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Ciência para o Dia a Dia

Fiquei paraplégica aos 26 anos e fui entender o que a ciência realmente já sabe sobre lesão medular

Polilaminina, células-tronco, implantes epidurais e chips neurais estão avançando rapidamente, mas entender o que já funciona pode ser tão importante quanto acompanhar as próximas descobertas

Ciência para o Dia a Dia|Maria Carolina Toledo

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O trabalho silencioso por trás dos avanços na lesão medular Imagem Gerada por AI

Em outubro de 2023, eu estava vivendo algo que parecia impossível alguns anos antes. Aos 26 anos, tinha me mudado para Nova York para estudar, estava construindo uma rotina nova em outro país e vivendo uma experiência que imaginei por muito tempo.

Foi nesse período que começaram dores de cabeça intensas acompanhadas de enjoo. Tomei analgésicos, tentei continuar a rotina e imaginei que fosse algo passageiro. Mas, pouco tempo depois, vieram dores fortes nas costas e, em questão de dias, minha vida mudou completamente. Fiquei paraplégica.


Fui operada às pressas nos Estados Unidos e comecei ali mesmo um processo de reabilitação que continua até hoje. Atualmente me locomovo com andador e duas muletas, e meu objetivo agora é conseguir usar apenas uma.

Desde então, passei a viver algo que talvez muitas pessoas com lesão medular conheçam bem. Sempre que surge uma notícia sobre alguém que voltou a andar, sobre um novo chip cerebral ou sobre uma tecnologia considerada revolucionária, surge também uma mistura difícil de explicar entre esperança, curiosidade e dúvida.


Nos últimos anos, parece que a ciência da lesão medular saiu dos laboratórios e passou a ocupar espaço frequente nas manchetes. Polilaminina, células-tronco, implantes epidurais, interfaces cérebro computador e biomateriais começaram a aparecer em vídeos virais, programas de televisão e reportagens que frequentemente usam palavras como cura, recuperação ou revolução.

Mas a pergunta que comecei a me fazer era outra. O que realmente está acontecendo dentro dos laboratórios e centros de pesquisa? O que já saiu do papel? O que ainda está restrito a animais? E o que, de fato, pode chegar às pessoas que vivem hoje com lesão medular?

Entenda o processo

Para entender melhor esse cenário, conversei com a fisioterapeuta e pesquisadora Francielle Romanini, que acompanha de perto o desenvolvimento dessas tecnologias e explica que a própria biologia da medula espinal ajuda a entender por que esse continua sendo um dos maiores desafios da medicina moderna.


A medula espinal funciona como uma grande rodovia biológica. Ela conecta cérebro e corpo, transportando sinais relacionados ao movimento, à sensibilidade, ao controle muscular, ao funcionamento de órgãos internos e a inúmeras funções automáticas que passam despercebidas até deixarem de funcionar.

Quando essa comunicação é interrompida, o impacto vai muito além da perda de movimentos. Afeta autonomia, rotina, trabalho, relações sociais e saúde física de forma ampla.


Outro ponto importante é que a lesão medular não costuma ser um evento único e isolado. Existe a lesão primária, causada pelo trauma ou pelo evento inicial, mas existe também um segundo processo conhecido como lesão secundária.

Nesse momento, o organismo entra em uma cascata biológica complexa envolvendo edema, alterações vasculares, inflamação intensa, morte celular progressiva e alterações bioquímicas que podem ampliar os danos para regiões acima e abaixo da área inicialmente afetada. Isso significa que parte importante do dano neurológico continua acontecendo depois da própria lesão inicial.

Duas direções

Segundo Francielle Romanini, entender esse processo ajuda a compreender por que pesquisadores ao redor do mundo trabalham hoje em duas grandes direções simultaneamente.

A primeira busca impedir que essa cascata continue destruindo tecido nervoso, utilizando medicamentos, biomateriais, estratégias cirúrgicas e intervenções precoces.

A segunda tenta recuperar funções já comprometidas, usando tecnologias capazes de reconstruir conexões, estimular neurônios remanescentes ou criar caminhos alternativos entre cérebro e corpo.

Existe ainda um obstáculo adicional que aparece repetidamente nas conversas entre pesquisadores. Depois da lesão, o organismo forma uma cicatriz glial. Embora ela faça parte da resposta natural do corpo ao dano, acaba funcionando também como uma barreira para regeneração nervosa.

Diferentemente da medula espinal original, esse tecido não possui a mesma capacidade de transmitir sinais neurológicos. Em termos simples, recuperar funções perdidas não significa apenas reparar tecido danificado. Significa reconstruir ou contornar um sistema altamente especializado, composto por milhões de conexões neurais organizadas de maneira extremamente precisa.

Talvez seja justamente por isso que existam hoje tantas linhas de pesquisa acontecendo ao mesmo tempo. Algumas tentam impedir que a cicatriz se forme. Outras procuram substituí-la. Algumas apostam em células capazes de reconstruir tecido nervoso. Outras tentam criar pontes artificiais usando eletricidade, implantes ou inteligência computacional.

Foi nesse ponto que comecei a perceber que talvez a pergunta mais importante não fosse quando virá a cura. A pergunta mais honesta parecia ser outra. O que a ciência realmente já consegue fazer hoje, quais promessas ainda precisam ser testadas e como separar esperança de exagero.

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