‘Ter alguém para contar ajuda a não perder a independência’: idosa fala de programa de apoio para quem mora sozinho
Lei vai capacitar porteiros e equipes de condomínios para identificar situações de risco e prestar apoio inicial a idosos que moram sozinhos
Minas Gerais|Cler Santos, do R7 e Luciana Simões, da RECORD Minas
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

A professora aposentada Alda Ferreira Ribeiro, de 75 anos, mora sozinha desde 2018, quando perdeu o marido. Sem filhos e com diagnóstico recente de doença de Parkinson, ela aprendeu que manter a independência também significa saber que há alguém por perto quando surge uma situação de risco. No condomínio onde vive, no bairro Minaslândia, em Belo Horizonte, esse apoio vem do porteiro Rony Pereira, carinhosamente chamado de “Roninho”, de 41 anos.
“Rony me ajuda muito, é disposto a cuidar de todos os moradores para além da função dele de porteiro. Eu acredito que um curso desse ajude muito, porque a gente que mora sozinho passa por perigos que, às vezes, nem a gente entende”, conta a aposentada.
Ela afirma que se sente mais segura ao receber entregas ou permitir a entrada de prestadores de serviço no apartamento. “Eu me sinto vulnerável às vezes, quando preciso receber alguma entrega ou um faxineiro na minha casa. O Rony sempre me orienta a desconfiar e, às vezes, acompanha o serviço comigo. Isso, somado à minha doença, ajuda muito a não perder a minha independência, mas sim ter alguém para contar quando eu preciso”, relata.
Histórias como a de Alda motivam uma nova iniciativa criada em Belo Horizonte. A Lei nº 12.041 instituiu o Programa Porteiro Amigo do Idoso, que prevê a capacitação de porteiros e equipes administrativas para identificar situações de vulnerabilidade, prestar assistência inicial e acionar a rede de apoio em casos de emergência envolvendo idosos que vivem sozinhos.
A proposta busca transformar os funcionários dos condomínios em uma rede de atenção, já que eles costumam manter contato frequente com os moradores e podem perceber mudanças de comportamento, isolamento, quedas ou outros sinais de alerta. Os treinamentos abordarão primeiros socorros, identificação de situações de vulnerabilidade, técnicas de comunicação e empatia, além de orientações sobre como agir diante de emergências.
A adesão ao programa será facultativa e sem custos para os condomínios interessados. A legislação também prevê a realização de cursos, palestras, distribuição de materiais informativos e a criação de canais de apoio entre moradores, administradoras de condomínios e entidades ligadas ao atendimento da população idosa.
Para a geriatra Mônica Campanha, a iniciativa representa uma mudança de mentalidade diante do envelhecimento da população brasileira.
“Eu vejo essa iniciativa como algo que vai muito além do que treinar pessoas. Eu enxergo aí uma mudança de mentalidade extremamente necessária nos tempos atuais, em que estamos envelhecendo enquanto sociedade e precisamos aprender a cuidar uns dos outros. Cada vez mais temos idosos morando sozinhos, seja por necessidade ou por vontade, e isso representa uma conquista quando falamos em independência e longevidade saudável”, afirma.
A médica destaca que a proposta não pretende substituir familiares ou profissionais de saúde, mas preparar quem convive diariamente com os moradores para reconhecer situações de risco. “Treinar porteiros ou profissionais administrativos não significa transformá-los em profissionais de saúde ou cuidadores. Como eles estão ali mais próximos, podem ser os primeiros a identificar sinais de alarme, como uma queda, um isolamento ou uma confusão, e então acionar a rede de apoio”, explica.
O programa foi criado em um momento de envelhecimento acelerado da população. Segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Belo Horizonte tem aproximadamente 460 mil moradores com mais de 60 anos, o equivalente a quase 20% da população da capital. Minas Gerais é o terceiro estado com maior população de pessoas com 65 anos ou mais. Em todo o país, esse grupo já soma 22,1 milhões de brasileiros, um crescimento de 57,4% em relação a 2010.
Entre os objetivos da nova legislação estão fortalecer a convivência nos condomínios, melhorar a qualidade de vida dos idosos que vivem sozinhos, ampliar a assistência inicial em situações de emergência e reduzir casos de abandono e vulnerabilidade.
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