O tempero brasileiro por trás do novo jeito espanhol de jogar bola
Antes conhecida como A Fúria, Espanha começou a mudar seu estilo antes da Era Guardiola no Barcelona, com um treinador que admirava o Brasil e um brasileiro no meio-campo
Espaço Prisma|Maurício Noriega, especial para o R7*
Há algo de Brasil na nova escola de futebol da Espanha. Antes de Pep Guardiola consagrar o futebol de posse de bola e toque do Barcelona, a primeira finalista da Copa do Mundo de 2026 passou por uma transformação que abandonou o estilo Fúria e deu os primeiros passos de uma escola de futebol consolidada de forma oposta.
O apelido de Fúria da antiga seleção espanhola surgiu no torneio de futebol dos Jogos Olímpicos de 1920, em Antuérpia (Bélgica). O estilo agressivo e ofensivo do time espanhol foi comparado ao comportamento furioso das tropas espanholas na Guerra dos Oitenta, no século XVI. O apelido pegou durante muito tempo e virou sinônimo da “La Roja”.
Até 2008, a seleção espanhola nem de longe lembrava o perfil vencedor dos dois maiores clubes do país, Real Madrid e Barcelona. Tinha apenas um título importante no currículo: a Euro de 1964. Um jogador que estreou na seleção um ano após essa conquista foi quem deu fim à Fúria e inaugurou o novo estilo de jogar futebol da Espanha. Luís Aragonés fez fama como meio-campista ofensivo no Atlético de Madri. Bom cobrador de faltas, foi artilheiro do Campeonato Espanhol de 1969/70. Quando parou de jogar, assumiu como treinador do time Colchonero.
Aragonés foi um grande admirador dos jogadores brasileiros. Ele trabalhou com dois craques brasileiros no Atlético de Madri, Luís Pereira e Leivinha, que brilharam no time espanhol depois de se consagrarem no Palmeiras. As lendas alviverdes sempre ressaltaram a admiração de Aragonés pelos brasileiros. Quando assumiu o comando da seleção espanhola, em 2004, Aragonés disse em uma entrevista de TV que “o melhor futebol é o do Brasil”, acrescentando que “nós, espanhóis, somos importadores de talento, os brasileiros exportam”.
O treinador apostou alto na naturalização do volante brasileiro Marcos Senna para o time que jogaria a Euro de 2008, na Suíça e na Áustria. Senna jogava com sucesso no Villareal e foi efetivado como titular na seleção da Espanha, barrando Xabi Alonso. Ele era o responsável pelo início das jogadas, a saída de bola com qualidade, com índice de acerto superior a 85%. A Espanha venceu a Euro, derrotando a Alemanha por 1 a 0 na final, em Viena, e deu início a um período de conquistas, como a Copa do Mundo de 2010 e a Euro de 2012, já com Vicente Del Bosque à frente. Mas foi o time de Aragonés (morreu em 2014), com o tempero brasileiro de Marcos Senna, que sepultou a fama de Fúria e mudou o estilo de jogo. A pressa deu lugar ao toque e ao controle, ao jogo de troca de passes e a capacidade de se defender com a bola, que hoje são os pilares da escola espanhola de futebol.
Guardiola assumiu o Barcelona em 17 de junho de 2008, 12 dias antes do bicampeonato da Espanha na Euro. Ele consagrou o que se chamou de tiki-taka, um termo criado por um jornalista espanhol chamado Andrés Montes, que definia o estilo de jogo do Barça de Guardiola. Que era uma adaptação da escola holandesa de futebol do Ajax, implantada por uma série de técnicos holandeses que chegaram ao clube, a começar por Rinus Michels, no início dos anos 1970. Michels era discípulo de um treinador inglês chamado Jack Reynolds, que foi seu técnico no Ajax. Johan Cruyff era discípulo de Michels e estabeleceu suas ideias como estilo de futebol no Barcelona.
Quando a Espanha neutraliza a sensação da Copa e chega à sua segunda final, é bom recordar a participação brasileira na construção de uma escola muito particular de futebol. Numa era em que o futebol globalizado praticamente sepultou as escolas, a Espanha mantém a sua com orgulho e competência. Além de um certo tempero brasileiro.
*Maurício Noriega é comentarista esportivo da RECORD
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