Governo dos EUA confirma novas tarifas a produtos exportados pelo Brasil
Medida foi aplicada por conta de supostas práticas desleais em temas como comércio digital, trabalho forçado e desmatamento ilegal
Brasília|Giovana Cardoso, do R7, em Brasília
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Uma fonte do governo dos Estados Unidos confirmou, nesta quarta-feira (15), a decisão de taxar ao menos 4.000 produtos exportados pelo Brasil com tarifas que, somadas, podem chegar a 37,5%. A medida foi aplicada sob a justificativa de supostas práticas desleais do país em questões como comércio digital, trabalho forçado e desmatamento ilegal.
📝Os produtos brasileiros serão afetados por duas tarifas diferentes. A primeira, de 25%, está relacionada a supostas práticas desleais, envolvendo o Pix, acesso a mercado e barreiras regulatórias. A outra, de 12,5%, foi proposta por uma suposta falha do governo brasileiro no combate ao trabalho forçado.
O anúncio feito pelo governo de Donald Trump já era esperado pelo Planalto, que atuou, nas últimas semanas, para tentar reverter a aplicação das tarifas. Mais de 30 contatos com os norte-americanos foram feitos, sendo eles presenciais, virtuais ou por telefone.
Na última semana, representantes da indústria, agronegócio e da oposição chegaram a participar da audiência pública do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) para tentar reverter a medida.
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As conversas foram conduzidas desde o anúncio do tarifaço original, em abril de 2025, nos níveis presidencial, ministerial e técnico. Apenas com o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, e o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, foram feitos 11 contatos.
Inicialmente, a estratégia do governo era tentar ganhar tempo e evitar que a tensão comercial se transformasse em um impasse diplomático de maiores proporções, sobretudo em meio ao ambiente pré-eleitoral tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.
📌 Com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, o USTR tem ampla autoridade para adotar diversas medidas em resposta a essas práticas desleais, com o objetivo de eliminá-las ou resolvê-las, incluindo a imposição de tarifas e outras restrições sobre bens ou serviços.
Impasse político
O impasse comercial entre o Brasil e os Estados Unidos se estende desde abril do ano passado, quando Trump anunciou uma “tarifa recíproca” de 10% sobre os produtos importados brasileiros. Em julho, uma taxa adicional de 40% é imposta ao país sob a justificativa de um “caça a bruxas” ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que na época era julgado pela tentativa de golpe de Estado.
Posteriormente, a tarifa de 10% foi retirada para alguns produtos, como carne e café. Mesmo com o mal-estar entre os países, Trump chegou a afirmar que teve uma “química excelente” com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva após um breve encontro na Assembleia Geral da ONU (Nações Unidas), em setembro de 2025. Dois meses depois, o norte-americano decidiu retirar a tarifa de 40% sobre os produtos agrícolas.
Entenda como Lula e Trump superaram mal-estar e iniciaram aproximação
Com o clima mais agradável entre os dois, não era esperada uma nova taxa, anunciada em junho deste ano. A proposta é resultado de uma investigação aberta em julho de 2025, que analisou políticas brasileiras nos setores digital, financeiro, ambiental e de propriedade intelectual.
Antes disso, Trump declarou que os EUA iriam classificar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas, medida vista pelo governo brasileiro como um risco à soberania. O anúncio ocorreu dois dias depois da visita do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a Washington.
A aproximação de Flávio e as medidas dos EUA ampliaram a divergência política entre os países, gerando uma crise maior no Brasil. A menos de quatro meses para as eleições, essa tensão virou um dos focos da disputa política entre o atual presidente Lula e Flávio, principalmente em relação a uma possível interferência no processo eleitoral brasileiro.
Cientista político e doutorando em relações internacionais pela UnB (Universidade de Brasília), José Paulo Ferreira entende que o interesse de Washington é limitar a presença de outros atores no hemisfério, objetivo que constitui praticamente um consenso bipartidário.
“Existe, claro, a dimensão econômica-comercial, mas a que avalio que tem maior peso é a geopolítica, no sentido de alinhamento à nova doutrina de defesa, com projeção sobre as Américas e afastamento da influência chinesa“, aponta.
Com esse plano, um governo brasileiro mais alinhado à agenda trumpista facilitaria acordos comerciais, cooperação em segurança e redução da influência de potências rivais, como a China, na região. “O Brasil é a maior economia da América do Sul e tem peso geopolítico que os EUA não ignoram”, explica Rafael Moredo, internacionalista e coordenador de políticas públicas do Livres.
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