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O mundo empresarial e as dores do crescimento: quando chega a hora de vender o negócio

De sonho a um ativo, um desafio e uma oportunidade

Logística e Liderança|Gilson SchilisOpens in new window

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Vista aérea da unidade industrial da Injepet em São Paulo, uma das principais fabricantes de embalagens PET do país. Fulwood /Divulgação

Tudo começou em um sonho de criança, ainda na década de 70. Ou, talvez, já era uma questão de visão, que norteia o caminho de todo empreendedor.

Além do sabor, todos lembram do Danoninho por conta do clássico potinho de plástico vermelho, com formato que cabia em todo lugar: na geladeira, na lancheira, presente na minha rotina desde pequeno e me fascinava desde a prateleira dos supermercados até o momento do consumo.


Como me encantava aquele potinho de plástico! Eu olhava para ele e ficava curioso sobre as possibilidades que o plástico oferecia. Aquilo me interessava tanto que eu perguntava para a minha mãe como o plástico virava aquela embalagem, entre tantas outras que poderiam resultar dele. À medida que fui crescendo, comecei a fazer pesquisas e aprender sobre o assunto.

Sempre imerso na intenção de empreender, me dediquei a trabalhar na captação de recursos e na construção de uma modesta poupança. Como funcionário, em tempos de inflação batendo 90% ao mês na década de 90, havia escassez de automóveis 0 km, ou seja, havia mais demanda do que oferta e, por consequência, o automóvel usado se valorizou.

Então, além da carreira profissional, me dediquei ao comércio em pequena escala de automóveis, entre outras iniciativas, como forma de complementar a minha renda para complementar poupança. Como tudo o que eu fazia, essa atividade era levada a sério, como uma segunda carreira, nas horas disponíveis.


O interesse pelo plástico também se profissionalizou com pesquisas e estudos de mercado. Mesmo em meio às urgências da vida, com carreira sólida como auditor, chefe de família e já com os meus dois filhos, aos 31 anos, eu tinha acumulado pequena poupança para dar um passo adiante e fundar a minha tão sonhada fábrica de plásticos.

O desafio ainda era a inflação, mas, a partir da avaliação de mercados similares, como o México, que era mais avançado em termos de distribuição de renda em relação ao Brasil, era possível prever que, quando viesse o programa de estabilização de renda, o consumo de alimentos iria aumentar.


Parte da vida

O fato é que o plástico sempre fez parte da vida das pessoas, inclusive as de menor renda. Era a oportunidade de estar com a fábrica de plásticos ativa neste momento de crescimento econômico.

Como tudo acontece na hora e no lugar certo, no início da década de 90, eu trabalhava para uma indústria de Manaus. O plástico envolve alguns desafios em sua fabricação e o mercado transitava fortemente por lá devido à política de incentivos fiscais da região.


O fato é que não há segurança da carteira assinada, mesmo casado e com filhos pequenos, em pleno recesso econômico, que ofusque o sonho de quem nasceu para empreender. Foi assim que, em 1991, fundei a Injepet Embalagens. A decisão gerou uma ligeira insegurança para a minha família, mas segui em frente.

O início envolveu a compra do terreno, foco comercial, a obtenção de licenças de funcionamento e operação com o plástico, as obras e a aquisição dos equipamentos, além da contratação dos colaboradores.

O trabalho foi árduo e eu me envolvia em tudo: contratos de vendas e fornecimento, logística, qualidade, contabilidade, finanças e vendas. O ápice para mim ocorreu em maio de 1994, quando foi entregue a primeira garrafa produzida pela Injepet.

Para quem sempre sonhou com um negócio, não foi um problema descobrir que a máxima de que empreendedores não têm chefes e são completamente independentes é mito, pois a verdade é que todo mundo lidera o empreendedor: clientes, fornecedores, colaboradores e a comunidade do entorno.

Por outro lado, a liderança é solitária, especialmente na hora de tomar decisões, pois não há com quem trocar experiências. E quanto maior o negócio, mais sozinho você toma as decisões.

Prioridades e exigências

Mas os empreendedores podem escolher suas prioridades e as exigências que vão atender. Havia necessidade de salvar uma negociação com um fabricante de refrigerantes independentes?

Estabelecer quantas máquinas adicionar às linhas? Qual era o limite de endividamento da empresa, permitindo a nossa expansão? Lá estava eu, trabalhando 18 horas ao dia, na operação e mantendo a salubridade financeira do meu sonho, a fabricante de garrafas PET, que ganhou corpo, assim como cada uma das embalagens.

A Injepet estava a pleno vapor e se desenvolveu exatamente com o boom das embalagens sem retorno de refrigerante, água mineral e isotônicos. Era o momento e a hora certa para tornar a fábrica em um ativo promissor.

Em dois anos, o faturamento foi multiplicado por 8. Além de Manaus, onde iniciamos a operação em um prédio apropriado à divisão de embalagens, expandimos e chegamos a São Paulo, com uma fábrica na região de Tamboré.

Como foi difícil encontrar bons galpões, capazes de se adaptar à nossa operação, que era sazonal. Nos períodos mais quentes do ano, o consumo de garrafas PET cresce e os estoques eram baixos, mas no inverno aumentavam consideravelmente.

Especialmente em São Paulo, o mercado era promissor para bons ativos. Diante dessa dificuldade, enxerguei uma oportunidade. Dava para fazer grandes coisas com um bom galpão, eu pensava!

Simultaneamente à nova paixão que surgiu na Injepet, nós crescíamos. O volume de profissionais subiu de 25 para 600 pessoas. Foi quando ocorreu o private equity em 1997, com a projeção de aumento significativo do faturamento.

As dores do crescimento existem e fazem parte da realidade de um empreendedor entusiasmado com seus resultados. Passei, então, a assumir uma dupla condição na Injepet: principal acionista, com 51%, mas assalariado e contratado na posição de presidente executivo.

Foi assim que passei a ter como chefes também investidores e acionistas, discutindo e aprovando todas as decisões em conselho de administração, inclusive contratações e demissões de profissionais.

Em menos de uma década da fundação, o faturamento cresceu 25 vezes. Assim como um filho que cresce e se torna independente para o mundo, o plano de negócios da Injepet estava cumprido e chegou a hora de vender a empresa toda para um parceiro estratégico, o qual deu à empresa, ao mercado, às comunidades em geral e aos funcionários muitas novas oportunidades.

Importância de um galpão

No dia seguinte à venda, veio a ansiedade. Aos 40 anos de idade, eu queria continuar a empreender. O que aconteceu com o sonho?

Cresceu, principalmente quando entendi na prática a importância de um bom galpão para a indústria nacional, com um modelo full, ou seja, a operação completa, desde a armazenagem, embalagem e despacho do pedido, com estoque regulador, o que requer um bom espaço para armazenar uma quantidade estratégica de produtos no centro de distribuição, garantindo entregas rápidas, inclusive no pico da sazonalidade de determinado produto, sem ruptura enquanto há a reposição, com a facilidade do compartilhamento condominial. Que ativo atrativo às necessidades do mercado da época e até hoje!

Foi assim que renovei não apenas o sonho, mas amadureci como empreendedor, culminando na fundação da Fulwood Condomínios Logísticos. Mas esse é assunto para a nossa próxima reflexão.

O que já posso adiantar é que, onde todos enxergavam um espaço, a minha preocupação era a busca por um vão de oportunidade. Esse lema, somado à máxima de fazer mais por menos, orientou a continuidade da minha jornada. E por aí, onde estão os vãos?

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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