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Genética e tecnologia transformam a cadeia da melancia no Brasil

Empresa aposta em híbridos mais produtivos e resistentes e vê espaço para expansão das melancias de maior valor agregado

Mundo Agro|Fabi GennariniOpens in new window

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Pingo Doce: como uma nova estratégia está transformando o mercado de melancias Foto cedida: BASF

Avanços em melhoramento genético, profissionalização do campo, investimentos em estruturas de beneficiamento e maior integração entre produtores, distribuidores e varejo estão criando novas oportunidades para a cadeia da melancia brasileira.

Em entrevista ao Mundo Agro, Beatriz Accorsi, gerente de Marketing de Cultivos de Frutas e Vegetais da BASF Soluções para Agricultura, Diego Lemos, gerente de Cultivos da BASF/Nunhems, e Thiago Fonseca, líder da Pingo Doce, falam sobre como a inovação genética pode contribuir para o aumento da produtividade e analisam os desafios para a expansão das melancias especiais, o avanço dos packing houses e as perspectivas para o mercado brasileiro nos próximos anos.


Mundo Agro: Como a BASF identifica as novas demandas do consumidor antes de desenvolver um híbrido?

Beatriz Accorsi: Nosso trabalho começa muito antes do desenvolvimento de um novo híbrido. Na BASF, por meio da marca de sementes de frutas e hortaliças Nunhems, acompanhamos as tendências de consumo, ouvimos agricultores, parceiros comerciais e varejistas, além de observar as mudanças no comportamento do consumidor.


Esses insights, aliados à pesquisa, à inovação e ao conhecimento técnico, orientam o desenvolvimento de híbridos que gerem valor para toda a cadeia. Nosso objetivo é oferecer soluções de alta qualidade, sabor e padronização, ao mesmo tempo em que contribuímos para aumentar a produtividade, a rentabilidade e a sustentabilidade no campo.

Mundo Agro: Como a BASF concilia produtividade, qualidade dos frutos e sustentabilidade no desenvolvimento de novas variedades?


Beatriz Accorsi: Produtividade, qualidade e sustentabilidade caminham juntas no desenvolvimento das nossas variedades. A BASF investe globalmente cerca de 1 bilhão de euros por ano em pesquisa e desenvolvimento para criar soluções que tornem os sistemas produtivos mais resilientes, eficientes e rentáveis.

No caso da melancia, isso se traduz em híbridos que combinam alto desempenho agronômico, excelente qualidade dos frutos e características como maior resistência ao transporte e menor perda pós-colheita.


Além da genética, incentivamos a adoção de boas práticas agrícolas e de um modelo produtivo mais integrado, que fortalece a competitividade do setor e permite que o consumidor tenha acesso a frutas mais saborosas, padronizadas e produzidas de forma cada vez mais sustentável.

Mundo Agro: Quais são os principais desafios para expandir a produção de melancias especiais no Brasil?

Diego Lemos: Para que esse segmento continue avançando, é fundamental acelerar a profissionalização e a modernização de toda a cadeia no país. A expansão depende da adoção de tecnologias e boas práticas no campo, de investimentos em infraestruturas modernas, como unidades de beneficiamento (packing houses), e de uma forte integração entre produtores, beneficiadores e varejo.

Nós atuamos diretamente para apoiar o setor a superar essas barreiras, oferecendo sementes híbridas de alta performance e atuando ao lado dos agricultores para compartilhar experiências, apresentar inovações e fortalecer um modelo de produção cada vez mais integrado e eficiente.

Quando esses elos evoluem juntos, a cadeia ganha a eficiência necessária para atender à crescente demanda por frutas de maior valor agregado.

Mundo Agro: Como a genética vem transformando a produtividade da cultura da melancia?

Diego Lemos: Nos últimos anos, os avanços em melhoramento genético têm contribuído para elevar o patamar da cultura da melancia. Desenvolvemos híbridos que aliam resistência a pragas e doenças a um ótimo desempenho em diversas épocas do ano, inclusive no outono e inverno. Isso permite entregar frutos de maior peso comercial e variedades especiais.

Esse avanço vai além da lavoura: ao gerar uma fruta de alta qualidade e valor agregado, estimulamos o produtor a investir em infraestrutura, logística e beneficiamento, contribuindo para uma cadeia mais eficiente, profissional e competitiva.

Mundo Agro: Quais características os produtores mais valorizam atualmente em um híbrido de melancia?

Diego Lemos: Hoje, o produtor busca híbridos que combinem alta produtividade, qualidade e rentabilidade. Além disso, ele também prioriza variedades que se adaptem às exigências dos consumidores e permitam atender a diferentes canais de comercialização, desde o mercado convencional até o segmento especial.

