Carlos Ghosn volta a rondar a Nissan em meio à maior crise da história da marca
Ex-presidente diz que aceitaria retornar apenas como CEO, enquanto acionistas expõem insatisfação com a atual gestão

A crise da Nissan ganhou um novo capítulo simbólico nos últimos dias. Durante uma reunião de acionistas no Japão, investidores chegaram a sugerir a volta de Carlos Ghosn ao comando da montadora, quase oito anos depois de sua queda, prisão e fuga cinematográfica do país. A proposta não avançou, mas foi suficiente para recolocar o nome do executivo no centro do debate sobre o futuro da marca japonesa.

Em entrevista à Reuters, Ghosn afirmou que a simples lembrança de seu nome por parte dos acionistas mostra o grau de frustração com os resultados recentes da Nissan.

O executivo disse que cogitaria voltar, mas apenas se fosse para ocupar novamente o cargo de CEO. Para ele, a empresa precisa de liderança forte, decisões rápidas e uma estratégia mais agressiva para recuperar relevância global.

A fala acontece em um momento delicado para a Nissan. A fabricante enfrenta queda de vendas, pressão por cortes, dificuldade para competir com rivais chinesas e atraso em áreas estratégicas como eletrificação e software. O plano de recuperação Re:Nissan prevê redução de custos, fechamento ou consolidação de fábricas e corte de cerca de 20 mil postos de trabalho até o ano fiscal de 2027. Apesar disso, a operação do Brasil segue saudável com plano de investimento em curso apesar do portfólio reduzido nos últimos anos e pressão cada vez maior da concorrência.

No centro dessa tentativa de recuperação está Ivan Espinosa, executivo mexicano que assumiu o comando global da Nissan em 2025. Ele é o terceiro CEO da empresa em sete anos, depois da saída de Ghosn e das gestões de Hiroto Saikawa e Makoto Uchida. A sequência de trocas ajuda a explicar a instabilidade interna e reforça as críticas de Ghosn, que acusa a companhia de ter perdido velocidade, ousadia e foco desde sua saída.

Espinosa, por sua vez, tenta reposicionar a Nissan com uma gestão mais disciplinada. O plano atual busca recuperar margem, reduzir estoques, concentrar investimentos em produtos mais rentáveis e reestruturar operações em mercados-chave. Ainda assim, a pressão dos acionistas mostra que parte do mercado considera o ritmo insuficiente diante da gravidade da crise.

A lembrança de Ghosn também carrega um peso histórico. No fim dos anos 1990, a Nissan estava endividada e próxima de um colapso. Enviado pela Renault após a formação da aliança entre as duas empresas, Ghosn implantou o Nissan Revival Plan, cortou custos, fechou fábricas, reduziu empregos e prometeu renunciar caso as metas não fossem cumpridas. A empresa voltou ao lucro antes do prazo e o executivo passou a ser visto como o responsável por salvar a montadora japonesa.
Fuga cinematográfica e processo judicial
Ghosn foi preso no Japão em 2018 sob acusações de irregularidades financeiras, incluindo subnotificação de remuneração e uso indevido de recursos corporativos. Ele nega todas as acusações e afirma ter sido vítima de uma conspiração interna para impedir uma integração mais profunda entre Nissan e Renault. Em 2019, deixou o Japão escondido em um voo privado depois de escapar em uma caixa que supostamente levaria instrumentos musicais e passou a viver no Líbano, país que não o extraditou.

Além do caso japonês, Ghosn também enfrenta questionamentos na França. Autoridades francesas emitiram mandado internacional relacionado a investigações sobre uso de recursos ligados à Renault-Nissan, e o ex-executivo também nega irregularidades nesses processos. Para seus críticos, esse histórico torna inviável qualquer retorno formal à Nissan. Para seus defensores, o fato de acionistas voltarem a mencionar seu nome revela o tamanho do vazio de liderança percebido na empresa.
Na prática, a volta de Carlos Ghosn é improvável. O obstáculo jurídico, o desgaste reputacional e a resistência dentro da própria Nissan tornam o cenário quase impossível. Mesmo assim, a discussão é relevante porque mostra que a crise da montadora ultrapassou os números. Quando investidores recorrem ao nome de um ex-chefe foragido da Justiça japonesa como símbolo de possível salvação, o recado é claro: a Nissan ainda procura uma liderança capaz de repetir a virada que marcou sua história no início dos anos 2000.
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