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Brasil precisa transformar segurança de fertilizantes em política de Estado

Setor defende investimentos, competitividade e inovação para reduzir vulnerabilidades e fortalecer a cadeia nacional

Mundo Agro|Fabi GennariniOpens in new window

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Segurança de fertilizantes deve ser prioridade estratégica para o Brasil Foto: Congresso ANDA

O Brasil é uma potência agrícola, mas ainda depende fortemente das importações de fertilizantes para sustentar sua produção.

Em entrevista ao Mundo Agro, Elias Lima, presidente da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), abordou os principais desafios do mercado brasileiro de fertilizantes, as condições necessárias para a reindustrialização do setor e as prioridades para uma política nacional capaz de conciliar segurança de abastecimento, competitividade, inovação e sustentabilidade.


Elias Lima, presidente da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA) Foto cedida: Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA)

Mundo Agro: O Brasil continua dependente das importações de fertilizantes em um cenário de crescente tensão geopolítica. Quais são hoje as principais vulnerabilidades dessa dependência e o que seria necessário para o país reduzi-las de forma estrutural?

Elias Lima: O Brasil é uma potência agrícola, mas ainda possui uma elevada dependência externa de fertilizantes, o que representa uma vulnerabilidade estratégica diante de crises geopolíticas, interrupções logísticas, oscilações cambiais e mudanças nos preços internacionais. Essa questão ficou ainda mais evidente nos últimos anos, quando conflitos e restrições comerciais afetaram cadeias globais de insumos.


Reduzir essa vulnerabilidade não significa buscar autossuficiência absoluta, que não seria economicamente viável para todos os nutrientes, mas aumentar de forma consistente a produção nacional e diversificar as fontes de fornecimento.

Para isso, é fundamental criar condições para novos investimentos, recuperar e ampliar a capacidade instalada, garantir segurança jurídica e regulatória, melhorar a infraestrutura logística e oferecer maior competitividade em energia, gás natural e matérias-primas. Precisamos de melhor equilíbrio entre o que é produzido internamente e o que é importado.


Mundo Agro: O debate sobre fertilizantes costuma se concentrar na oferta de nutrientes, mas o desafio também passa pela eficiência de uso. Quais tecnologias e inovações podem permitir que o produtor obtenha mais produtividade com uma utilização mais eficiente dos fertilizantes?

Elias Lima: O futuro da fertilização está diretamente ligado à eficiência. O objetivo não é simplesmente utilizar mais ou menos fertilizante, mas usar o nutriente correto, na dose adequada, no momento certo e no local apropriado, de acordo com as necessidades da cultura e as características de cada solo.


Nesse processo, tecnologias como agricultura de precisão, análise e mapeamento de solos, sensores, sistemas de recomendação, ferramentas digitais, inteligência artificial e aplicação localizada têm um papel cada vez mais importante.

Também avançam os fertilizantes de maior eficiência agronômica, produtos de liberação controlada e novas tecnologias capazes de reduzir perdas de nutrientes, como os bioinsumos.

Mundo Agro: A reindustrialização do setor aparece como uma das agendas para ampliar a competitividade brasileira. O que precisa mudar no ambiente de negócios para que o país consiga transformar seu potencial de produção de fertilizantes em investimentos e capacidade industrial efetiva?

Elias Lima: O Brasil possui recursos, mercado consumidor, demanda agrícola e conhecimento técnico. O que precisamos é criar um ambiente que torne os investimentos em produção de fertilizantes economicamente competitivos, previsíveis e de longo prazo.

Isso passa, principalmente, por segurança jurídica e regulatória, redução do custo Brasil, melhoria da infraestrutura de transporte e armazenagem e maior competitividade nos custos de energia e gás natural. Também é necessário um sistema tributário que não penalize nem a produção, nem a distribuição de fertilizantes, que seja justo e equilibrado.

Projetos de fertilizantes exigem investimentos elevados e maturação de longo prazo. Portanto, o investidor precisa ter previsibilidade.

Mundo Agro: Descarbonização e competitividade podem caminhar juntas na indústria de fertilizantes?

Elias Lima: Sim. E esse deve ser um dos caminhos para o futuro da indústria. A descarbonização não pode ser tratada apenas como uma obrigação ambiental, mas também como uma oportunidade de inovação, eficiência e geração de valor.

O Brasil possui vantagens importantes nesse processo, principalmente pela disponibilidade de fontes renováveis de energia e pelo potencial de produção de hidrogênio de baixo carbono. Isso pode permitir o desenvolvimento de novas rotas tecnológicas para a produção de fertilizantes com menor intensidade de emissões.

Mas é importante destacar que a transição precisa ser economicamente viável. A indústria brasileira precisa reduzir emissões sem perder competitividade em relação aos produtores internacionais.

Mundo Agro: Quais oportunidades o Brasil tem para produzir fertilizantes com menor pegada de carbono e, ao mesmo tempo, tornar essa agenda economicamente viável?

Elias Lima: O Brasil reúne condições bastante favoráveis. Temos uma matriz elétrica majoritariamente renovável, grande potencial de geração eólica e solar, disponibilidade de biomassa e oportunidades relacionadas ao hidrogênio de baixo carbono.

Essas características podem favorecer o desenvolvimento de fertilizantes de menor intensidade de carbono, além de processos industriais mais eficientes energeticamente.

Mas a transição precisa ser construída com racionalidade econômica. É necessário criar mecanismos que estimulem investimentos, desenvolver mercados para produtos de menor pegada de carbono e estabelecer metodologias confiáveis para mensuração e certificação das emissões.

Mundo Agro: O próximo governo receberá um setor que precisa conciliar segurança de abastecimento, competitividade, investimentos, inovação e sustentabilidade. Quais deveriam ser as prioridades de uma política nacional de fertilizantes para os próximos anos?

Elias Lima: A primeira prioridade deve ser transformar a segurança de abastecimento de fertilizantes em uma política de Estado, com visão de longo prazo e participação coordenada do governo e da iniciativa privada.

A ANDA entende que essa agenda deveria estar estruturada em alguns pilares:

1. Ampliar a produção nacional – criar condições para novos projetos e para a retomada e expansão de unidades industriais existentes.

2. Melhorar a competitividade – reduzir custos sistêmicos, especialmente de energia, gás natural, logística, tributação e infraestrutura.

3. Garantir segurança jurídica e previsibilidade – investimentos em fertilizantes são de longo prazo e dependem de regras estáveis.

4. Diversificar fontes de fornecimento – reduzir riscos associados à concentração de origens e fortalecer a resiliência da cadeia.

5. Estimular inovação e eficiência agronômica – ampliar investimentos em pesquisa, agricultura de precisão e fertilizantes de maior eficiência.

6. Promover a transição de baixo carbono – estimular tecnologias e processos que reduzam a intensidade de emissões sem comprometer a competitividade.

7. Fortalecer a integração entre indústria e agricultura – porque a política de fertilizantes deve estar alinhada à estratégia brasileira de segurança alimentar, produtividade e sustentabilidade.

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