Promotor alvo do PCC teme ação secreta dos EUA após inclusão da facção em lista terrorista
Lincoln Gakiya diz que enquadramento muda tratamento do tema de ‘polícia’ para ‘defesa’ nos Estados Unidos
Brasília|Deborah Hana Cardoso, da RECORD, e Augusto Fernandes, do R7, em Brasília
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A decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas pode trazer consequências financeiras, diplomáticas e até riscos à soberania brasileira, segundo avaliação do promotor de Justiça Lincoln Gakiya, integrante do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público de São Paulo.
Especialista no combate ao PCC há mais de duas décadas, Gakiya afirmou ao R7 que a inclusão das facções na lista de SDGTs (“Terroristas Globais Especialmente Designados”) feita pelo Departamento de Estado e pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos pode abrir espaço para operações militares secretas sem autorização do governo brasileiro, nos moldes da que ocorreu no início deste ano na Venezuela, quando o ex-ditador Nicolás Maduro foi preso.
“Quando há essa classificação, o Departamento de Estado passa a tratar do tema como assunto de ‘defesa’ e não mais como assunto de ‘polícia’, e, portanto, quem passa a ter responsabilidade sobre isso é a CIA [serviço de inteligência civil dos Estados Unidos] e os militares, saindo da esfera do FBI [Polícia Federal americana] e da DEA [agência responsável pelo combate ao tráfico de drogas], por exemplo”, explicou.
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“Pode gerar a possibilidade de realização de operações militares secretas sem a anuência do governo estrangeiro. Por exemplo, uma ação militar em território brasileiro nos moldes das que foram feitas no México e na Venezuela”, acrescentou Gakiya.
O promotor também disse que a medida pode atingir instituições financeiras brasileiras e dificultar a cooperação internacional no combate ao crime organizado.
Segundo ele, a “troca de informações diretas que já ocorre entre a PF e as polícias americanas ou entre os MPs e as polícias pode ser dificultada, porque as informações passam a ser classificadas como confidenciais ou secretas e dificilmente poderiam ser compartilhadas com agilidade e facilidade como já ocorre hoje”.
Além disso, de acordo com Gakiya, pessoas, empresas ou instituições financeiras que “conscientemente forneceram apoio material ou financeiro” a integrantes ou grupos ligados ao PCC ou ao CV poderão sofrer sanções e perder acesso ao sistema financeiro americano.
“O sistema financeiro dos EUA é basicamente interligado ao sistema financeiro mundial”, destacou, acrescentando que a medida do governo americano “pode provocar congelamento de bens e ativos de indivíduos não americanos ou de instituições financeiras brasileiras”.
Promotor é constantemente ameaçado de morte pelo PCC
Com mais de 30 anos de atuação no Ministério Público de São Paulo, Lincoln é integrante do Gaeco, sendo especialmente conhecido por sua investigação e confronto direto com o PCC.
Devido ao seu trabalho em grandes operações, ele vive sob escolta constante e é considerado um dos principais alvos da facção desde a década de 2005.
Em 2018, foi ameaçado de morte pelo PCC após pedir a transferência de membros da facção. A polícia interceptou cartas codificadas com ordens da alta cúpula para eliminar o promotor caso Marcola fosse transferido de penitenciária.
Em outubro do ano passado, a Polícia Civil de São Paulo e o Ministério Público de São Paulo fizeram uma operação para desarticular uma célula do crime organizado que planejava matar autoridades no interior do estado, entre elas Gakiya e o coordenador de presídios da região oeste de São Paulo, Roberto Medina.
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