Logo R7.com
RecordPlus

A neutralidade dos partidos políticos e o efeito colateral da polarização

Brasil continua presidencialista, mas seu funcionamento político tornou o Executivo profundamente dependente do Parlamento

Blog do Porfírio|Vladimir PorfírioOpens in new window

  • Google News

Adicione como fonte preferencial no Google

Opens in new window

LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • A neutralidade tornou-se uma estratégia eleitoral do Centrão como efeito da polarização política no Brasil.
  • Partidos como União Brasil, PP, MDB, Republicanos, Podemos e PSDB optaram pela neutralidade nas eleições de 2026.
  • O sistema político brasileiro, embora presidencialista, tornou o Executivo dependente do Parlamento, com deputados e senadores ganhando importância estratégica.
  • O Centrão percebeu que a neutralidade pode ser uma forma de assegurar poder e recursos, independentemente de quem vencer a eleição presidencial.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Neutralidade do Centrão pode ser identificada como efeito colateral da polarização brasileira Beto Barata/Agência Senado - Arquivo

Por incrível que pareça, a neutralidade virou cartilha eleitoral do Centrão e já pode ser identificada como efeito colateral da polarização brasileira.

A incerteza sobre o resultado tornou-se fator decisivo para uma escolha que ainda oferece como vantagem a disponibilidade de mais dinheiro para financiar candidaturas ao Parlamento.


Veja Também

Durante muito tempo, os partidos brasileiros sonharam em eleger um correligionário presidente da República. Era uma mentalidade herdada da democracia anterior ao regime militar de 1964, quando não existia dinheiro público financiando campanha eleitoral.

Pelo novo ordenamento político-eleitoral, a equação deslocou o pragmatismo para a eleição de deputados e senadores. Uma prioridade do parlamentarista em pleno presidencialismo


Não foi difícil para o Centrão perceber isso cedo. Até porque, durante a Constituinte de 1987/1988, foi Roberto Cardoso Alves, o Robertão, quem eternizou o pragmatismo do grupo, adaptando a Oração de São Francisco: “É dando que se recebe”.

União Brasil e PP, reunidos na Federação União Progressista, além de MDB, Republicanos, Podemos e PSDB, escolheram a neutralidade nacional em 2026. Não embarcaram nem com Lula nem com Flávio Bolsonaro.


Neutralidade deixou de significar ausência de posição. Virou estratégia.

A história eleitoral ajuda a entender a mudança. Em 1998, quando a televisão era praticamente sinônimo de campanha, o PSDB de Fernando Henrique Cardoso conhecia perfeitamente o valor de uma aliança partidária.


Nessa pegada, Sérgio Motta trabalhou nos bastidores para dificultar a construção de uma coligação ampla em torno de Ciro Gomes.

Naquela época, um terço do horário eleitoral era dividido igualmente e dois terços proporcionalmente à representação parlamentar. Reformas posteriores aumentaram ainda mais o peso dos grandes partidos. Hoje, apenas 10% são distribuídos igualmente e 90% obedecem à representação na Câmara dos Deputados.

Deputado já tinha virado moeda.

Quando Lula chegou à Presidência, em 2002, depois de três derrotas, não carregava uma procissão de partidos. Sua aliança reunia basicamente PT, PL, PCdoB, PCB e PMN.

A grande novidade foi José Alencar, empresário e então integrante do PL, aproximando o PT de setores que tradicionalmente desconfiavam da esquerda.

Lula conseguiu 46,44% dos votos válidos no primeiro turno, para vencer José Serra no segundo com 61,27%.

Em 2006, Lula novamente disputou com uma coalizão presidencial formal menor do que a base parlamentar de seu governo. Era também consequência do mensalão, que tornava eleitoralmente inconveniente para alguns aliados aparecerem abraçados ao candidato. Lula ganhou novamente.

Com Dilma Rousseff, a lógica mudou. Em 2010, a coligação “Para o Brasil Seguir Mudando” reuniu nove partidos: PT, PMDB, PDT, PCdoB, PSB, PR, PRB, PSC e PTC.

Era o presidencialismo de coalizão chegando à campanha eleitoral. Antes mesmo de conquistar a Presidência, Dilma procurava reunir parcela importante da maioria necessária para governar.

Em 2014, repetiu a fórmula com PT, PMDB, PSD, PP, PR, PROS, PDT, PCdoB e PRB. Essas legendas elegeram juntas 304 deputados federais, quase 60% da Câmara.

Parecia uma fortaleza. Não era. Dilma foi reeleita e, menos de dois anos depois, afastada num processo de impeachment que avançou justamente com a desintegração daquela maioria.

O Brasil descobriu que o partido presente na fotografia da posse também pode aparecer na fotografia da queda.

Em 2018 veio a experiência inversa. Jair Bolsonaro concorreu numa coligação formada apenas por PSL e PRTB. Depois do atentado a faca e com Lula impedido de disputar, derrotou Fernando Haddad, cuja aliança reunia PT, PCdoB e PROS.

