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Maurício Noriega: o futebol brasileiro pede socorro

Em meio a jogos horríveis e picuinhas de bastidores, é preciso levantar a bandeira da qualidade do espetáculo, antes que seja tarde

Espaço Prisma|Maurício Noriega, especial para o R7*

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O que falta ao futebol brasileiro é admitir que o produto que vem sendo entregue a cada rodada pode – e deve - ser muito melhor Ari Ferreira/Red Bull Bragantino

Os sintomas são claros. Não é de hoje que o futebol brasileiro dá sinais de esgotamento. O desempenho medíocre na Copa do Mundo reflete um processo que se desenrola há décadas. A queda de qualidade do futebol praticado no Brasil é alarmante! Infelizmente, parece haver pouca gente interessada em debater o tema com seriedade, propostas e, mais do que tudo, partindo de uma visão realista.

O Campeonato Brasileiro segue sendo um produto muito interessante. É disputado, mexe com os torcedores. A competição continua a mesma, mas a qualidade... quanta diferença!


Custa crer que não existam vozes entre dirigentes, treinadores, jogadores e jornalistas que admitam que assistir – e transmitir – certos jogos de futebol no Brasil é uma experiência traumatizante.

Confesso, de minha parte, que em alguns jogos que transmitimos pela RECORD, é preciso fazer malabarismos de oratória para convencer o telespectador a permanecer.


É um festival de passes errados, dificuldade para dominar a bola, faltas desnecessárias, simulações constrangedoras e reclamações. Muitas reclamações. De jogadores e treinadores durante, e de dirigentes depois. Some-se a isso arbitragens desastrosas, gramados impraticáveis, iluminação precária e uniformes cujos números parecem criptografados.

Jogadores que tinham comportamento impecável quando atuavam na Europa parecem contaminados pelo vírus da reclamação e da catimba quando voltam ou chegam ao Brasil pela primeira vez na carreira. A lógica vale para dirigentes e treinadores. Quando desembarcam por aqui, tudo vira motivo para reclamação e mau comportamento.


As entrevistas coletivas são um rosário de protestos contra tudo e contra todos, mas raras são as ocasiões em que se reconhece a precariedade do conteúdo futebolístico apresentado. Reconheço que não falta entrega, treinamento e dedicação. Muitos atletas representam a profissão com dignidade, suportando meses de salário atrasado e dívidas.

O que falta ao futebol brasileiro, como entidade, é admitir que o produto que vem sendo entregue a cada rodada pode – e deve - ser muito melhor. Futebol, mais do que competição pura e simples, é espetáculo, entretenimento. O filme que vai às telas por aqui, quando comparado a produções das grandes ligas europeias, é entediante.


Há argumentações pertinentes. Calendário pesado, agressividade da cobertura jornalística e de influenciadores, cobrança desproporcional e amadora, distâncias enormes, desequilíbrio de espaço entre jogos.

Será esse o motivo para tanto jogador querendo mudar a anatomia humana, transformando peito em rosto? Algo explica o fato de nove entre dez jogadores que atuam no Brasil preferirem se jogar a dar continuidade a um lance. Ou apelar para uma falta em vez de roubar a bola limpamente.

Não tenho essa estatística, mas sou capaz de apostar que o futebol brasileiro, entre os considerados grandes, é aquele com maior índice de passes errados. Nem estou me referindo a um passe daqueles bonitos, que abrem defesas. É aquele passe chinfrim mesmo, de cinco metros. Andam errando cobrança de lateral!

Houve um período sem jogos durante a Copa do Mundo. Havia a esperança de que, com tempo de treinamento e descanso, teríamos mais qualidade. Doce ilusão. A bola segue cobrando adicional de insalubridade.

A nova moda do nosso futebol não é uma jogada ensaiada, um drible criativo, é o torneio das Notas Oficiais. Uma choradeira de clubes que usam suas plataformas oficiais para posarem de vítimas, trocarem farpas e calarem quando erros a seu favor acontecem.

Quanto tempo vai demorar para quem manda no futebol, e nos clubes, perceber que o cliente está insatisfeito e o produto corre risco de ser desvalorizado?

É urgente que o futebol volte a ser um programa de qualidade, com oferta de grandes jogadas, golaços e estratégias. Chega de simulação, de choradeira, de fingimento, de malandragem!

Vejo jogos em que não há um mísero drible. Um solitário, daqueles que arrancam sorrisos. Em outros, parece estar em campo um desafio: ganha um final de semana na praia o jogador que acertar um cruzamento.

Pior de tudo é ouvir em entrevistas que os atletas saíram satisfeitos e que consideraram um bom jogo a pelada de quinta categoria entregue.

Qual seria o primeiro passo para mudar esse quadro?

Fazer com que o encantamento pela bola volte a ser a porta de entrada do futebol. Libertar as crianças que começam no futebol dessa obsessão por preparação física e orientação tática, que robotiza atletas desde muito cedo.

Todos sabem fazer recomposição, entendem gatilhos de pressão, conhecem o último terço do campo, mas lutam para dominar o esférico, mesmo em campos que são tapetes. Com o perdão da redundância, fundamento é fundamental!

Quando voltarmos a formar jogadores tecnicamente melhores e pudermos, através de gestão economicamente responsável, contratar jogadores melhores, o Brasil combaterá essa alarmante decadência estética.

Felizmente, o legado construído por camisas e histórias de clubes e atletas maravilhosos ainda seduz jovens.

Alguém está preocupado com um dado que esgoela das pesquisas de tamanho de torcida. A maior torcida do Brasil, a do Flamengo, é do mesmo tamanho da torcida dos que não torcem para ninguém! Você viu algum dirigente, treinador ou jogador incomodado?

As mesas-redondas de rádio, TV, redes sociais e streaming, salvo honrosas exceções, migraram para o formato de falsas polêmicas, gritarias ensaiadas, torcedores travestidos de comentaristas disparando bravatas e palavrões. Tudo em nome de um tal de jornalismo-raiz que não passa de uma gororoba inventada por quem não sabe fazer o bom e velho jornalismo.

Os piores momentos das bizarrices que andam acontecendo deveriam envergonhar, não fazer rir.

O futebol brasileiro pede socorro.

Antes que seja tarde.

*Maurício Noriega é comentarista esportivo da RECORD

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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