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'Supercontaminadores' de coronavírus ainda são um mistério

A maior parte dos infectados contamina de 2 a 3 pessoas; porém, uma única mulher é suspeita de ter transmitido vírus a 30 pessoas na Coreia do Sul

Saúde|Aline Chalet, do R7*

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Paciente infectou 14 profissionais de saúde em Wuhan
Paciente infectou 14 profissionais de saúde em Wuhan

Um único paciente contaminado com o novo coronavírus (SARS-CoV2) infectou 14 profissionais de saúde do Hospital Union em Wuhan, epicentro da epidemia.

Um britânico contaminou seis parentes na França, sendo que um deles adoeceu na Espanha.


Acredita-se que uma pastora infectou 30 pessoas em sua igreja na Coreia do Sul.

O que todos esses pacientes têm em comum? Para a medicina, eles podem ser chamados de "supercontaminadores", pois conseguem transmitir o vírus com mais facilidade do que o observado na maioria dos casos.


Os três casos fogem da média do R0 (número de pessoas que um único paciente contamina) determinada para a covid-19 —doença provocada pelo novo coronavírus — até agora, que varia entre duas e três pessoas. Eles também são chamados de “clusters”.

O infectologista Marcos Boulos, professor titular do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), explica não é claro o motivo específico pelo qual algumas pessoas contaminam mais que outras.


Existem algumas hipóteses que explicariam porque o vírus de determinados indivíduos se espalha com mais facilidade. Mas nenhuma é esclarecedora o suficiente.

Segundo o médico, a carga viral da pessoa está relacionada com a transmissibilidade. Quando o sistema imunológico tem uma resposta mais eficiente a pessoa contamina menos.


“Porém, existem algumas pessoas que mesmo com a carga viral baixa transmitem muito. O caso mais conhecido é o do HIV; algumas pessoas contaminavam centenas. Outras, mesmo tendo contato sexual, não contaminavam.”

A infectologista Rosana Richtmann, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas explica que existem duas explicações possíveis para casos de supercontaminadores: o sistema imunológico do paciente está fraco ou o tempo para adoção de medidas preventivas foi longo.

"Alguém com o sistema imune debilitado tem a tendência de possuir maior número de partículas virais no corpo, pois o vírus vai conseguir se multiplicar com mais rapidez, logo, o risco de transmissão é maior."

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O caso do super-contaminador de Wuhan pode ter sido falta de medidas de prevenção, segundo Rosana.

O paciente não tinha sido identificado como caso suspeito antes de ser internado e passou por uma cirurgia, mas após o procedimento apresentou febre.

Paciente zero

O paciente zero é a primeira pessoa a contrair a doença. Sarah Borwein, do campo das doenças infecciosas na Central Medical Health Practice de Hong Kong, disse ao jornal South China Morning Post, de Hong Kong, que saber quem é o paciente zero ajuda a prevenir futuros surtos e fornece informações sobre como prevenir a transmissão.

Boulos afirma que por meio do paciente zero é possível rastrear as pessoas que tiveram contato com ele e conter o surto antes que ele tome proporções maiores. Segundo ele, o Brasil tem uma vantagem nesse sentido.

“Sabendo quem é a primeira pessoa, monitoramos todas as pessoas que tiveram contato com ele na última semana: parentes que visitaram, pessoas que estavam no mesmo voo, colegas de trabalho.”

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John Nicholls, professor clínico de patologia da Universidade de Hong Kong, disse ao jornal do país que identificar o paciente zero durante a epidemia da SARS (síndrome respiratória aguda grave), em 2002-2003, foi vital de uma perspectiva epidemiológica, pois destacava o modo de sua disseminação.

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Porém, segundo Nicholls, a covid-19 parece se espalhar mais rapidamente que a SARS, então, será um grande desafio identificar com precisão o paciente zero.

"Os recursos epidemiológicos seriam melhores aplicados para reduzir a disseminação do que para olhar para trás", completa.

Boulos acredita que identificar o paciente zero da China seja muito improvável e já não é tão eficaz, tendo em vista que a doença está circulando de maneira sustentada.

Segundo o South China Morning Post, o primeiro caso de coronavírus foi relatado à OMS (Organização Mundial da Saúde) em 31 de dezembro e foi vinculado ao mercado de frutos do mar e animais vivos Huanan de Wuhan.

No entanto, segundo o jornal, um novo estudo publicado por uma equipe de cientistas chineses na semana passada disse que o vírus pode ter sido importado de outro lugar.

O primeiro paciente conhecido do covid-19 apresentou sintomas dia 8 de dezembro. Segundo o governo de Wuhan, ele não foi ao mercado Huanan.

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"Sabemos quem é o paciente zero na Coréia do Sul, e isso está ajudando a rastrear todos os contatos e entender o que aconteceu", disse Sarah. "Mas não sabemos quem era o paciente zero do Irã ou na Itália."

Para Boulos, a facilidade com que o vírus se espalhou na Itália foi pela não identificação do paciente zero. “Provavelmente foi uma pessoa que teve sintomas leves, a infecção passou em alguns dias, e ela nem foi ao médico.”

*Estagiária do R7 sob supervisão de Fernando Mellis

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