O maior legado de um pai é ver os filhos assumindo a direção do negócio
Valores que atravessam gerações e moldam uma empresa familiar em expansão

Quando volto à minha infância, lembro daquele potinho branco de plástico, ainda sem a marca estampada, e percebo que foi ali que nasceu meu primeiro olhar curioso para o mundo.
Eu não sabia explicar, mas aquele objeto simples me despertava perguntas: como aquilo era feito, como chegava às pessoas, como podia existir todos os dias na mesa de tanta gente?
Hoje entendo que aquele olhar foi o início de tudo. E, sem perceber, foi também o primeiro valor que transmiti aos meus filhos: a curiosidade que não se ensina sentado em uma mesa, mas convivendo e observando.
A minha primogênita cresceu estimulada por esse olhar atento. Formou-se engenheira química, foi trabalhar em uma multinacional, até que um dia me disse: “Pai, não vou trabalhar mais lá. Quero trabalhar com você.”
Meu segundo filho trilhou outro caminho, foi cavaleiro, passou por um escritório de investimentos, mas chegou à mesma conclusão.
Os dois queriam que eu ensinasse como se fosse aula, mas eu sempre repeti: se eu quisesse lecionar, teria sido professor universitário. Cada um precisava encontrar seu espaço, conversar com as pessoas, se encaixar, errar, corrigir e aprender. Foi assim que eles absorveram não só o que eu fazia, mas como eu pensava.
Meus filhos cresceram enquanto eu construía a Injepet, trabalhando 18 horas por dia, enfrentando uma alta taxa de inflação e tomando decisões que mudavam o rumo da empresa. Eles viam de perto o que a dedicação extrema a um negócio exige.
Eu contava para eles sobre o câmbio e sobre os desafios da operação. Enquanto isso, brincávamos de achar a logomarca da Injepet na embalagem da garrafa enquanto tomávamos refrigerante. Eles aprenderam a gostar do negócio antes de aprender a administrá-lo.
Conciliar paternidade e empreendedorismo nunca foi simples. Durante os dez anos em que toquei a Injepet em Jundiaí e Manaus, eu ficava a semana inteira fora e voltava de madrugada na sexta, chegando antes deles acordarem no sábado.
Não levava o celular e passava o fim de semana integralmente com eles, levando-os para passear a cavalo, andar de quadriciclo e cantar no karaokê. Eu contava histórias, ouvia-os, íamos ao cinema, fazíamos churrascos e passeávamos com o cachorro.
Para mim, “amor não é expresso em quantidade, mas em qualidade”. O tempo que eu tinha com eles, eu vivia por inteiro.
A venda da Injepet foi um marco emocional. Fizemos o private equity da empresa quando eles tinham 9 e 11 anos e, três anos depois, concluímos a venda da empresa. Quando contei a eles, o apoio foi total: “Pai, confiamos em você”, eu ouvia.
Mas, por dentro, eu fiquei triste. De um dia para o outro, eu tinha disponibilidade financeira e não tinha mais o comando da empresa. Foquei em desenvolver os empreendimentos da Fulwood em Jundiaí, obtendo as aprovações, licenças, concorrências e terraplanagem. E assim o meu trabalho voltou a tomar corpo.
Hoje vejo que não foi somente uma boa decisão empresarial, mas o início de tudo que veio depois: a Fulwood, a Viva Food e gestora. O desapego é fruto da maturidade e passar por aquele momento com eles ao meu lado, sem cobrança, me ensinou que encerrar ciclos é também um ato de coragem.
Meus filhos me ajudaram a enxergar o futuro da Fulwood de forma diferente. Foi quando minha filha disse que queria trabalhar comigo, desenvolvendo galpões, que notei que aquilo que começou como um negócio para sustentar a família podia se transformar em legado.
Depois, com a chegada do segundo filho ao negócio, ocorreu um marco em nossa jornada. Em uma discussão, ele me disse: “Pai, a gente não pensa igual. Somos diferentes.”
Celebrei essa percepção, pois isso era o que eu sempre busquei neles, o próprio potencial e não uma reprodução minha. Naquele momento, ele deixou de tentar adivinhar o que eu faria e passou a resolver do jeito dele.
Começou a desenvolver seus próprios mecanismos de análise, controlar as variáveis de um negócio, estruturar projetos, compreender o mercado, o valor de cada terreno, preço, custo e capital, e o porquê por trás de cada decisão. Foi quando eu notei como ele estava amadurecendo a partir da própria personalidade.
Com o seu olhar racional e observador, fruto da experiência no mercado financeiro, ele trouxe leituras novas, como a aposta promissora em Minas Gerais, como Betim, Pouso Alegre e Extrema, que deu certo e despontou como um dos principais motores logísticos da América Latina.
Em outros momentos, confiei no meu instinto e comprei terrenos que ninguém queria, que experimentaram uma valorização muito importante. Foi uma via de mão dupla: meus filhos trouxeram uma nova ótica e eu mantive a experiência. Juntos, fizemos a empresa crescer de um jeito que não teria ocorrido somente com a minha visão.
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