SER MULHER É UM FATOR DE RISCO PARA A SAÚDE MENTAL?
Pesquisadoras brasileiras propõem olhar além do sexo biológico para compreender como desigualdade, violência e outras experiências acumuladas ao longo da vida podem contribuir para a maior ocorrência de transtornos mentais entre mulheres

Há uma diferença entre identificar um fator de risco e compreender por que ele existe. Na saúde mental, essa distinção é especialmente importante quando falamos sobre mulheres. Estudos realizados em diferentes partes do mundo mostram, há anos, que depressão e transtornos de ansiedade são mais frequentes entre elas. Além disso, tentativas de suicídio ocorrem com maior frequência entre meninas e mulheres. Diante de resultados tão consistentes, o sexo feminino aparece repetidamente nos estudos como um fator de risco para transtornos mentais. Mas essa classificação, sozinha, pode esconder uma história muito mais complexa.
Essa é a discussão proposta pelas pesquisadoras brasileiras Júlia Pasqualini Genro, Sofia de Lima Silva, Patrícia P. Bado e Cibele Edom Bandeira, da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Em um comentário publicado no The Lancet Regional Health – Americas, elas chamam atenção para algo que muitas vezes se perde nas análises estatísticas; quando o sexo feminino permanece associado a um desfecho de saúde mental, mesmo depois de diversos ajustes, isso não significa, necessariamente, que ser biologicamente mulher seja, por si só, a explicação. Essa variável pode estar representando uma série de experiências sociais e ambientais que acompanham meninas e mulheres durante toda a vida.
A reflexão surgiu a partir da publicação de um estudo brasileiro que acompanhou crianças e adolescentes durante 15 anos e investigou fatores associados às tentativas de suicídio. Mesmo depois de considerar predisposição genética, condições do período perinatal, adversidades na infância, funcionamento cognitivo, transtornos psiquiátricos e histórico familiar, o sexo feminino permaneceu entre os principais preditores. Assim, o comentário publicado pelas pesquisadoras brasileiras chama atenção para o fato de que essa diferença já se manifesta na adolescência. Dessa forma, expõem dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), os quais mostram que meninas relataram tristeza frequente 2,5 vezes mais do que meninos, ideação de autoagressão pouco mais de duas vezes mais e insatisfação com o próprio corpo duas vezes mais. O assédio sexual também foi relatado com frequência 2,4 vezes maior entre elas.
Esses números se tornam ainda mais significativos quando observados ao lado das condições às quais meninas e mulheres estão expostas. Desigualdade econômica, discriminação no trabalho, responsabilidades de cuidado não remunerado, pressão sobre a imagem corporal e violência de gênero são exemplos e não são acontecimentos isolados. Esses eventos podem começar cedo e acumular-se ao longo de décadas. No Brasil, 88% das vítimas de estupro registradas em 2024 eram do sexo feminino e 77% tinham menos de 14 anos. No mesmo ano, foram registrados 1.492 feminicídios, e mulheres negras representaram 63,6% das vítimas. A desigualdade, portanto, não é vivida da mesma maneira por todas as mulheres. Gênero, raça e condições socioeconômicas se sobrepõem e podem produzir trajetórias profundamente diferentes de exposição ao estresse e à violência.
É justamente esse acúmulo de fatores que as pesquisadoras defendem precisar ser mais incorporado aos estudos. Tratar sexo apenas como uma variável de ajuste pode fazer com que experiências importantes desapareçam dentro de uma categoria aparentemente simples. Isso não significa desconsiderar fatores biológicos, mas compreender que eles coexistem e interagem com o ambiente durante toda a trajetória de vida. Para as autoras, pesquisas futuras precisam identificar e quantificar melhor essas exposições e investigar como fatores sociais e biológicos atuam em conjunto na construção do risco.
Essa mudança de perspectiva também muda a forma de pensar em prevenção. Se uma parcela da maior carga de sofrimento mental das mulheres estiver relacionada a fatores sociais acumulados, parte do risco atrelado a ela pode ser modificado. Reduzir a violência de gênero, ampliar oportunidades econômicas, combater a discriminação, promover uma divisão mais equilibrada das responsabilidades de cuidado e enfrentar novas formas de violência no ambiente digital também são medidas relacionadas à saúde mental. As pesquisadoras defendem que políticas públicas precisam avançar nessa direção, combinando proteção, educação e prevenção com ações voltadas às desigualdades estruturais.
O trabalho traz, assim, uma mudança importante de foco. Saber que mulheres apresentam maior risco é apenas o começo. Compreender quais experiências estão por trás dessa diferença permite transformar uma variável estatística ampla em fatores concretos que podem ser estudados, prevenidos e modificados.
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