Grandes decisões não nascem apenas da análise de dados
Capacidade de interpretar cenários continua sendo o maior diferencial de líderes que precisam decidir
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Inteligência artificial, algoritmos, business intelligence: infinitas são as possibilidades no mundo em que vivemos quando falamos sobre análise de dados. Com tanta informação, a impressão é que as grandes decisões corporativas estejam cada vez mais automatizadas. Mas, para ser honesto, a inteligência artificial não mudou tanto assim a minha forma de decidir.
Reconheço, obviamente, o potencial dos dados. A tecnologia contribui para a redução de incertezas e o entendimento de padrões, organizando informações que antes eu teria que garimpar sozinho. Ao longo de mais de três décadas empreendendo, aprendi que os dados raramente contam toda a história, pois a decisão permanece sendo humana.
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Lembro de quando analisamos a cidade de Sorocaba para desenvolver um condomínio logístico. Naquele momento, a percepção do mercado era de que ainda não justificava um empreendimento do porte que iríamos construir. Os indicadores apontavam para outras regiões.
No entanto, caminhando pela cidade com um olhar atento, eu via uma realidade diferente. Empresas importantes já operavam ali, a população crescia e havia um dinamismo econômico que ainda não aparecia nas estatísticas. Decidimos seguir em frente e o tempo mostrou que aquela leitura estava correta.
Não foi a única vez. Antes disso, aconteceu o mesmo na compra do antigo terreno de uma fábrica de produtos alimentícios em conserva, em Jundiaí. O cenário se repetiu em Extrema, quando muitos consideravam arriscado desenvolver logística em uma região que ainda não era vista como polo estratégico.
Em todos esses casos, ouvi o mercado, estudei os números, mas tomei a decisão observando aquilo que os indicadores ainda não conseguiam captar.
Essa capacidade de enxergar oportunidades foi construída por um olhar exclusivamente humano, continuamente construído ao longo dos anos.
No início da carreira, quando trabalhava na indústria, aprendi que logística não se resume a transporte. Passei a entender como localização, distância e custo se relacionavam e como pequenas mudanças podiam transformar completamente a eficiência de uma operação. Cada desafio ultrapassado aumentava o meu repertório para enfrentar o próximo.
Anos depois, durante um treinamento com o preparador físico e palestrante Nuno Cobra, ouvi uma história sobre Ayrton Senna que trago comigo até hoje. Diziam que ele enxergava “um vão onde a maioria via apenas espaço”. Esta frase ficou gravada e passei a olhar os negócios da mesma forma. Onde muitos enxergavam limitações, eu procurava oportunidades.
Foi assim que surgiram soluções que depois se tornaram referência no mercado, como galpões mais eficientes, estruturas compartilhadas e novos modelos de ocupação capazes de reduzir custos para diferentes empresas, no formato que hoje conhecemos como condomínios logísticos.
Muita gente chama isso de intuição. Eu gosto de chamar de experiência acumulada. A intuição não nasce de um impulso, mas sim da repetição. Foi observando centenas de negociações, fazendo visitas a inúmeros terrenos, conversando com diversos clientes, errando, corrigindo e aprendendo dia após dia. Toda experiência é transformada em velocidade de raciocínio.
Mas decidir também significa enfrentar momentos difíceis. Durante a crise de 2013 e 2014, convivemos com galpões vazios, contratos encerrados e um mercado retraído. Em vez de esperar que a concorrência reduzisse os preços de locação, decidimos fazer esse movimento antes. Não era a decisão mais confortável, mas era a mais responsável para aquele momento.
Outra decisão igualmente difícil foi desligar um profissional que fazia parte da nossa história, mas que já não contribuía para o crescimento da empresa. Adiei essa conversa durante muito tempo. Aprendi que coragem nem sempre significa apostar alto. Muitas vezes, está em reconhecer que insistir em uma situação custa mais do que encerrá-la.
Existe outro aprendizado que considero indispensável para qualquer líder: nenhuma decisão importante pode ser tomada apenas olhando relatórios. Vejo muitos executivos extremamente preparados, cercados de indicadores, mas distantes da operação. O problema é que os números mostram consequências. A realidade mostra as causas.
É possível identificar a dor de um negócio no centro de distribuição, no chão de fábrica, no terreno onde a obra de um empreendimento se desenvolve, conversando com os ocupantes dos nossos galpões e até mesmo em conversas com colaboradores.
São nessas ocasiões que surgem as informações que painel algum consegue registrar. Quanto mais distante o líder está da operação, maior a chance de interpretar os dados de maneira equivocada.
A inteligência artificial amplia nossa capacidade de analisar informações, e isso é extremamente positivo. Mas continuo acreditando que interpretar essas informações é uma responsabilidade que não pode ser delegada.
Recentemente recebi uma análise produzida por inteligência artificial sobre os impactos da reforma tributária. Era um estudo consistente, mas a conclusão não fazia sentido para quem acompanha esse mercado diariamente. A tecnologia organizou os dados e a interpretação continuou dependendo da experiência.
Talvez seja exatamente esse o maior desafio da liderança contemporânea. Nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, nunca foi tão importante desenvolver discernimento para separar tendência de ruído, oportunidade de entusiasmo momentâneo e risco de inovação.
No fim das contas, acredito que grandes decisões corporativas nunca serão tomadas apenas por algoritmos ou apenas pelo instinto. Os dados mostram o caminho e a experiência conduz à interpretação real do cenário. A governança estabelece limites e responsabilidades, mas é a capacidade humana de conectar essas peças que impulsiona o crescimento.
A tecnologia continuará evoluindo. Os indicadores serão cada vez mais completos. Ainda assim, acredito que o maior diferencial de um líder continuará sendo exatamente o mesmo: enxergar vãos, aquilo que os outros ainda não conseguiram ver.
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