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Argentina visa o Brasil para reerguer indústria nacional

Poucos parceiros dos argentinos parecem tão dispostos e pacientes quantos os brasileiros

Internacional|Fabio Cervone, colunista do R7

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Nos últimos meses, Argentina e Brasil intensificaram as reuniões governamentais que tentam resolver entraves comerciais
Nos últimos meses, Argentina e Brasil intensificaram as reuniões governamentais que tentam resolver entraves comerciais

A presidente do Brasil, Dilma Rousseff, encontrará nesta quarta-feira (28) a líder argentina, Cristina Kirchner, em mais um evento que simboliza as boas intenções canarinhas para fortalecer as relações com os hermanos gaúchos. Nos últimos meses, os países intensificaram as reuniões governamentais que tentam resolver entraves comerciais e melhorar o ambiente de investimentos entre as duas maiores economias do Mercosul.

O Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina, de acordo com o Itamaraty, e, com a China, está entre os maiores investidores no país nos últimos anos, conforme os relatórios da CEPAL (Comissão Econômica para América Latina da ONU). Apesar disso, a reunião desta quarta-feira, promovida pela UIA (União Industrial Argentina), esconde uma mistura de ressentimento dos brasileiros e esperança dos vizinhos do sul.


O governo kirchnerista, que está no poder desde 2003, praticou medidas desleais para defender em vão a indústria do país. Recentemente, os argentinos implementaram licenças burocráticas, além dos tradicionais trâmites e tarifas alfandegárias em vigor, somando mais um item à lista de artifícios que ferem alguns princípios do Mercosul, entre eles o de livre circulação de bens e mercadorias. Tais barreiras colaboraram diretamente para que entre janeiro e setembro de 2012 houvesse uma queda de 19,4% nas exportações brasileiras para a Argentina, em relação ao mesmo período de 2011.

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Cristina está tentando garantir a estabilidade das contas nacionais desequilibrando artificialmente o comércio entre os dois países. Como tal ferramenta não será suficiente para garantir a sustentabilidade econômica do país, o governo tenta desesperadamente atrair empresários brasileiros para que estes tragam também suas poupanças para os pampas.


Os investidores tupiniquins são a esperança para a cadeia produtiva da Argentina, que está carente de recursos. Os argentinos estão, simultaneamente: se defendendo nos tribunais internacionais para não pagar ao FMI parte do calote de 2001; sofrendo severas críticas de parceiros tradicionais em relação ao processo de estatizações (entre elas, da espanhola YPF e da Aerolineas Argentinas, até hoje operando no vermelho); e possuem uma infraestrutura e um ambiente de negócios precário e estagnado. A população argentina também está sofrendo os sintomas da inflação e exige a correção dos salários e pensões, fato que aumentará ainda mais os gastos públicos.

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Ou seja, o país, hoje altamente dependente do setor agrícola para garantir o superavit comercial, procura alternativas para o equilíbrio fiscal. Nesse cenário, o Brasil surge como grande irmão, que pode garantir a sobrevivência argentina. Em breve, o Mercosul deverá abdicar do dólar nas transações intra-bloco — a medida já foi encaminhada para votação no Senado brasileiro —, e este incremento poderá ser vital para os vizinhos do sul, caso a economia portenha sofra escassez de dólares novamente.

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Depois do default de 2001, especificamente com a eleição de Nestor Kirchner, em 2003, a Argentina conseguiu apresentar diversos avanços econômicos. Isto se deu também por uma gestão financeira melhor que a das administrações anteriores, mas principalmente devido ao apetite chinês por commodities (produtos primários), dos quais a nação dos pampas é exportadora, como soja, trigo e carne.

Os preços desses itens estão constantemente em crescimento, já que os gigantes asiáticos parecem dotados de um mercado consumidor insaciável. Com este trunfo financeiro, os kirchneristas abusaram das medidas imediatistas de cunho populista, tais como benefícios fiscais, subsídios setoriais e congelamento de preços e tarifas, como transporte, luz e água.

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Esta postura garantiu o apoio nas ruas e a base política dentro do Estado para que o grupo peronista se mantivesse até hoje no poder. Contudo, desde 2011, os argentinos estão sofrendo as consequências destas decisões focadas no curto prazo.

Desde a crise de 2001, a indústria do país se enfraqueceu e, para muitos, quase desapareceu. O único setor que ainda é competitivo é o agrícola, que sofre com as taxas federais para exportação. A infra-estrutura está velha e deficiente. O governo estatizou muitas empresas e não respeitou vários marcos regulatórios de investimento privado, afugentando grupos multinacionais.

O setor financeiro é outro que luta para não definhar, já que, desde o calote, perdeu relevância na atividade produtiva. Enquanto isso, a classe média foi significativamente reduzida — muitos profissionais liberais e pequenos empresários se tornaram taxistas para sobreviver. Os mais pobres perderam o poder de compra, a informalidade aumentou e a violência urbana piorou.

Por sua vez, a iniciativa privada não vê motivos para apostar no país. Os jovens estão desestimulados, os institutos de pesquisa carecem de verba e interesse, e, assim, a inovação tecnológica é pífia e inconstante.

Até mesmo a rica cultura argentina não tem a mesma vitalidade de outrora, e muitos artistas, diante do ambiente pouco cosmopolita, preferem outros centros do mundo para criar.

Caminhar pelas ruas de Buenos Aires é cada vez mais melancólico e saudosista. O país está parado no tempo, preso ao passado.

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