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‘Saiu exatamente como mandei’: veja como Ciro teria atuado em projetos de interesse de Vorcaro

Senador foi um dos alvos da nova fase da operação Compliance, que investiga fraudes ligadas ao Banco Master

Brasília|Giovana Cardoso, do R7, em Brasília

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Senador Ciro Nogueira é investigado por suspeitas de favorecimento ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
  • Pegou emenda que ampliaria a autonomia do Banco Central, escrita pela assessoria do banco, comemorada por Vorcaro.
  • Ciro teria recebido mesadas e coberturas de despesas luxuosas, totalizando R$ 300 mil mensais, além de valores de parcerias duvidosas.
  • A defesa do senador nega irregularidades e se mostra disposta a colaborar com as investigações.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

PF cumpriu mandados de busca e apreensão na casa de Ciro Nogueira, em Brasília
PF cumpriu mandados de busca e apreensão na casa de Ciro Nogueira, em Brasília Reprodução/RECORD - 07.05.2026

Suspeito de receber mesadas, lucros como acionista e ter o custeio de hospedagens, restaurantes e viagens internacionais pelo banqueiro Daniel Vorcaro, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) era pago, principalmente, para usar o mandato em favor dos interesses privados do dono do Banco Master.

Em um dos casos, por exemplo, o parlamentar sugeriu incluir na PEC (proposta de emenda à Constituição) que amplia a autonomia do Banco Central uma emenda elaborada pela assessoria do Master. Ao ter o pedido atendido, segundo conversas obtidas pela Polícia Federal, Vorcaro comemorou: “Saiu exatamente como mandei”.

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A sugestão foi apelidada de “Emenda Master” e, segundo interlocutores do Master, teria o potencial de “sextuplicar” o negócio do banco e provocaria uma “hecatombe” no mercado financeiro. A emenda, contudo, acabou rejeitada pelo relator da PEC, senador Plínio Valério (PSDB-AM).

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A emenda previa ampliar a cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Crédito) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante. Ao apresentar a sugestão, Ciro defendeu que o órgão passasse a exercer uma função pública, alinhando-se a práticas internacionais.

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Segundo a justificativa do parlamentar, uma gestão pública poderia garantir maior transparência e eficácia na mediação de conflitos e na proteção de poupadores. Assim, a medida buscava aumentar a competitividade entre as instituições financeiras e prevenir riscos sistêmicos.

A Polícia Federal constatou que o texto foi escrito pela assessoria do Banco Master, encaminhado a Daniel Vorcaro e entregue em um envelope endereçado a “Ciro” na residência do senador. As investigações apontam que o parlamentar reproduziu a versão preparada pela assessoria do banco de forma integral no Senado.

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Outros projetos

Além dessa emenda, as investigações indicam que Ciro teria atuado para favorecer interesses de Daniel Vorcaro em outros dois projetos de lei:

  • PL nº 5.174/2023: projeto que institui o Programa de Aceleração da Transição Energética e viabiliza o acesso a crédito para empresas que possuem valores a receber da União, como precatórios e créditos tributários, para financiar projetos ligados à transição energética.
  • PL nº 412/2022: projeto que institui o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa e estabelece um teto de emissões para alguns setores da economia formados por empresas de grande porte com alta emissão.

“Consta do expediente que, em novembro de 2023, Daniel Vorcaro ordenou a retirada, da residência do senador, de envelopes que conteriam minutas de projetos de lei de interesse do particular, posteriormente levados a ‘escritório’ indicado por ele para revisão e, em seguida, entregues, já processados, a servidor vinculado ao parlamentar”, detalhou o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça na decisão que autorizou o cumprimento de mandados de busca e apreensão na casa do senador.

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“A denotar que haveria nos episódios algo que iria além das vias ordinariamente empregadas no âmbito das relações que se estabelecem entre atores políticos e a iniciativa privada, os investigadores enfatizam que Daniel Vorcaro teve o cuidado de orientar a pessoa responsável por promover a devolução dos documentos, ‘para que o motorista não consiga vincular o transporte do documento ao parlamentar’, bem como para que ‘o envelope utilizado não faça referência ao Banco Master’”, acrescentou o ministro.

Vantagens recebidas

Segundo as investigações, o senador teria recebido mesadas de Vorcaro de ao menos R$ 300 mil. Os investigadores também detalharam que um primo do banqueiro, Felipe Cançado Vorcaro, teria operacionalizado uma parceria entre duas empresas de fachada, o que possibilitou as transferências ao senador. O valor teria subido para R$ 500 mil, posteriormente.

Além da quantia paga mensalmente, uma empresa que tem o parlamentar como sócio adquiriu 30% da Green Investimentos S.A. “por valor incompatível com o mercado”, segundo a PF. Na época, as ações foram avaliadas em R$ 13 milhões, porém foram compradas por R$ 1 milhão.

Ainda de acordo com a Polícia Federal, Vorcaro bancava alguns gastos de Ciro, como despesas de voos privados, deslocamentos e viagens internacionais. Os investigadores encontraram comprovantes do custeio de hospedagens de luxo em Nova York e contas em restaurantes de elevado padrão.

Um dos hotéis custeados por Vorcaro para estadia de Ciro Nogueira custa entre R$ 18 mil e R$ 39 mil, a depender da suíte. O levantamento foi feito pelo R7 Planalto, com simulação de uma reserva para duas pessoas, dos dias 24 a 26 de julho — primeiras datas disponíveis encontradas pela reportagem.

A PF citou também a disponibilização de um cartão de crédito específico para a cobertura de despesas pessoais do parlamentar.

O que diz a defesa de Ciro

“A defesa do senador Ciro Nogueira repudia qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas, especialmente em sua atuação parlamentar.

Reitera o comprometimento do Senador em contribuir com a Justiça, a fim de esclarecer que não teve qualquer participação em atividades ilícitas e nos fatos investigados, colocando-se à disposição para esclarecimentos.

Pondera, por fim, que medidas investigativas graves e invasivas tomadas com base em mera troca de mensagens, sobretudo por terceiros, podem se mostrar precipitadas e merecem a devida reflexão e controle severo de legalidade, tema que deverá ser enfrentado tecnicamente pelas Cortes Superiores muito em breve, assim como ocorreu com o uso indiscriminado de delações premiadas”.

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