Características como resistência a pragas e doenças, uniformidade dos frutos, bom desempenho em diferentes condições de cultivo e qualidade pós-colheita também são cada vez mais valorizadas.

O objetivo é produzir com mais eficiência e previsibilidade, reduzindo perdas e agregando valor ao longo da cadeia. Quando a genética reúne esses atributos, o resultado é uma operação mais competitiva para o produtor e uma experiência de maior qualidade para o consumidor.

Mundo Agro: Quais tendências devem marcar o mercado brasileiro de melancias nos próximos cinco anos?

Diego Lemos: O mercado deve avançar aceleradamente na profissionalização e na integração entre campo, beneficiamento e varejo. Vemos a consolidação de Goiás, que já lidera a produção nacional com 270 mil toneladas por ano, impulsionada pela verticalização da atividade.

Para os próximos anos, a expectativa é de ampliação do espaço para melancias de maior valor agregado e investimento crescente dos produtores em estruturas próprias de colheita mecanizada e beneficiamento (packing houses). Esse movimento vai acelerar a logística, reduzir perdas e elevar a competitividade de toda a cadeia.

Mundo Agro: Que novidade a Nunhems prepara para esse segmento nos próximos anos?

Diego Lemos: Nosso foco é continuar investindo em inovação agronômica para fortalecer toda a cadeia da melancia no Brasil. Seguiremos desenvolvendo sementes híbridas que entreguem ainda mais resistência a pragas e doenças, bom desempenho em diferentes épocas do ano, qualidade de polpa e elevada vida útil pós-colheita (shelf-life). Sabemos que o aumento da produtividade será uma das principais ferramentas para manter a rentabilidade do produtor.

Ao entregar maior produtividade no campo, também contribuímos para ampliar a oferta da fruta e, consequentemente, favorecer preços mais acessíveis ao consumidor.

Além disso, seguimos trabalhando em soluções alinhadas às novas demandas do mercado, combinando produtividade, qualidade e características que agreguem valor para produtores, varejo e consumidores.

O objetivo é disponibilizar uma genética cada vez mais avançada, capaz de apoiar a evolução da cadeia rumo a modelos mais profissionais, eficientes e rentáveis.

Mundo Agro: Reduzir o tempo entre a colheita e o consumidor em até 50% representa qual impacto econômico para o produtor?

Diego Lemos: Historicamente, esse percurso levava cerca de seis dias. Ao reduzir esse tempo pela metade, o produtor consegue diminuir em aproximadamente 10% as perdas pós-colheita, além de melhorar diretamente o aproveitamento da fruta comercializada.

Economicamente, esse ganho de agilidade se traduz em eficiência logística, preservação do frescor e do tempo de prateleira (shelf-life) e, consequentemente, em uma melhor rentabilidade final, permitindo que o agricultor agregue mais valor ao seu produto e opere de forma mais sustentável e rentável.

Para o consumidor, significa ter acesso a uma fruta mais fresca e com maior qualidade, o que contribui para uma experiência de consumo melhor e pode favorecer o aumento do consumo da fruta ao longo dos anos.

Mundo Agro: O Brasil pode se tornar referência mundial em melancias premium?

Diego Lemos: Sim. O Brasil já ocupa o 5º lugar no ranking mundial de produção, com cerca de 2 milhões de toneladas ao ano, e possui polos altamente produtivos, com destaque para Goiás, que superou a Bahia e assumiu a liderança nacional com 270 mil toneladas anuais. Unindo nossa capacidade agrícola à adoção de genética avançada, rastreabilidade e unidades de beneficiamento modernas, reunimos todas as condições para ditar padrões de qualidade.

O sucesso de variedades como a Pingo Doce e a Brabba, aliado aos novos investimentos em infraestrutura e à maior integração da cadeia, reforça que estamos no caminho certo para ampliar nossa relevância também no segmento de frutas de alto valor agregado.

Mundo Agro: Como a inovação genética ajuda o produtor a enfrentar eventos climáticos extremos?

Diego Lemos: Em um cenário de maior variabilidade climática, a inovação genética tem papel importante para aumentar a resiliência da produção. Desenvolvemos sementes híbridas que alinham estabilidade de produção, plasticidade e produtividade, a fim de enfrentarmos melhor as intempéries climáticas e posicionarmos a melhor genética de acordo com local, época e condições de produção.

Aliando essa genética avançada a soluções completas de proteção de cultivos, químicas e biológicas, ajudamos o agricultor a manter a produtividade, a sanidade da lavoura e a rentabilidade do negócio, mesmo diante de desafios climáticos.

Mundo Agro: A Brabba teve crescimento de demanda superior a dez vezes desde o lançamento. O que explica essa aceitação?

