O desafio de financiar o próximo ciclo de crescimento do agro
Crédito rural continua indispensável, mas mercado de capitais, fornecedores, cooperativas e capital próprio ganham espaço na expansão do agronegócio

O agronegócio brasileiro precisa de crédito para crescer, mas o desafio já não é apenas aumentar o volume de recursos disponíveis.
A dimensão e a complexidade do setor exigem novas formas de financiamento, capazes de combinar crédito rural, bancos, mercado de capitais e outras fontes de capital. Mais do que colocar dinheiro à disposição, é preciso estruturar recursos com prazos, custos e garantias compatíveis com os diferentes ciclos do negócio rural.
O Mundo Agro abriu a porteira para o artigo de André Rocha, especialista em reestruturação empresarial, turnaround, gestão de crises e estratégia.

“ O agro precisa de mais crédito e de novas formas de financiar o crescimento
Por André Rocha, especialista em reestruturação empresarial e gestão de crises
O agronegócio brasileiro chegou a um ponto em que discutir financiamento deixou de ser uma questão restrita aos bancos, ao governo ou aos produtores. O tema diz respeito à própria capacidade de crescimento de uma das principais forças da economia brasileira.
Uma pergunta apresentada durante o VIII Congresso Nacional de Direito Agrário, realizado em Ribeirão Preto, resume o tamanho do desafio: de quanto o agronegócio brasileiro precisa, a cada ano, para financiar suas atividades? Na ocasião, foi citada uma estimativa de 2022 segundo a qual a necessidade total de financiamento do setor alcançava cerca de R$ 800 bilhões, enquanto o Plano Safra 2022/23 disponibilizou R$ 340,88 bilhões.
Os números evoluíram. Para a agricultura empresarial, o Plano Safra 2026/27 programou R$ 525,1 bilhões para custeio, comercialização e investimentos; para as operações do Pronaf, foram anunciados R$ 85,2 bilhões. Ainda assim, a comparação histórica evidencia uma questão estrutural: a política pública de crédito rural é indispensável, mas não consegue, sozinha, atender a todas as necessidades de capital de um setor amplo, diversificado e intensivo em investimento.
O desenvolvimento do agro exige uma combinação crescente de crédito rural, sistema bancário, mercado de capitais, indústria, fornecedores, cooperativas, fundos de investimento e capital próprio de produtores e empresas. Mais do que substituir uma fonte por outra, trata-se de construir uma estrutura de financiamento mais ampla, adequada aos diferentes ciclos e riscos do negócio rural.
O crédito rural deixou de ser uma questão exclusivamente bancária
Durante muito tempo, falar em financiamento do agronegócio significava falar principalmente em crédito rural. O produtor buscava recursos nos bancos, em linhas sujeitas às regras da política agrícola e, em determinados casos, à equalização de taxas de juros, e estruturava sua produção de acordo com essas condições.
Esse modelo continua fundamental, mas já não é suficiente para atender à dimensão e à complexidade do agronegócio brasileiro. O produtor está inserido em uma cadeia que demanda recursos para custeio, aquisição de máquinas, armazenagem, logística, tecnologia, insumos, terras, recuperação de áreas, investimentos ambientais e capital de giro.
Além disso, os ciclos agrícolas nem sempre coincidem com os ciclos financeiros. É nesse ponto que a diversificação das fontes de recursos se torna estratégica. Instrumentos como a Cédula de Produto Rural, os Certificados de Recebíveis do Agronegócio, as Letras de Crédito do Agronegócio, os Fiagros e as operações estruturadas aproximam investidores das cadeias produtivas. Bancos e cooperativas de crédito continuam exercendo papel central, enquanto fornecedores, tradings e indústrias também participam do financiamento da produção. O resultado é uma estrutura menos dependente de uma única porta de entrada para o capital.
Diversificar também significa profissionalizar
Essa transformação traz uma consequência importante: quanto mais sofisticada se torna a estrutura de financiamento, maior é a necessidade de governança, organização financeira, transparência e planejamento. Não basta encontrar uma nova fonte de recursos. É preciso compreender seu custo efetivo, o prazo, as garantias, os riscos e, sobretudo, a capacidade de pagamento da operação.
Esse cuidado se torna ainda mais relevante em períodos de juros elevados, volatilidade nos preços das commodities, eventos climáticos adversos e aumento dos custos de produção. A empresa rural pode ter ativos relevantes e, ainda assim, enfrentar dificuldades de liquidez. Pode possuir terras, patrimônio e produção, sem gerar caixa suficiente no momento em que as obrigações vencem. É justamente aí que a gestão financeira deixa de ser uma questão meramente administrativa e passa a integrar a estratégia do negócio.
Quando o crédito deixa de ser solução e passa a ser problema
Outro aspecto que merece atenção é a qualidade do endividamento. Crédito não é, por si só, um problema. Ao contrário, é uma ferramenta essencial para financiar crescimento, produtividade e investimento. A dificuldade surge quando a dívida cresce mais rapidamente do que a capacidade de geração de caixa. Nesse cenário, a empresa pode entrar em um ciclo perigoso: contrai novos recursos para pagar compromissos anteriores, alonga passivos, oferece garantias adicionais e perde, gradualmente, capacidade de decisão.
Por isso, a reestruturação deve começar antes que a falta de liquidez se converta em crise operacional. Renegociação bilateral, reperfilamento do passivo, venda de ativos não essenciais, entrada de capital novo e revisão do modelo de negócio devem ser avaliados com antecedência. Quando presentes os pressupostos legais, a recuperação extrajudicial ou judicial também pode integrar um processo mais amplo de reorganização financeira e preservação da atividade econômica. Quanto mais cedo o problema for diagnosticado, maior tende a ser o conjunto de alternativas disponíveis.
O futuro passa pela combinação de fontes
O agronegócio brasileiro continuará demandando volumes expressivos de capital. A questão, portanto, não deve se limitar ao montante anunciado a cada Plano Safra. A pergunta precisa ser mais ampla: como construir uma estrutura de financiamento capaz de acompanhar o tamanho, a produtividade e as necessidades de investimento do agro brasileiro?
A resposta passa por ampliar o acesso ao mercado de capitais, desenvolver instrumentos adequados às características de cada cadeia produtiva, fortalecer a atuação das instituições financeiras e elevar a qualidade da gestão nas empresas rurais. Passa, também, por uma mudança cultural.
O empresário do agro precisa enxergar o financiamento como parte do planejamento estratégico, e não apenas como resposta a uma necessidade imediata. Uma operação bem estruturada pode sustentar o crescimento; uma dívida mal dimensionada pode comprometer justamente a expansão que pretendia financiar.
O Brasil tem uma das maiores e mais diversificadas cadeias agropecuárias do mundo. O desafio é fazer com que a estrutura financeira acompanhe essa dimensão. Financiar o agro não significa simplesmente colocar mais dinheiro à disposição. Significa criar mecanismos para que o capital chegue aos produtores e às empresas no momento adequado, com prazo, custo, garantias e fluxo de pagamento compatíveis com o ciclo do negócio.
O crédito continuará indispensável. Mas o futuro do financiamento do agronegócio será cada vez menos dependente de uma única fonte e cada vez mais baseado na combinação responsável de recursos públicos, privados e de mercado. Essa transformação já começou."
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