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Ciência para o Dia a Dia

Mamão verde ou maduro? O ponto da fruta pode mudar como seu intestino responde

O amadurecimento muda a fruta e também a resposta do organismo

Ciência para o Dia a Dia|Camille Perella CoutinhoOpens in new window

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • O estágio de amadurecimento do mamão altera a interação dos microrganismos intestinais com o alimento.
  • Estudos mostraram que mamão maduro pode aumentar a diversidade bacteriana e favorecer espécies probióticas.
  • Fibras do mamão verde promovem maior produção de ácidos graxos de cadeia curta, importantes para a saúde intestinal.
  • Os efeitos benéficos do mamão verde e maduro ocorrem por diferentes caminhos biológicos, mas ainda precisam ser confirmados em humanos.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Mamão verde e mamão maduro não são o mesmo alimento para o intestino Imagem Gerada por AI

Você já ficou alguns minutos escolhendo um mamão no mercado? Mais verde para durar a semana inteira ou bem maduro porque fica mais doce? À primeira vista, parece uma decisão simples. Mas a ciência sugere que essa escolha pode fazer mais do que mudar sabor, aroma ou textura. Ela pode mudar também como os microrganismos do intestino interagem com o alimento.

Confesso que nunca tinha parado para pensar se um mamão verde e um mamão maduro poderiam funcionar como alimentos diferentes dentro do organismo.


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Essa pergunta passou a fazer parte da minha rotina quando participei de um estudo, contribuindo com as análises de microbiota intestinal e bioinformática, em uma pesquisa liderada pelas pesquisadoras Janaina Lombello Santos Donadio e Samira Bernardino Ramos do Prado, sob orientação do professor João Paulo Fabi.

O que parecia apenas uma diferença de textura acabou revelando mudanças químicas complexas e efeitos biológicos inesperados.


Nos últimos anos, cientistas passaram a olhar para os alimentos de uma forma diferente. Não basta saber apenas quantas calorias, proteínas ou vitaminas eles possuem. Hoje entendemos que a estrutura física e química dos alimentos também influencia a forma como o organismo responde.

O intestino é parte central dessa história. Dentro dele existe uma comunidade formada por trilhões de bactérias, fungos e outros microrganismos, conhecida como microbiota intestinal.


Esses microrganismos ajudam a degradar compostos que não conseguimos digerir sozinhos, produzem metabólitos importantes, participam da defesa do organismo e ajudam a regular processos ligados ao metabolismo e à inflamação.

As fibras entram nessa história porque não se comportam todas da mesma forma. Algumas são pouco fermentáveis, outras servem como substrato para grupos específicos de bactérias e muitas podem ter sua estrutura alterada pelo processamento, cozimento ou amadurecimento dos alimentos, modificando a forma como interagem com o intestino e com a microbiota.


O mamão ilustra bem como os alimentos mudam ao longo do tempo. Durante o amadurecimento, suas pectinas, fibras solúveis presentes na parede celular vegetal, sofrem modificações promovidas por enzimas naturais da própria fruta.

Essas alterações mudam características perceptíveis, como textura e doçura, mas também transformam a composição química da fruta e potencialmente a maneira como essas fibras são utilizadas pelos microrganismos do intestino.

Para investigar se essas mudanças poderiam afetar a saúde intestinal, pesquisadores utilizaram um modelo experimental de carcinogênese colorretal em ratos.

Os animais receberam fibras extraídas de mamão verde ou maduro, e foram avaliadas alterações na composição bacteriana, produção de metabólitos microbianos e marcadores iniciais relacionados ao desenvolvimento do câncer colorretal.

O que vimos foi que o estágio de maturação não alterou apenas a fruta. Alterou também a resposta biológica ao alimento. As fibras provenientes do mamão maduro aumentaram a diversidade bacteriana e geraram um perfil microbiano mais parecido com o observado nos animais saudáveis. Isso é importante porque ambientes mais diversos costumam estar associados a maior estabilidade ecológica.

Também observamos aumento de grupos bacterianos frequentemente associados à saúde intestinal. O mamão maduro favoreceu diferentes espécies do grupo Lactobacillus e aumentou outros microrganismos conhecidos pelo potencial probiótico, incluindo Bifidobacterium animalis e Streptococcus thermophilus.

Em conjunto, esses resultados sugerem que o amadurecimento da fruta pode favorecer comunidades microbianas associadas a processos fermentativos considerados benéficos.

Outro resultado chamou atenção. Os animais que receberam fibras provenientes do mamão maduro apresentaram redução de focos de criptas aberrantes, pequenas alterações microscópicas consideradas marcadores iniciais do desenvolvimento do câncer colorretal.

Isso não significa que mamão previna câncer, mas sugere que mudanças estruturais nas fibras podem influenciar eventos muito precoces relacionados à saúde intestinal.

Já o mamão verde apresentou um perfil diferente de resposta. Nesse grupo, observou-se maior produção de alguns ácidos graxos de cadeia curta, moléculas produzidas durante a fermentação das fibras e que desempenham funções importantes na manutenção da barreira intestinal, na comunicação entre intestino e sistema imune e na modulação de processos inflamatórios. Isso sugere que, embora os dois tipos de mamão tenham promovido efeitos positivos, eles parecem atuar por caminhos biológicos diferentes.

Talvez esse seja o achado mais interessante do estudo. Não existe necessariamente um vencedor. Existe uma fruta que se transforma durante o amadurecimento e que, junto com essas mudanças, modifica também suas fibras, a forma como interage com os microrganismos intestinais e, potencialmente, seus efeitos sobre a saúde.

É importante interpretar esses resultados com cautela. O estudo foi realizado em modelo animal e ainda precisamos de pesquisas em humanos para entender se esses efeitos se repetem na prática. Além disso, o intestino humano é muito mais complexo, e fatores como alimentação, genética, medicamentos e estilo de vida também influenciam essas respostas.

Mesmo assim, os resultados reforçam uma ideia importante. Alimentos não são estruturas estáticas. Eles mudam com o tempo, e essas mudanças podem modificar a forma como interagem com nosso organismo.

O trabalho contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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