Diego Lemos: A aceitação da Brabba está diretamente relacionada à sua capacidade de atender às necessidades de diferentes elos da cadeia. A variedade reúne características muito valorizadas pelo produtor, como alta produtividade e porcentagem de frutos acima de 12 kg, qualidade comercial, com polpa vermelha intensa e casca lisa, elevado teor de açúcar e resistência para transporte de longas distâncias.

Essa combinação contribui para aumentar o potencial de rentabilidade e amplia as oportunidades de comercialização, mostrando que a melancia convencional também tem grande espaço para crescer no mercado brasileiro.

Mundo Agro: Como estruturas de beneficiamento, como o packing house em Goiás, podem mudar a competitividade da cadeia da melancia?

Diego Lemos: Estruturas de beneficiamento, como os packing houses, representam um importante avanço em profissionalização e eficiência operacional para a cadeia da melancia.

A nova unidade na propriedade em Santa Fé de Goiás (GO) tem capacidade para processar até 50 toneladas por dia e reduz o tempo entre a colheita no campo e a mesa do consumidor em até 50%.

Essa agilidade melhora a logística, amplia o tempo de prateleira (shelf-life), reduz perdas pós-colheita e eleva o padrão de qualidade da fruta que sai do estado. Como resultado, toda a cadeia ganha eficiência, competitividade e geração de valor.

Mundo Agro: A Pingo Doce foi inspirada em um modelo espanhol. Quais adaptações foram necessárias para atender ao consumidor brasileiro?

Thiago Fonseca: A principal adaptação não foi apenas no produto, mas também no modelo de negócio e na integração da cadeia. Na Espanha, a melancia Fashion impulsionou o consumo ao unir todos os diferentes elos do setor. Para a realidade brasileira, adaptamos essa estratégia conectando produtores, distribuidores, varejo e consumidores. Criamos um sistema de produção integrado e rastreável, que garante padrão de qualidade constante e entrega uma fruta menor e mais conveniente para o hábito de compra do país, agregando valor à melancia do campo até o ponto de venda.

Mundo Agro: Quais características genéticas da Pingo Doce mais agregam valor ao produtor e ao varejo?

Thiago Fonseca: Entre os principais diferenciais desta variedade estão a combinação de conveniência para o consumidor e eficiência para a cadeia. Para o produtor, a Pingo Doce oferece genética avançada, valor agregado e abertura de novas oportunidades de mercado.

Para o varejo, entrega uma fruta compacta, de cerca de 7 kg, com elevado teor de açúcar (grau Brix), menor quantidade de sementes e maior vida útil nas prateleiras. Esses atributos ajudam a diminuir o desperdício e contribuem para uma melhor experiência de compra e consumo.

Mundo Agro: A Pingo Doce teve um crescimento de 25% nos últimos três anos. Quais são as perspectivas para os próximos anos?

Thiago Fonseca: O crescimento observado nos últimos anos reforça o potencial de expansão das melancias especiais no Brasil. Esse avanço de 25% reflete a busca do consumidor por frutas de maior qualidade e conveniência, além da evolução de uma cadeia cada vez mais profissional, integrada e orientada às demandas do mercado.

Para os próximos anos, a expectativa é de continuidade desse movimento, com maior presença dessas variedades e ampliação das oportunidades para produtores e varejo, mantendo um padrão de qualidade estável durante o ano todo

Mundo Agro: Qual foi a estratégia para posicionar a Pingo Doce como uma melancia de maior valor agregado?

Thiago Fonseca: A estratégia foi olhar além da semente. Adaptamos um modelo de negócio integrado, inspirado no mercado europeu, conectando produtor, distribuidor, varejo e consumidor final.

Com isso, estruturamos o conceito de melancia especial, entregando uma fruta diferenciada por doçura, tamanho compacto, textura, menor quantidade de sementes e rastreabilidade. Esse conjunto de atributos, somado ao grande investimento em marketing nos pontos de venda, permitiu a consolidação da Pingo Doce como referência no segmento.

Mundo Agro: Há planos para ampliar a área cultivada ou o número de produtores parceiros?

Thiago Fonseca: Vemos espaço para ampliar esse modelo nos próximos anos. À medida que a demanda nas principais redes de supermercados cresce, nosso objetivo é seguir ampliando as áreas de cultivo e desenvolvendo embalagens que permitam maior eficiência no transporte e comercialização. O foco está em trabalhar com agricultores que compartilhem essa visão de produção mais integrada, eficiente e orientada a geração de valor para toda a cadeia.

Mundo Agro: A Pingo Doce para você, em uma palavra, é?

Thiago Fonseca: Transformação. Porque representa uma nova forma de produzir, beneficiar e comercializar melancia, conectando inovação genética, profissionalização da cadeia e geração de valor para todos os elos do setor. Além de atender às demandas do consumidor por praticidade e qualidade, a Pingo Doce ainda cria novas oportunidades de rentabilidade e diferenciação para produtores e varejo.

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