Entenda como funcionava o esquema entre Vorcaro e Ciro Nogueira, segundo a PF
Investigação aponta que parlamentar usou mandato para beneficiar banqueiro em troca de ‘vantagens patrimoniais desproporcionais’
Brasília|Luiza Marinho*, do R7, em Brasília

A PF (Polícia Federal) deflagrou, nesta quinta-feira (7), a quinta fase da Operação Compliance Zero, que investiga o esquema financeiro que levou à liquidação do Banco Master. Entre os alvos está o senador Ciro Nogueira, apontado pela investigação como beneficiário de vantagens financeiras e patrimoniais supostamente concedidas pelo banqueiro Daniel Vorcaro.
Ao todo, foram cumpridos 10 mandados de busca e apreensão no Piauí, em São Paulo, Minas Gerais e no Distrito Federal. O primo do banqueiro, Felipe Cançado Vorcaro, foi preso temporariamente em Minas e teve R$ 18,8 milhões em bens bloqueados.
A operação foi autorizada pelo ministro do STF André Mendonça. Na decisão, ele afirma que os relatórios da PF apontam “indícios concretos de estreita relação pessoal” entre Nogueira e Vorcaro.
Veja Também
“Os elementos coligidos na investigação revelam indícios concretos de estreita relação pessoal, empresarial e financeira entre os investigados, com possível influência de interesses privados na atuação de agente político, mediante concessão de vantagens patrimoniais e financeiras indevidas”, escreveu Mendonça.
Emenda Master
O ponto central da investigação é a chamada “Emenda Master”, vinculada à PEC 65/2023.
As apurações indicam que Ciro Nogueira teria usado o mandato parlamentar para beneficiar interesses do Banco de Vorcaro. Segundo a decisão de Mendonça, o texto da Emenda nº 11 à PEC teria sido elaborado pela assessoria do banco e posteriormente reproduzido pelo senador.
A proposta previa mudanças profundas no funcionamento do Banco Central. Entre os pontos estavam:
- autonomia orçamentária para gerir os próprios ativos financeiros;
- transformação do BC de autarquia especial em entidade de direito privado;
- reorganização do órgão como empresa pública com poder de polícia, incluindo funções de regulação, supervisão e resolução.
Benefícios e pagamentos
De acordo com as investigações, em troca, o senador do Progressistas recebia diversos benefícios. A PF aponta que Ciro Nogueira tinha acesso a um imóvel de alto padrão pertencente a Daniel Vorcaro “como se fosse do próprio parlamentar”, além de viagens internacionais, hospedagens, restaurantes e voos privados custeados pelo grupo investigado.
Mensagens obtidas pelos investigadores indicam ainda pagamentos recorrentes ligados ao senador. Em uma conversa com Léo Serrano, apontado como intermediador das operações para Vorcaro, ele pergunta ao banqueiro:
Léo Serrano: “Só uma pergunta rápida… é pros meninos continuarem pagando conta dos restaurantes do Ciro/Flávia até sábado?”
Daniel Vorcaro: “Sim. Depois leva meu cartão para St. Barths”
As investigações também apontam que o irmão de Ciro, Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, teria adquirido participação societária avaliada em cerca de R$ 13 milhões por apenas R$ 1 milhão, cerca de 7% do valor estimado de mercado.
Primo de Vorcaro e outros alvos
Ainda de acordo com a decisão de André Mendonça, Felipe Cançado Vorcaro teria sido o operador financeiro responsável por executar parte das movimentações investigadas.
A PF afirma que ele realizou uma parceria entre empresas de fachada que permitia pagamentos mensais ao senador Ciro Nogueira. Inicialmente, os repasses seriam de ao menos R$ 300 mil mensais, valor que depois teria subido para R$ 500 mil.
Conversas extraídas do celular de Daniel Vorcaro mostram cobranças relacionadas aos pagamentos. Em uma delas, Felipe pergunta se deveria continuar transferindo “500k” ou se poderiam “ser os 300k”. Em outra mensagem, Daniel responde sobre os repasses ao senador: “Tem que enviar. Muito importante”.
Segundo a investigação, Felipe atuava como elo entre as decisões estratégicas do núcleo ligado ao Banco Master e a execução prática das movimentações financeiras e alterações na sociedade da empresa.
O irmão de Ciro, Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, é apontado como responsável pela sustentação formal e operacional da estrutura empresarial de Ciro, supostamente usada para lavagem de capitais.
Já Bernardo Rodrigues de Oliveira Filho, também alvo da operação, é descrito como operador encarregado de inserir dinheiro em espécie no sistema financeiro por meio de depósitos fracionados de valores elevados.
Empresas suspensas
O STF também autorizou a suspensão, por tempo indeterminado, das atividades de empresas apontadas como instrumentos para a suposta lavagem de dinheiro.
Entre elas está a CNLF Empreendimentos Imobiliários LTDA, descrita pela PF como o principal veículo patrimonial ligado ao núcleo familiar de Ciro Nogueira.
A investigação aponta que a empresa não possuía histórico de empregados registrados e funcionava no mesmo endereço de outra companhia ligada ao parlamentar.
Também tiveram atividades suspensas:
- BRGD S.A.;
- Green Investimentos S.A.;
- Green Energia Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia.
Todas essas são citadas em conversas obtidas pela PF e, segundo Mendonça, teriam sido utilizadas para dificultar o rastreamento dos recursos investigados.
Medidas
Como medida cautelar, Ciro Nogueira foi proibido de manter contato com testemunhas e demais investigados da Operação Compliance Zero.
Já Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima e Bernardo Rodrigues de Oliveira Filho deverão usar tornozeleira eletrônica, entregar os passaportes e estão proibidos de deixar seus municípios ou manter contato com investigados.
Felipe Cançado Vorcaro teve prisão temporária decretada por cinco dias, com possibilidade de prorrogação conforme o avanço das investigações.
Em nota, a defesa de Ciro Nogueira repudiou “qualquer ilação de ilicitude” envolvendo a atuação do senador e afirmou que ele irá colaborar com a Justiça.
Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da RECORD, no WhatsApp

















