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Ciência para o Dia a Dia

Um parasita na salada? Entenda o surto de ciclosporíase que chama atenção nos Estados Unidos

Como um parasita transmitido por alimentos frescos conecta água, produção agrícola e saúde intestinal

Ciência para o Dia a Dia|Camille Perella CoutinhoOpens in new window

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Cyclospora cayetanensis é um protozoário responsável pela ciclosporíase, infecção intestinal transmitida por alimentos ou água contaminados.
  • O surto nos EUA destacou a importância de alimentos frescos, como frutas e verduras, na transmissão do parasita.
  • A infecção provoca diarreia aquosa, cólicas, náuseas e pode ser grave em crianças, idosos e imunocomprometidos.
  • Prevenção envolve cuidados na produção agrícola e processamento de alimentos, além de lavagem cuidadosa, embora não garantida, de frutas e hortaliças.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Higienizar frutas e hortaliças é importante, mas não garante a remoção completa de Cyclospora. Imagem Gerada por AI

Nas últimas semanas, um nome pouco conhecido fora dos laboratórios de parasitologia ganhou espaço nas notícias de saúde dos Estados Unidos. Cyclospora cayetanensis é um protozoário microscópico responsável pela ciclosporíase, uma infecção intestinal transmitida principalmente pelo consumo de água ou alimentos contaminados.

O aumento recente de casos durante o verão norte-americano chamou a atenção das autoridades sanitárias e levou o tema também às páginas da JAMA, uma das principais revistas médicas do mundo.


Apesar da repercussão atual, Cyclospora não é um parasita novo. A infecção ocorre em diferentes regiões do mundo, principalmente em áreas tropicais e subtropicais, e há décadas produtos frescos aparecem associados à sua transmissão.

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Framboesas, amoras, morangos, manjericão, coentro, ervilhas e diferentes tipos de alface já estiveram envolvidos em surtos. Nos Estados Unidos, episódios sazonais durante o verão tornaram-se recorrentes e, embora historicamente muitos estivessem relacionados a produtos importados, o parasita também já foi identificado em alimentos cultivados no próprio país.


Uma característica do ciclo de C. cayetanensis ajuda a entender por que alimentos, água e ambiente são tão importantes para sua transmissão. O parasita produz estruturas microscópicas chamadas oocistos, eliminadas nas fezes ainda imaturas e incapazes de provocar imediatamente uma nova infecção.

Para se tornarem infectantes, elas precisam permanecer no ambiente e completar um processo chamado esporulação, que, em condições experimentais, pode levar aproximadamente de sete a 14 dias. Por isso, a transmissão direta entre pessoas é considerada improvável. Água ou solo contaminados por matéria fecal podem participar desse percurso até que os oocistos maduros sejam ingeridos novamente, muitas vezes por meio de alimentos.


Frutas, verduras e hortaliças têm uma importância particular nessa cadeia. Folhas, frutas vermelhas e ervas frescas podem apresentar superfícies que dificultam a remoção completa dos oocistos e geralmente são consumidas cruas, sem uma etapa de processamento térmico capaz de inativá-los.

A presença de Cyclospora já foi relatada inclusive em vegetais prontos para consumo e produtos pré-embalados, indicando que os procedimentos de sanitização utilizados na cadeia produtiva não garantem necessariamente sua eliminação.


Isso não significa que devemos deixar de consumir frutas, verduras e saladas, mas mostra que a segurança desses alimentos não pode depender exclusivamente da higienização feita em casa.

Qualidade da água, saneamento e cuidados durante o cultivo, a colheita e o processamento são fundamentais para evitar que a contaminação aconteça.

Quando um oocisto infectante é ingerido, o parasita chega ao intestino delgado e invade as células do epitélio, principalmente no duodeno e no jejuno. Sua multiplicação pode causar alterações na superfície intestinal, incluindo danos à borda em escova e encurtamento das vilosidades, reduzindo a capacidade de absorver adequadamente água, nutrientes e eletrólitos.

Essas alterações ajudam a explicar o sintoma mais característico da ciclosporíase: uma diarreia aquosa que pode ser intensa e prolongada. Cólicas abdominais, náuseas, fadiga, perda de apetite e perda de peso também podem ocorrer.

Os sintomas costumam aparecer cerca de uma semana após a infecção e, sem tratamento, podem persistir por semanas ou até meses, algumas vezes desaparecendo e retornando. Crianças pequenas, idosos e pessoas imunocomprometidas podem apresentar quadros mais graves.

A ciclosporíase tem tratamento, e a combinação trimetoprima-sulfametoxazol é considerada a terapia de escolha. Ainda não existe vacina contra a doença. A prevenção, porém, merece atenção porque os oocistos são resistentes a desinfetantes comumente utilizados.

O cozimento é capaz de inativá-los, mas muitos dos alimentos associados aos surtos são justamente aqueles que consumimos crus. A lavagem de frutas e hortaliças continua sendo uma prática importante, mas não é possível garantir que ela remova completamente Cyclospora, especialmente de superfícies irregulares.

O surto atual também chama atenção para algo maior do que um parasita encontrado em determinado alimento. A trajetória de Cyclospora cayetanensis conecta contaminação fecal, água, solo, produção agrícola, processamento de alimentos e saúde humana.

Em uma cadeia de produção cada vez mais complexa, prevenir uma doença transmitida pelo que colocamos no prato começa muito antes de o alimento chegar à nossa cozinha.

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