Crédito público perde espaço e muda o rumo do agronegócio
Relatório da FGV mostra avanço do financiamento privado em meio a juros elevados e déficit bilionário no setor
Agronegócios|Do R7, com RECORD NEWS
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A demanda crescente por investimentos no agronegócio brasileiro já supera a capacidade de financiamento do setor público, abrindo espaço para a expansão do crédito privado. O estudo “A transformação do financiamento do agronegócio”, da FGV (Fundação Getúlio Vargas), que destaca a perda do protagonismo de programas governamentais, como o Plano Safra — principal programa do Estado de apoio e financiamento ao agronegócio brasileiro — e o avanço de alternativas de mercado.
De acordo com o levantamento, a redução de crédito público nos últimos anos impulsionou instrumentos privados como as CPRs (Cédulas de Produto Rural), operações de barter — troca de insumos por produção futura —, LCAs (Letras de Crédito do Agronegócio) e os CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio). Esse movimento ocorre em um cenário de juros elevados e forte expansão da produção, que pressiona a necessidade de capital no campo.

Para Carlos Cogo, consultor em agronegócio, a mudança estrutural no financiamento do setor é inevitável. “O agronegócio brasileiro, de fato, já não tem mais capacidade de ser financiado pelo Estado. Isso está totalmente inviável e, só dependendo dos recursos do Plano Safra, vai ficar cada vez mais distante”, afirma.
Segundo o especialista, o Plano Safra já foi responsável por mais de 90% do crédito do setor nos anos 1990 e início dos anos 2000. Atualmente, no entanto, cobre menos de 25% das necessidades. Para o próximo ciclo, o orçamento previsto é de cerca de R$ 19 bilhões em subsídios — valor considerado insuficiente diante de uma demanda que pode chegar a R$ 1,4 trilhão.
Diante dessa lacuna, produtores têm recorrido com maior frequência ao mercado de capitais. As CPRs, por exemplo, se consolidaram como uma das principais ferramentas de financiamento, mesmo com taxas de juros que variam entre 21% e 25% ao ano. Já as operações de barter têm financiado entre 40% e 45% dos custos de custeio em algumas culturas.
Outro ponto de preocupação destacado pelo estudo da FGV é a baixa cobertura do seguro rural no Brasil. Atualmente, menos de 4% da área agrícola conta com proteção contra perdas, o que aumenta significativamente o risco da atividade. Cogo classifica o cenário como crítico e aponta impactos diretos no custo do crédito.
“O produtor trabalha assumindo o risco total do negócio”, afirmou. Segundo ele, a ampliação do seguro poderia reduzir as taxas de financiamento, ao oferecer mais segurança para instituições financeiras.
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Nos últimos meses, medidas têm sido adotadas para modernizar o setor, como a exigência de fotos com identificação de localização para a contratação de seguros rurais. A iniciativa, aprovada pelo Conselho Monetário Nacional, busca aumentar a transparência e reduzir fraudes, mas ainda enfrenta entraves estruturais.
A falta de conectividade no campo e de equipamentos adequados é um dos principais desafios. Em muitas regiões rurais do país, o acesso à internet ainda é limitado, o que dificulta a adoção de tecnologias digitais e a implementação de novas exigências operacionais.
Essas dificuldades também ganham relevância no cenário internacional. A União Europeia, por exemplo, vem ampliando exigências ambientais e de rastreabilidade para produtos importados, o que pressiona produtores brasileiros a se adequarem a padrões mais rígidos.
Apesar das dificuldades iniciais, as exigências de rastreabilidade e conformidade ambiental podem trazer benefícios no longo prazo. Segundo Carlos Cogo, a adaptação a essas regras pode gerar diferenciação no mercado e ampliar oportunidades para os produtores brasileiros.
Nesse contexto, a reorganização do financiamento do agronegócio e a modernização da cadeia produtiva se tornam fundamentais para sustentar o crescimento do setor, que segue como um dos principais motores da economia brasileira.
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