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Noriega: como a França faz brotar craques de futebol do cimento

A seleção mais talentosa da Copa do Mundo é produto de um trabalho meticuloso de prospecção e desenvolvimento de potenciais

Espaço Prisma|Maurício Noriega, especial para o R7*

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Michael Olise e Kylian Mbappé, durante jogo contra o Marrocos David Butler Ii/Reuters - 09.07.2026

É no cimento duro de campos públicos de futebol na periferia de Paris e outras cidades que a França faz brotar os craques que transformam a seleção nacional na sensação e grande favorita para conquistar a Copa do Mundo de 2026.

A fábrica de talentos franceses é um projeto com metodologia e propósito muito bem definidos e conta, inclusive, com o apoio do governo. Desde 1973 é lei na França que todos os clubes de futebol profissional sejam obrigados a manter centros de formação em categorias de base.

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Duas palavras se destacam no processo de formação de craques da França: Banlieues e Clairefontaine. Banlieues pode ser traduzido livremente como periferia no francês do cotidiano.

A tradução formal seria “subúrbio”, mas a expressão da realidade é o termo para os conjuntos habitacionais das periferias das grandes cidades francesas. Clairefontaine é onde fica o Centro Nacional de Futebol da Federação Francesa de Futebol.

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Os projetos de conjuntos habitacionais franceses são muito parecidos com os brasileiros ou os de qualquer outra parte do mundo. Uma sequência de prédios iguais que remetem a fileiras de peças de dominó de concreto gigantes. Em cada quarteirão são construídas quadras de cimento chamadas de “city stade” ou “terrains de proximité”.

É nos torneios organizados nesses campinhos pequenos de cimento duro que observadores oficiais e informais do Plano Federal de Desempenho da Federação Francesa de Futebol garimpam os futuros craques.

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Nos Banlieues vivem majoritariamente franceses de baixa renda, boa parte descendentes de imigrantes ou imigrantes de ex-colônias francesas que vão para a França em busca de melhores condições de vida.

Desse terreno fértil em talento brotaram craques como Zinedine Zidane (começou a jogar na quadra de um conjunto habitacional de Marselha), Paul Pogba, N’Golo Kanté, Randal Kolo Muani, William Saliba, Rayan Cherki e ele, Kylian Mbappé. O pai de Mbappé, Wilfred, foi treinador de categorias de base e revelou Saliba. A maioria dos jogadores revelados nos Banlieues é formada por negros; muitos são árabes e muçulmanos.

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Impacto racial

Pode parecer que o impacto da miscigenação racial da sociedade francesa nas seleções nacionais seja algo recente. Mas não é. Foi em 1931 que o primeiro jogador negro vestiu a camisa da seleção francesa. Raoul Diagne nasceu na Guiana Francesa, de origem senegalesa, e participou da Copa do Mundo de 1938 como jogador de defesa. Diagne foi o primeiro treinador da seleção do Senegal independente. O primeiro atleta muçulmano a jogar pela França foi Ali Benouna, em 1936.

O processo de formação de jogadores responde a um critério estabelecido com base em desenvolvimento esportivo, pessoal e educacional. A partir dos 11 anos, os jovens talentos são selecionados para um primeiro ciclo de treinamentos aprovado pelo Ministério da Educação e pela Federação Francesa. A partir de 13 anos, os meninos podem começar a treinar nos centros de elite.

Para as meninas, o acesso a esse nível de treinamento é a partir dos 16 anos. Há um acompanhamento em tempo integral da vida pessoal dos atletas e do desempenho escolar, que também é critério de aprovação e desenvolvimento. O tempo de treinamento é adaptado ao calendário escolar dos atletas.

Há lógica e método no processo. A captação ocorre num ambiente que exige talento e criatividade para enfrentar o jogo no piso duro de concreto, onde os jovens atletas desenvolvem habilidades para enfrentar um ambiente de disputas intensas em terreno de jogo desafiador.

Após a detecção do talento, vem o processo de formação do atleta para o nível de competição. Os fundamentos técnicos aprendidos no jogo de bairro são preservados e aperfeiçoados para posterior adaptação ao futebol de competição.

Segundo dados da Federação Francesa de Futebol, 30% dos jogadores franceses campeões mundiais de seleções em 1998 e 2018 saíram dos centros de formação que aprimoram talentos descobertos nas quadras de cimento dos Banlieues.

São 16 centros que formam 450 jovens jogadores e oito centros que formam 117 jogadoras por ano. De pouco mais de 660 atletas formados, 130 chegam a assinar contratos como jogadores e jogadoras profissionais.

Semelhanças com o Brasil

Há semelhanças entre a revelação de talentos na França e no Brasil. A maioria dos grandes jogadores brasileiros vem de regiões periféricas de grandes e pequenas cidades. Geralmente de famílias pobres e sem acesso à prática esportiva.

Tradicionalmente, os campos de futebol de várzea e de praia, torneios escolares e as peladas de rua foram centros aleatórios de formação de jogadores. Diferentemente da França, nunca houve um plano nacional de captação e desenvolvimento de futebol com atuação do governo federal.

Com o tempo, a especulação imobiliária acabou com os campos de várzea, vieram os campos de futebol society e, progressivamente, cada clube tratou de fazer seu próprio plano de prospecção de jogadores.

O sistema se autoalimentava. Os jogadores eram descobertos por olheiros, faziam testes nos clubes e desenvolviam suas carreiras. Os melhores se destacavam nos clubes e chegavam à seleção brasileira.

Sem nenhum processo acadêmico ou científico, esse modelo empírico e orgânico foi responsável pela geração de alguns dos maiores jogadores e times da história do futebol mundial. Há pouco registro acadêmico e científico oficial desse processo.

Somente a partir de 2023 a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) criou um programa nos moldes do que faz a França, chamado CBF Transforma. Com investimento inicial de R$ 200 milhões, é uma parceria com as federações estaduais e clubes para desenvolvimento de atletas, árbitros e gestores esportivos no futebol, futebol de areia e futebol de salão para homens e mulheres.

Um dos objetivos do programa é fazer um mapeamento de dados para determinar as diferenças estruturais do futebol em cada estado da Nação e criar um programa de desenvolvimento e massificação. Entre os primeiros do CBF Transforma está a criação de 54 novos torneios de futebol de base.

Não há no site oficial da CBF detalhamento sobre a proposta pedagógica ou algum plano de desenvolvimento técnico do futebol brasileiro. Tampouco existem dados e informações sobre adoção de estilo de jogo, processos de desenvolvimento de atletas e identidade.

*Maurício Noriega é comentarista esportivo da RECORD

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