O candidato, praticamente sem coalizão, derrotou uma máquina partidária tradicional.

Em 2022, Lula voltou às alianças mais amplas, mas dentro de outra legislação. As coligações proporcionais haviam acabado e surgiram as federações partidárias.

A Federação “1Brasil da Esperança “ reuniu PT, PCdoB e PV. A candidatura Lula-Alckmin agregou PSB, Solidariedade, Avante, Agir e PROS. Jair Bolsonaro, no PL, teve PP e Republicanos como aliados nacionais.

Lula venceu. Mas aquela eleição já pertencia ao mundo da internet, com impulsionamento digital, federações, novas regras para distribuição de recursos, cláusula de desempenho, cotas e fidelidade partidária.

De remendo em remendo, a democracia brasileira seguiu seu curso.

O país continua constitucionalmente presidencialista, mas seu funcionamento político tornou o Executivo profundamente dependente do Parlamento. O presidente ganha a eleição e, no dia seguinte, precisa começar a procurar deputados.

É o presidencialismo de coalizão traduzido para o português de Brasília. Na prática, nossa legislação transformou o deputado federal numa espécie de unidade monetária partidária.

No cálculo do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, 35% dos recursos consideram os votos obtidos para deputado federal e 48% a representação na Câmara. Outros 15% levam em conta o Senado e apenas 2% são distribuídos igualmente entre os partidos.

Deputado eleito vale mandato. Deputado eleito vale dinheiro. Deputado eleito vale televisão.

Por isso, quando um dirigente partidário olha para 2026, não enxerga apenas Lula e Flávio Bolsonaro. Enxerga dinheiro até 2030, tempo de televisão, liderança partidária, presidências de comissões, poder de negociação e o tamanho que terá quando o próximo presidente precisar bater à sua porta.

A Federação Brasil da Esperança, de Lula, elegeu 80 dos 513 deputados, proporção muito inferior aos 48,43% dos votos obtidos pelo petista no primeiro turno presidencial. No Senado, o PT em 2022 elegeu apenas quatro senadores do total de 81.

Em 2026 estarão em disputa 54 das 81 cadeiras, dois terços do Senado. É uma oportunidade que aparece apenas a cada oito anos. Uma chance de ouro.

Cabe ao Senado aprovar indicações para o Supremo Tribunal Federal e diversas outras autoridades. Também cabe à Casa processar e julgar presidentes da República por crimes de responsabilidade, depois da autorização da Câmara, e ministros do STF nas hipóteses constitucionais.

Dez ou quinze senadores disciplinados podem representar mais poder institucional do que um ministério. E custam politicamente menos do que uma aventura presidencial.

É aí que entra a cartilha da neutralidade. Apoiar um candidato significa comprar também o risco de sua derrota.

Flávio Bolsonaro permanece eleitoralmente competitivo e seria incorreto descrevê-lo como candidatura inviável. Pesquisa BTG/Nexus divulgada mostrou Lula com 47% e Flávio com 44% numa simulação de segundo turno.

Mas competitividade não é sinônimo de favoritismo irresistível. Flávio ainda não transformou sua candidatura num polo capaz de arrastar toda a centro-direita. União Brasil, PP, MDB, Republicanos, Podemos e PSDB escolheram preservar distância nacional.

Por que União, PP, MDB ou Republicanos deveriam entrar numa guerra entre Lula e Flávio se podem concentrar dinheiro em deputados, senadores e governadores?

Se Flávio ganhar, estarão disponíveis para conversar. Se Lula ganhar, também. Neutralidade virou seguro contra derrota presidencial.

A comparação com 2002 ajuda a compreender o fenômeno. Lula não precisou reunir metade do alfabeto partidário. Montou uma aliança relativamente pequena, incorporou José Alencar, rompeu simbolicamente os limites tradicionais da esquerda e ganhou.

Partido não corre necessariamente atrás de quantidade de aliados. Corre atrás de cheiro de vitória. Quando esse cheiro não é suficientemente forte, cada legenda prefere cuidar do próprio quintal.

Quanto mais polarizada a disputa, maior o incentivo para que partidos de centro permaneçam fora dela. Apoiar Lula significa correr o risco de enfrentar quatro anos de um governo Flávio no limbo. Apoiar Flávio significa correr o risco de passar outros quatro anos diante de Lula como adversário derrotado.

É quase um enigma de Tostines. Pela teoria, o objetivo máximo de um partido deveria ser conquistar o Palácio do Planalto. O Centrão, entretanto, descobriu outra possibilidade.

Num sistema em que deputado significa dinheiro, televisão e poder, senador significa controle institucional e qualquer presidente precisará negociar com o Congresso no dia seguinte à eleição.

Talvez a grande vitória partidária de 2026 não esteja em escolher antecipadamente o vencedor. Pode estar justamente em não escolher ninguém.

A vitória antes da abertura das urnas pode estar na neutralidade. Sobretudo sob o paradoxo de um país presidencialista numa lógica parlamentarista.

Search Box

Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.