Há 70 anos, Romi-Isetta inaugurava a produção nacional de automóveis no país; relembre
Primeiro automóvel fabricado em série no Brasil foi lançado em julho de 1956, tinha apenas uma porta frontal e dois lugares

Julho de 1956 marcou um dos capítulos mais importantes da indústria automobilística brasileira. Foi nesse período que a Indústrias Romi iniciou a produção do Romi-Isetta, considerado o primeiro automóvel de passeio fabricado em série no país.

Produzido em Santa Bárbara d’Oeste (SP), o pequeno microcarro abriu caminho para a nacionalização da indústria antes mesmo da consolidação do setor impulsionada pelo governo de Juscelino Kubitschek.

Naquela época, a indústria automobilística dava seus primeiros passos. Ter um automóvel em casa era caríssimo e também difícil de manter, uma vez que as peças eram importadas.

A promessa de uma indústria brasileira de carros tornaria os veículos mais baratos e acessíveis. E a Romi Isetta foi o primeiro veículo de passeio fruto dessa promessa, e essa não nasceu no Brasil.

O projeto nasceu na Itália. Em 1953, a fabricante Iso desenvolveu um veículo extremamente compacto para atender à necessidade de transporte barato no pós-guerra europeu.

O desenho criado pelos engenheiros Ermenegildo Preti e Pierluigi Raggi chamava atenção pela carroceria em formato de “bolha”, pela única porta instalada na dianteira e pelas dimensões reduzidas, características que fizeram do Isetta um dos microcarros mais conhecidos da história do automóvel.

Em 1955, a Indústrias Romi adquiriu a licença para fabricar o modelo no Brasil. O lançamento oficial ocorreu em setembro de 1956, mas o início da produção aconteceu durante o mês de julho, quando começaram a ser montadas as primeiras unidades nacionais.

A empresa, conhecida pela fabricação de máquinas-ferramenta, tornou-se assim a primeira fabricante brasileira a produzir um automóvel em série.

A Romi Isetta não foi o primeiro carro montado aqui. Muito antes disso, a Ford fabricou o modelo T e o A, a General Motors montava caminhões e outros veículos, porém sempre usando peças importadas em kits.

O Romi-Isetta media apenas 2,27 metros de comprimento, 1,38 metro de largura e 1,34 metro de altura. Seu peso girava em torno de 330 quilos, permitindo transportar dois ocupantes em um espaço bastante compacto.

O acesso ao interior era feito pela porta frontal, que levava junto o volante por meio de uma coluna articulada, facilitando a entrada e a saída dos passageiros. A solução continua sendo uma das mais curiosas já adotadas pela indústria automotiva.

Os primeiros exemplares utilizavam um motor Iso de dois tempos, dois cilindros e aproximadamente 236 cm³. Em 1959, a Romi adotou um novo conjunto fornecido pela BMW, um monocilíndrico de quatro tempos com 298 cm³ e potência de 13 cv, mais moderno, econômico e confiável. A transmissão era manual de quatro marchas e a tração permanecia nas rodas traseiras.

O fornecimento deste motor, inclusive, salvou a BMW de uma falência. A fabricante alemã, que começou produzindo motores para aviões, estava em uma situação financeira muito difícil nesta época. O sucesso foi tão grande que a BMW conseguiu fazer caixa para investir em projetos derivados do Romi Isetta.

Com o novo motor BMW, o pequeno automóvel alcançava velocidade máxima próxima de 85 km/h, suficiente para o trânsito urbano da época. O consumo também era um dos principais atrativos, chegando a aproximadamente 25 km/l de gasolina, número que ainda hoje impressiona para um veículo movido exclusivamente a combustão. O tanque comportava cerca de 13 litros de combustível.

Entre as curiosidades, o Romi-Isetta possuía apenas uma porta, teto de lona em algumas versões que também funcionava como saída de emergência caso a porta dianteira ficasse bloqueada, além de um eixo traseiro bastante estreito, com as rodas posicionadas muito próximas uma da outra. Essa configuração eliminava a necessidade de diferencial convencional, reduzindo peso e custos de produção.
Romi Isetta estacionada em SP
Marcos Camargo Jr. 07.07.2026
Fusca era seu maior concorrente
Apesar da inovação, o modelo nunca alcançou grande sucesso comercial no Brasil. Entre 1956 e abril de 1961 foram produzidas aproximadamente 3 mil unidades. O microcarro custava cerca de 70% do preço de um Fusca, mas oferecia apenas dois lugares, desempenho limitado e pouca versatilidade para um mercado que começava a preferir automóveis maiores e mais robustos.

O Fusca passou a ser montado no Brasil em 1953 e a demanda pelo Volkswagen crescia dia a dia. Quando a Romi Isetta foi lançada, a VW já tomava a decisão de construir uma fábrica no Brasil, que seria inaugurada em 1957.
No mesmo ano, a DKW lançava a perua Universal, chamada aqui de Vemagete, e também o sedã Belcar, e seria questão de tempo para automóveis mais adequados à nossa realidade ganharem as ruas.
Assim, a Romi Isetta perdia força e competitividade, já que o Fusca também passaria a ser nacional em 1959, mesmo ano de lançamento do Willys Dauphine, outro carro maior e quase no mesmo preço de um Isetta.

Outro fator importante foi a rápida evolução da indústria nacional. A partir do fim da década de 1950, com a chegada dos modelos como DKW-Vemag, Volkswagen Fusca, e até modelos de luxo como Simca Chambord e, pouco depois, o Aerowillys pela Willys, todos oferecendo quatro lugares ou até seis lugares e maior capacidade de uso familiar, a proposta do pequeno italiano perdeu sentido.
O Brasil daquela época ainda era extremamente rural e os grandes deslocamentos exigiam veículos mais robustos que conseguissem alcançar 100km/h na estrada.
O Romi-Isetta perdeu competitividade diante desses automóveis e sua produção foi encerrada em 13 de abril de 1961. A própria Romi decidiu concentrar novamente seus investimentos na fabricação de máquinas industriais, segmento em que permanece como uma das principais empresas brasileiras até hoje.
Sete décadas depois do início de sua produção, o Romi-Isetta continua ocupando um lugar único na história da indústria automobilística nacional.
Além de ter sido o primeiro automóvel produzido em série no Brasil, o pequeno modelo antecipou conceitos de mobilidade urbana, baixo consumo de combustível e aproveitamento de espaço que voltam a ganhar relevância em um momento de crescimento dos veículos elétricos compactos destinados aos grandes centros urbanos.
Na Europa, o Microlino é uma releitura elétrica da Romi-Isetta, que faz sentido em cidades apertadas e de vagas restritas.
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