A expressão “cristianização” deriva diretamente do nome de Cristiano Machado, candidato do PSD à Presidência da República na eleição de 1950. E aqui vale uma ressalva: esse PSD da década de 50 não tem nada a ver com o PSD de hoje.

Naquele momento, o PSD era o maior partido do país e lançou oficialmente Cristiano Machado como seu candidato. O problema foi que uma parcela importante dos principais líderes da legenda, especialmente nos estados mais relevantes, considerava a candidatura de Getúlio Vargas muito mais forte eleitoralmente. Em vez de fazer campanha para o próprio candidato do partido, muitos passaram a apoiar Vargas de forma aberta ou velada.


Cristiano Machado nunca deixou de ser o candidato oficial do PSD. O abandono ocorreu na prática, depois da convenção. Não foi coisa de papel passado, registrado em ata.

Governadores, parlamentares, prefeitos e caciques regionais continuavam declarando fidelidade ao candidato, mas dedicavam seu capital político à campanha de Vargas. Como consequência, Cristiano Machado terminou a eleição com pouco mais de 21% dos votos, enquanto Vargas voltou à Presidência com cerca de 49%.


A partir desse episódio, o nome de Cristiano Machado transformou-se num termo do vocabulário político brasileiro. “Cristianizar” um candidato significa que o candidato em questão conservará o apoio formal de seus aliados e correligionários, mas não contará com os votos das respectivas zonas de influência. Isto porque, neste caso, os aliados concluem que a candidatura não tem viabilidade e passam, discretamente, a investir em outro projeto, evitando romper publicamente.

É justamente esse tipo de movimento que analistas políticos enxergam nos sinais emitidos pela pré-campanha paulista. O governador Tarcísio de Freitas, segundo aliados nos bastidores, pretende restringir ao mínimo indispensável as agendas de rua ao lado de Flávio Bolsonaro na capital e na Região Metropolitana de São Paulo, concentrando a convivência política sobretudo no interior do estado. Um movimento que, inclusive, resultaria da reconhecida influência de Gilberto Kassab no Palácio Bandeirantes.


A justificativa atribuída teria o propósito de evitar que a retumbante rejeição do senador produza reflexos negativos sobre uma disputa considerada estratégica para a reeleição estadual.

O dado mais relevante talvez não seja a mudança geográfica das agendas. A questão reside na lógica que ela revela.

Quando um aliado passa a calcular onde aparecer e, principalmente, onde não aparecer ao lado de um candidato nacional, o debate deixa de ser sobre afinidade política e passa a ser sobre gerenciamento de risco.

No interior paulista, entretanto, onde o bolsonarismo conserva maior presença e onde o agronegócio exerce enorme influência econômica e política, a exposição conjunta é vista como menos custosa.

Ali estariam os chamados “convertidos”, eleitores já identificados com esse campo político. Mas está claro que o apelo da candidatura de Ronaldo Caiado também tem tração no ambiente rural de São Paulo.

Nesse contexto, ganha força a percepção de que Tarcísio procura preservar e manter a identidade com o eleitorado conservador, sem assumir custos adicionais em regiões onde sua própria eleição, em 2022, encontrou maiores dificuldades. Trata-se de uma estratégia defensiva comum em campanhas majoritárias.

Por essas e por outras, cresce a atenção sobre a aproximação política entre Tarcísio de Freitas e Ronaldo Caiado, patrocinada pelo presidente do PSD, Gilberto Kassab, que ocupa a função de vice na chapa, mas que pode ser substituído numa composição de última hora.

Tanto Tarcísio quanto Caiado têm buscado interlocução frequente com o eleitorado do interior, especialmente em regiões fortemente vinculadas ao agronegócio. Ainda que cada um mantenha seus próprios objetivos eleitorais, a convergência de agendas reforça a percepção de uma sintonia voltada para um segmento considerado decisivo.

Nada disso significa, por si só, o rompimento político de Tarcísio e Flavio Bolsonaro. Mas não descarta a reedição do fogo amigo bolsonarista contra o governador de São Paulo, pelas redes sociais.

A cristianização, entretanto, raramente começa com um anúncio. Ela costuma surgir em pequenos gestos, como uma agenda cancelada em cima da hora, o clique de fotografia evitada, um discurso econômico nos elogios, um silêncio calculado nas redes sociais ou uma prioridade dada a outros compromissos.

Na política, os primeiros sintomas quase sempre aparecem antes dos diagnósticos. E, quando um candidato passa a ser tratado como alguém cuja companhia precisa ser administrada conforme o CEP da campanha, é natural que surjam interpretações sobre o grau de confiança depositado em sua capacidade de ampliar votos.

Afinal, a cristianização não ocorre quando os adversários abandonam um candidato. Ela começa quando os próprios aliados passam a escolher cuidadosamente onde vale a pena caminhar ao seu lado.

Guardadas as enormes diferenças de contexto histórico e de personagens, é possível ver semelhanças entre aquele episódio que sacrificou a postulação de Cristiano Machado em 1950 e os movimentos que hoje cercam a direita brasileira.

A informação de que Tarcísio de Freitas pretende evitar agendas de rua com Flávio Bolsonaro na capital e na Região Metropolitana de São Paulo, restringindo as aparições conjuntas principalmente no interior, pode ser interpretada como uma estratégia de autopreservação eleitoral.

Ao mesmo tempo, a intensificação de compromissos ao lado de Ronaldo Caiado em regiões fortemente ligadas ao agronegócio reforça a leitura de que parte da energia política está sendo direcionada para a construção de uma relação entre lideranças que extrapola a campanha estadual.

A cristianização não acontece quando alguém deixa de elogiar um candidato. Ela começa quando os aliados passam a calcular onde vale a pena aparecer ao seu lado e onde essa fotografia se transforma em passivo eleitoral.

O discurso continua sendo de unidade; a agenda, porém, passa a obedecer a uma outra lógica. É justamente esse descompasso entre a retórica e o comportamento que, historicamente, caracteriza os primeiros sinais desse brasileiríssimo fenômeno político.

Se fosse o caso de ilustrar com fatos mais recentes, para facilitar a compreensão, bastaria trazer para esse artigo o contexto do fracasso da candidatura presidencial do inesquecível deputado Ulysses Guimarães, em 1989, pelo então maior partido do país.

Mas, nesse caso, o oportunismo perderia de goleada para a canalhice.

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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