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‘É preciso separar o crime da categoria’, diz associação de domésticas sobre morte de idosos em BH

Entidade afirma que caso não pode ampliar práticas discriminatórias contra trabalhadoras domésticas

Minas Gerais|Cler Santos, do R7

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • A Associação de Trabalhadoras Domésticas Tereza de Benguela enfatiza que o crime cometido por Paola Stephany Neto Cirino não deve ampliar preconceitos contra a categoria de trabalhadoras domésticas.
  • Renata Aline, presidente da associação, destaca que a discriminação contra trabalhadoras domésticas já existia antes do crime, com relatos de acusações infundadas e humilhações.
  • O caso gerou um aumento na desconfiança em relação às trabalhadoras domésticas, o que pode levar a abordagens agressivas e restrições no ambiente de trabalho.
  • A associação reforça a importância de investigar e julgar o crime sem criminalizar toda a categoria, evitando que o medo justifique o preconceito.

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Para Renata, associar o crime à profissão reforça estereótipos históricos RECORD Minas/ Reprodução

O caso de Paola Stephany Neto Cirino, de 30 anos, presa por matar os idosos Cláudio Atala Inácio, de 81 anos, e Maria Atala Inácio, de 77, no bairro São Pedro, na região Centro-Sul de Belo Horizonte, abriu espaço para uma discussão que vai além da investigação do crime. Para a Associação de Trabalhadoras Domésticas Tereza de Benguela, a repercussão do caso não pode servir para ampliar o preconceito contra uma categoria composta por mais de cinco milhões de profissionais no Brasil, de acordo com dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

Em entrevista ao R7 Minas, a fundadora e presidente da associação, Renata Aline, afirma que a entidade já recebia relatos recorrentes de discriminação muito antes do crime. Segundo ela, as denúncias envolvem acusações infundadas de furto, revistas constrangedoras, ofensas, humilhações, restrições de circulação dentro de condomínios e residências e outras formas de violência simbólica, moral e, em alguns casos, física.


“O que nos preocupa, neste momento, é que a repercussão nacional de um crime individual seja utilizada como justificativa para ampliar práticas discriminatórias contra toda uma categoria profissional. É preciso separar com responsabilidade a apuração de um crime grave, cometido por uma pessoa específica, da vida de milhões de trabalhadoras que exercem sua profissão com dignidade”, afirma.

Renata destaca que o trabalho doméstico no Brasil é historicamente marcado por desigualdades de raça, gênero e classe. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do IBGE, analisada pelo DIEESE, no quarto trimestre de 2025 o país tinha mais de cinco milhões de pessoas ocupadas no trabalho doméstico. Desse total, 92% eram mulheres e, entre as mulheres ocupadas no emprego doméstico, 68% eram negras.


A presidente da associação afirma que, até o momento, a entidade não recebeu relatos formais de associadas que perderam trabalho motivado exclusivamente pela repercussão do caso. No entanto, diz acompanhar com preocupação manifestações públicas de diaristas que passaram a se sentir mais expostas à desconfiança.

Ela também chama a atenção para a forma como parte da cobertura do caso tem sido feita. “Quando as manchetes destacam a ocupação (‘diarista’) antes mesmo de tratar o fato como crime individual, corre-se o risco de associar toda uma categoria profissional a uma conduta isolada. Isso é injusto e reforça estigmas históricos”, diz.


Durante a reconstituição do crime, realizada nesta quarta-feira (8), a reportagem conversou com Lilian Almeida, de 45 anos, diarista que trabalha em frente ao prédio onde o casal foi assassinado. Ela afirmou que a categoria passou a enfrentar mais desconfiança após a repercussão do caso. “Agora a gente está sendo vigiada. As pessoas já começaram a desconfiar. Nós, que somos honestas, acabamos pagando pelo erro de uma pessoa”, relatou.

Para Renata, associar o crime à profissão reforça estereótipos históricos. “Estamos falando de uma categoria numerosa e essencial para a organização da vida cotidiana no país. É inaceitável tratar milhões de trabalhadoras como suspeitas em razão da conduta de uma única pessoa”, afirma.


Segundo a presidente da associação, o aumento da desconfiança pode provocar impactos que vão além do preconceito. “O primeiro impacto é o aumento da suspeita sobre mulheres que não têm qualquer relação com o crime. Isso pode se traduzir em abordagens mais agressivas, excesso de monitoramento, restrições indevidas, revistas, comentários ofensivos e constrangimentos no ambiente de trabalho.”

Ela ressalta ainda que muitas trabalhadoras domésticas e diaristas vivem de renda instável, sem vínculo formal e sem proteção previdenciária. “Qualquer redução de oportunidades ou aumento de barreiras de contratação atinge diretamente mulheres que já enfrentam informalidade e baixa renda.”

Ao final, Renata reforça que o crime deve ser apurado e julgado, mas sem atingir toda a categoria. “Todo crime grave deve ser investigado e julgado pelas instituições competentes, com respeito ao devido processo legal. Mas nenhuma categoria profissional pode ser criminalizada pela conduta de uma pessoa. O medo não pode ser desculpa para abrir portas ao preconceito.”

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