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Data centers no Brasil: pressão sobre água e biomas cresce por trás do avanço tecnológico

Defensores do Redata, projeto de lei que incentiva as instalações, argumentam com desenvolvimento regional e soberania sobre dados

Meio Ambiente|Bruna Pauxis, do R7, em Brasília

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Data centers reúnem computadores e servidores que trabalham sem interrupções Divulgação/Gov.br

O avanço do Redata no Senado Federal preocupa o setor ambientalista diante dos incentivos para a instalação de data centers no Brasil. Por outro lado, economistas e empresários defendem que a medida coloca o país em vantagem estratégica no cenário internacional.

As estruturas, que são projetadas para abrigar uma vasta rede de servidores, demandam intensa eletricidade para funcionar o dia todo, sem interrupções.


Volumes expressivos de água também são necessários para manter um sistema de refrigeração e evitar o superaquecimento dos equipamentos durante o processamento de dados.

A bióloga e especialista em licenciamento ambiental Anna Gabriela da Cunha Pessoa alerta para o risco de estresse hídrico local, principalmente na região amazônica.


“A necessidade de investimentos para disponibilização de água e energia pode gerar impactos em biomas que já estão muito pressionados, como o Cerrado e a Amazônia”, ressalta Pessoa, citando também a pressão sobre os locais onde a disponibilidade hídrica é menor, como as regiões Nordeste e Centro-Oeste.

“No caso da Amazônia, o risco não é só o consumo direto de recursos, mas o efeito de abertura de fronteira: uma vez que se instala infraestrutura pesada de energia e água numa região, isso tende a puxar outras ocupações e pressões ao redor, um padrão que já se repete com hidrelétricas e mineração”, completa.


Embora a lei tenha estabelecido que as empresas terão que apresentar um Índice de Eficiência Hídrica igual ou inferior a 0,05 litro/kWh em aferição anual, a bióloga explica que o indicador mede eficiência por instalação, não a capacidade de suporte da bacia como um todo. Sendo assim, a instalação de vários data centers em uma mesma região ou bacia hidrográfica pode gerar um efeito ambiental cumulativo.

Redata: investimentos estratégicos para o Brasil

Na última terça-feira (1), o Senado Federal aprovou o PL 278/2026, que cria o Redata (Regime Especial para Serviços de Data Center). A medida zera impostos federais para importação de componentes eletrônicos e de tecnologia da informação destinados aos data centers, como forma de incentivar a instalação dessas estruturas no Brasil.


Com um impacto fiscal estimado em R$ 5,2 bilhões para 2026, valor que deve cair para cerca de R$ 1 bilhão nos anos seguintes devido à transição da reforma tributária, o Redata prevê um fortalecimento do cenário nacional para o avanço da inteligência artificial por meio de investimentos estratégicos no país.

Entre outros pontos, o PL obriga que as empresas beneficiadas realizem aplicações no país equivalentes a 2% do valor dos produtos comprados com o benefício fiscal e reservem 10% dos serviços dos data centers para o mercado interno.

Para o economista Renan Filho, as condições são uma oportunidade “indispensável”. Segundo o especialista, o custo fiscal inicial deve ser compreendido como uma medida necessária para estruturar a economia digital brasileira.

“O setor não gera empregos em massa na fase operacional, mas o efeito de transbordamento é altíssimo, com atração de grandes provedores de nuvem, retenção de talentos em tecnologia e, crucialmente, a criação de um ecossistema local para o desenvolvimento de IA”, argumenta.

Desenvolvimento regional

Outro ponto central do projeto é a tentativa de combater disparidades regionais. A proposta exige que 40% dos recursos destinados à pesquisa e desenvolvimento sejam aplicados nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, buscando descentralizar os investimentos historicamente concentrados no eixo Sul-Sudeste.

“Embora a migração de grandes hyperscalers para fora do Sul-Sudeste não ocorra do dia para a noite, a medida pavimenta o caminho para data centers de borda e polos de desenvolvimento tecnológico regionais altamente competitivos”, destaca Renan.

O economista também avalia que a expansão da capacidade computacional interna trará ganhos diretos de produtividade para setores como o agronegócio, a indústria e o setor de serviços, ao baratear custos e reduzir o tempo de resposta das redes.

“Trazer o processamento para dentro das fronteiras brasileiras diminui o custo Brasil em tecnologia, reduz a latência para os negócios e protege a soberania sobre os dados estratégicos do país, acelerando a transição de setores tradicionais para a economia baseada em dados e alta tecnologia”, conclui Renan Filho.

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Falta de transparência

Além do elevado consumo de água e energia das operações nos Data Centers, entidades da sociedade civil, movimentos sociais e ambientalistas também protestam contra a falta de transparência e de consultas públicas nos processos de aprovação do projeto de lei.

Em nota conjunta, entidades como a Coalizão Direitos na Rede, Idec e Lapin alegam que o texto promove “interesses estratégicos” e que as negociações excluíram as entidades da sociedade que estudam o tema.

“Rejeitamos que esse movimento comece pela entrega de benefícios fiscais e privilégios tributários para acelerar a expansão das big techs e outras grandes empresas do setor antes mesmo que o país estabeleça diretrizes adequadas para planejamento territorial, salvaguardas socioambientais e contrapartidas capazes de proteger seus recursos naturais e interesses estratégicos”, escreveram as organizações.

Energia limpa ou de baixa emissão?

Para a bióloga Anna Gabriela Pessoa, o principal gargalo do setor elétrico brasileiro e, consequentemente, sobre os data centers no país, é a ineficácia do transporte da energia até os centros de consumo.

Segundo a especialista, a falta de linhas de transmissão adequadas e os fatores que condicionam a energia solar e eólica têm levado o país a recorrer a usinas termelétricas — uma fonte poluidora. Esse movimento, explica ela, deve ser favorecido a partir do texto aprovado no Senado, que substituiu a exigência de “energia limpa” pelo termo “energia de baixa emissão”.

“Podemos passar de um país que tem uma matriz majoritariamente limpa para um país que tem uma matriz de baixa emissão. Essa não é uma leitura hipotética: foi exatamente essa a mudança feita pelo relator no Senado, que substituiu ‘fontes limpas ou renováveis’ por ‘fontes renováveis ou de baixa emissão’, justamente para incluir o gás natural como fonte complementar, atendendo a pedidos do setor”, destaca Pessoa.

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