Fertirrigação ganha espaço e impulsiona eficiência no campo
Tecnologia que combina irrigação e nutrição de precisão ajuda a reduzir impactos climáticos na produção agrícola

A fertirrigação é uma das tecnologias que vêm ganhando espaço na agricultura brasileira por contribuir para a produtividade e o uso mais eficiente dos recursos naturais. A técnica se destaca por integrar irrigação e nutrição de precisão, ampliando o desempenho das lavouras e a estabilidade das safras.
O Mundo Agro conversou com Lucas Satiro, gerente de fertirrigação da Yara Brasil, para saber sobre benefícios e desafios.
Mundo Agro: Em um cenário de eventos climáticos cada vez mais extremos, a fertirrigação pode ser considerada uma ferramenta estratégica para garantir a estabilidade da produção agrícola? Quais resultados práticos já são observados no campo?
Lucas Satiro: Sim, a fertirrigação é uma ferramenta estratégica para aumentar a estabilidade da produção em cenários de maior variabilidade climática, pois reduz o estresse hídrico e nutricional ao longo do ciclo e melhora a previsibilidade produtiva.
Na prática, isso se reflete em menor variabilidade entre safras, maior resistência a veranicos e melhor eficiência no uso de água e nutrientes, o que estabiliza o desempenho da lavoura mesmo em condições climáticas adversas.
Um exemplo prático que podemos trazer é para o café conilon do norte do Espírito Santo. Análises indicam que, em comparação ao sequeiro, sistemas irrigados podem aumentar a produtividade em cerca de 50%.
Ao incorporar a fertirrigação, esse ganho pode crescer aproximadamente mais 15%, e, com um manejo nutricional mais ajustado, realizado com fontes adequadas para fertirrigação, mais 12%. Isso pode representar a evolução de cerca de 37 sacas/ha em sequeiro para até 71 sacas/ha em sistemas fertirrigados bem manejados.
Mundo Agro: O Brasil possui cerca de 8,2 milhões de hectares irrigados, mas tem potencial para chegar a 55 milhões. Quais são os principais entraves para essa expansão e o que precisa ser feito para acelerar a adoção da tecnologia?
Lucas Satiro: A expansão da irrigação no Brasil ainda enfrenta alguns entraves importantes. O principal é o alto investimento inicial para implantação dos sistemas, especialmente para pequenos e médios produtores.
Além disso, há uma lacuna de conhecimento técnico sobre os ganhos reais de produtividade, eficiência no uso da água e rentabilidade, principalmente quando se considera a integração com tecnologias como irrigação de precisão e fertirrigação.
Também pesam a necessidade de maior capacitação para manejo adequado e a oferta de soluções mais simples e integradas no campo. Para acelerar a adoção, é fundamental ampliar assistência técnica, treinamento e, principalmente, a demonstração prática de resultados em fazendas já irrigadas. Isso ajuda a reduzir a percepção de risco e acelera a tomada de decisão do produtor, tornando a irrigação uma alavanca mais rápida de produtividade, resiliência climática e eficiência no uso de recursos.
Mundo Agro: A pressão por produzir mais sem abrir novas áreas é crescente. De que forma a combinação entre irrigação e nutrição de precisão contribui para uma agricultura mais sustentável e para a preservação dos recursos naturais?
Lucas Satiro: A pressão para produzir mais alimentos sem expandir a área agrícola é um dos maiores desafios da agricultura moderna. Nesse contexto, a integração entre irrigação e nutrição de precisão se destaca como uma das principais alavancas para ganhos sustentáveis de produtividade.
A fertirrigação combina esses dois pilares ao fornecer água e nutrientes de forma simultânea e diretamente na zona radicular das plantas. Quando bem manejada, essa prática pode aumentar a produtividade em 30% a 50% em relação ao cultivo em sequeiro.
Além do ganho produtivo, os benefícios incluem maior eficiência no uso de água e fertilizantes, redução de perdas por lixiviação e menor risco de contaminação de corpos d’água.
Também contribui para a diminuição do trânsito de máquinas no campo, reduzindo a compactação do solo e as emissões de gases de efeito estufa associadas às operações agrícolas.
Ao aumentar a produtividade sem aumento proporcional do uso de insumos e recursos, a fertirrigação também reduz a intensidade de emissões de gases de efeito estufa por tonelada de alimento produzido, contribuindo diretamente para sistemas de produção mais eficientes em carbono.
Em um cenário de mudanças climáticas e maior frequência de eventos extremos, essa prática aumenta a estabilidade produtiva e a resiliência das lavouras. Assim, permite produzir mais na mesma área, com melhor uso dos recursos naturais e menor necessidade de expansão da fronteira agrícola, unindo produtividade, rentabilidade e sustentabilidade de forma consistente.
Mundo Agro: O produtor rural busca cada vez mais retorno sobre o investimento. Qual é a relação entre custo e benefício da fertirrigação e em quanto tempo, em média, a tecnologia tende a se pagar dentro da propriedade?
Lucas Satiro: Para viabilizar a fertirrigação, é necessário primeiro ter o sistema de irrigação instalado. No caso da irrigação por gotejamento, que é o sistema mais eficiente tanto no uso da água quanto na fertirrigação, o custo de implantação varia conforme a cultura, ficando em torno de R$ 15 mil por hectare em culturas com maior espaçamento, como citros, e podendo chegar a cerca de R$ 25 mil por hectare em culturas mais adensadas, como tomate.
Também devemos levar em consideração o investimento no sistema para realizar a fertirrigação, que também varia bastante conforme o nível de automação e tecnologia adotados, representando, em geral, entre 2% e 10% do custo total do sistema de irrigação. O retorno do investimento depende da cultura, nível de tecnologia e manejo adotado.
Em hortifrutícolas (HF), o retorno geralmente ocorre já na primeira safra. Em culturas de maior valor agregado, esse prazo pode ser ainda mais curto devido ao ganho imediato de produtividade e qualidade. No café, por exemplo, o retorno tende a ocorrer na 1ª ou 2ª safra, enquanto em citros ocorre, em média, entre 2 e 3 safras.
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