O tarifaço revela o que o Brasil ainda precisa resolver no agronegócio
Mais do que buscar novos mercados, o país precisa fortalecer sua autonomia produtiva, agregar valor à produção e acelerar investimentos em infraestrutura

O tarifaço americano é um sinal de um novo ambiente global, em que países precisarão combinar produção, autonomia e estratégia para proteger sua competitividade.
O Mundo Agro abre a porteira para o artigo de Alexandre Bertoncello, economista e fundador da Bella Investimentos. Para ele, o tarifaço deve ser interpretado como um alerta sobre os desafios estruturais do setor, que passam pela dependência externa, pela necessidade de agregar mais valor à produção e pelos gargalos de infraestrutura.
“O tarifaço é um aviso do novo mundo, estamos preparados?
As novas tarifas impostas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros voltaram a colocar o agronegócio no centro de uma disputa que ultrapassa as porteiras, os portos e as relações comerciais tradicionais. Discussões rasas sobre retaliar ou não escondem três perguntas importantes: qual é o grau de dependência do agronegócio nacional, como agregar mais valor em vez de buscar apenas volume e qual é o verdadeiro papel da infraestrutura brasileira. Esses são os dilemas centrais desta e de todas as outras guerras comerciais que ainda virão.
A aplicação da chamada Lei da Reciprocidade Econômica poderia gerar aplausos entre aqueles que não compreendem o funcionamento do agronegócio nacional. No entanto, a elevação de tarifas sobre máquinas agrícolas, defensivos, fertilizantes, tecnologia, componentes industriais ou equipamentos norte-americanos poderia aumentar os custos de produção. Esse custo seria transferido ao produtor brasileiro, ao consumidor nacional, aos compradores externos ou, mais provavelmente, a todos os agentes envolvidos, reduzindo nossa capacidade de produzir riqueza.
Vencido esse paradigma, vamos aos pontos importantes. Nossa dependência não está apenas no acesso ao mercado americano, à tecnologia global aplicada a máquinas e equipamentos, aos fertilizantes, aos defensivos ou às sementes. Nossa submissão está na ausência de uma complexidade autônoma entre todos os agentes envolvidos.
O que isso significa? O agronegócio ainda peca por conexões simplistas e frágeis, seja na insegurança jurídica da terra, seja no frágil tecido social dependente de cooperativas oligopolizadas, tradings internacionais ou financiamentos monopolizados pelo governo. Não abrimos novos mercados porque o principal interessado, o agricultor, não tem a menor ideia de como isso é feito.
Se algum dia vencermos nossos primeiros obstáculos, ainda precisaremos superar a miopia nacional. Muitos estão comemorando a possibilidade de o Brasil ultrapassar os Estados Unidos nas exportações agrícolas em 2027. Neste ano, devemos exportar US$ 169 bilhões, enquanto nossos concorrentes devem alcançar US$ 171 bilhões. No entanto, deveríamos focar em mais valor, e não apenas em mais volume.
Concomitantemente, precisamos escapar do discurso simplista de que devemos apenas processar mais e deixar de vender matérias-primas. O verdadeiro objetivo deve ser melhorar as margens, ampliando a diferença entre o custo de produção e o preço final em cada cadeia produtiva. Em alguns casos, para determinados agentes, isso pode significar vender o boi vivo para a Turquia. Na mesma pecuária, em outros casos, pode significar vender carne processada e embalada a vácuo para supermercados no Japão. Deveríamos ter uma verdadeira obsessão pelo aumento de valor, e não apenas pelo crescimento dos volumes.
Nossa última pauta neste artigo, embora certamente não seja a última do agronegócio, é a infraestrutura. Em sua definição, ela corresponde ao conjunto de instalações, redes e serviços essenciais que permite a circulação de pessoas, mercadorias, energia, informações e recursos dentro de uma economia. No agronegócio, a infraestrutura envolve principalmente estradas, ferrovias, hidrovias, portos, armazéns, energia e conectividade. Ela é determinante para que a produção chegue ao mercado com rapidez, segurança e custos competitivos.
Para que isso aconteça, precisamos aperfeiçoar marcos regulatórios como a Lei das Ferrovias, a Lei dos Portos, o programa BR do Mar, a Lei de Concessões, o marco das parcerias público-privadas, a legislação de armazenagem, a Política Nacional de Irrigação, o marco do licenciamento ambiental e as leis de debêntures de infraestrutura. O Brasil precisa compreender que não falta dinheiro para melhorar a infraestrutura. Falta liberdade, segurança jurídica e capacidade de execução para transformar projetos em obras.
Por fim, é importante deixar claro que o impacto não será igual para todo o agronegócio. No setor sucroalcooleiro, os efeitos tendem a ser mais fortes e as alternativas reais são mais limitadas. O mesmo não ocorre com o café e a laranja, que ficaram fora das novas tarifas. No caso do fumo, as tarifas são relevantes, mas existem outros mercados capazes de absorver parte da produção.
Também precisamos lembrar que qualquer aumento tarifário deve ser analisado a partir de um quadrante microeconômico frequentemente ignorado: a elasticidade do produto, a relação entre oferta e demanda e o grau de oligopolização do mercado ofertante. São essas variáveis que determinam quem realmente absorverá o custo da tarifa e qual será o impacto final sobre produtores, consumidores e exportadores.
Naturalmente, esta é apenas uma entre as muitas guerras comerciais que já aconteceram e que continuarão acontecendo. Basta relembrar a Lei Smoot-Hawley, de 1930, durante a Grande Depressão; a chamada Guerra do Frango, entre Estados Unidos e Europa, entre 1962 e 1964; ou a Guerra da Banana, entre países latino-americanos e a Europa, entre os anos 1990 e 2009.
Os países perseguem seus próprios interesses e só conseguem alcançar seus objetivos quando observam, de forma estratégica, os três pontos discutidos aqui: dependência, geração de valor e infraestrutura. Infelizmente, o Brasil continua errando nesses três pilares e, por isso, corre o risco de perder esta e também as próximas guerras comerciais que inevitavelmente virão."
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