O Brasil que pune quem produz e premia quem vive de juros
Desamparo sistêmico do setor produtivo aparece na combinação de crédito caro, empresas em crise e consumidores endividados
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Existe alguma coisa profundamente errada numa economia que sacrifica fabricante de brinquedo, construtor de apartamento, indústria de tecido, vendedor de livro ou varejista que mantém uma porta aberta.
No Brasil, essas atividades hoje estão na condição de alto risco, enquanto viver como rentista, ganhar dinheiro com agiotagem legal e ciranda de juros tornou-se quase que uma garantia de prosperidade.
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Teve um banco desses dos grandes que encerrou 2025 com resultado gerencial recorrente de R$ 46,8 bilhões e retorno sobre patrimônio de 23,4%.
Outro, alcançou lucro recorrente de R$ 24,7 bilhões. Um terceiro que veio de fora, R$ 15,6 bilhões. Um desses que pertence ao governo, mesmo enfrentando forte deterioração na carteira do agronegócio, ainda apresentou lucro ajustado de R$ 20,7 bilhões.
Antes que estes números sirvam de estímulo para algum bolchevique fora de hora, é importante salientar que não há crime em banco ganhar dinheiro.
O problema começa quando a arquitetura econômica transforma o lucro financeiro em banquete e a atividade produtiva em penitência.
A Saraiva, fundada em 1914 e transformada durante décadas em símbolo do livro no Brasil, teve a falência decretada em 2023, depois de uma recuperação judicial iniciada com cerca de R$ 674 milhões em dívidas.
A Rossi Residencial continua em recuperação judicial. A Companhia de Tecidos Santanense também entrou em recuperação. A Estrela, fundada em 1937 e responsável por brinquedos que atravessaram gerações, pediu proteção judicial em 2026, declarando dívida superior a R$ 109 milhões e citando expressamente aumento do custo de capital e restrição de crédito entre as causas de sua crise.
Tok&Stok e Marabraz engrossaram mais recentemente essa paisagem de empresas pressionadas. No caso da Marabraz, são cerca de R$ 140 milhões em dívidas.
Talvez nenhum caso explique melhor essa insanidade do que o das Casas Bahia.
A empresa que ajudou a transformar o crediário em instrumento de acesso ao consumo para milhões de brasileiros acabou ela própria engolida pela engrenagem do crédito caro.
Em agosto, pediu recuperação judicial para R$ 17,3 bilhões (!) em dívidas, envolvendo aproximadamente 28 mil credores. Somadas obrigações que ficam fora do processo, seu endividamento chega perto de R$ 28 bilhões.
É quase uma parábola do Brasil.
As Casas Bahia cresceram vendendo geladeira, televisão, fogão e sofá para quem não tinha dinheiro para pagar à vista. Dependiam, portanto, do crédito.
Quando esse crédito fica proibitivamente caro, acontece a tragédia perfeita. O consumidor endividado desaparece da loja, enquanto a própria loja precisa pagar uma fortuna para financiar estoques, antecipar recebíveis e carregar suas dívidas.
No segundo trimestre de 2026, o resultado financeiro líquido negativo do Grupo Casas Bahia chegou a R$ 1,277 bilhão, equivalente a espantosos 18,3% de sua receita líquida.
É o retrato de uma economia que resolveu cobrar pedágio de quem produz e prêmio de quem vive da circulação do dinheiro. Nessa pegada, milhares de trabalhadores encontram o destino do olho da rua.
Há erros administrativos, mudanças tecnológicas, concorrência internacional, queda de vendas e problemas específicos de cada negócio. Mas negar o papel destrutivo do custo do dinheiro seria fechar os olhos para o elefante sentado no caixa das empresas.
A Estrela disse isso. Empresas em recuperação dizem isso. Os balanços dizem isso. E o consumidor também.
Em maio, a Serasa trabalhava com uma base de 83,4 milhões de brasileiros inadimplentes. Não são apenas CPFs numa planilha. São milhões de consumidores expulsos das lojas, do financiamento, da reforma da casa, da compra do automóvel, do eletrodoméstico e até de serviços cotidianos.
Não dá pra fingir que uma coisa não tem nada com a outra. Estamos diante de uma engrenagem perversa.
O cidadão paga juros selvagens, vai para a lista de negativado e deixa de consumir. O comércio vende menos. A indústria recebe menos pedidos.
A empresa precisa de capital de giro e, sem saída, toma dinheiro caro. Quando realiza o lucro, parte crescente de sua margem vai para despesas financeiras. Daí, primeiro corta investimento. Passo seguinte, demite.
O desempregado consome menos. A inadimplência aumenta. O risco de crédito sobe. E, com risco alto, o banco responde cobrando juros ainda maiores.
É uma lógica em que o incêndio passa a justificar o preço da água.
Enquanto isso, a Selic permanece em 14% ao ano. Aí aparece a verdadeira obscenidade.
O Banco Central informou que, nos doze meses encerrados em maio, o setor público brasileiro gastou R$ 1,111 trilhão com juros nominais, equivalentes a 8,48% do PIB. O déficit primário no mesmo período era de R$ 149 bilhões.
Isso mesmo... R$ 149 bilhões de déficit primário. E R$ 1,111 trilhão de juros. É o cachorro correndo atrás do próprio rabo.
E depois aparecem os sacerdotes da austeridade explicando ao país que o grande problema brasileiro é sempre o gasto público, como se juros não fossem despesa pública.
Precisamos de responsabilidade fiscal? Com certeza! Precisamos controlar despesas, eliminar desperdícios, rever privilégios, melhorar a qualidade do gasto e impedir que a dívida cresça indefinidamente? Claro. Pra ontem!
Mas responsabilidade fiscal que fiscaliza merenda escolar com lupa e não enxerga o impacto de R$ 1 trilhão de juros não é responsabilidade fiscal. É caô!
É justamente aqui que os candidatos à Presidência da República deveriam demonstrar coragem.
Não basta prometer cortar ministérios, perseguir déficit zero ou repetir a liturgia da Faria Lima. Resta saber quem terá coragem de discutir também o outro lado da equação.
Por que não debater uma tributação extraordinária sobre lucros bancários que excedam determinada rentabilidade de referência durante ciclos excepcionalmente lucrativos?
Isso não é invenção bolivariana. A literatura econômica discute impostos sobre lucros extraordinários do sistema financeiro há anos. Estudos analisam tributos sobre lucros acima do retorno normal, e países europeus experimentaram modelos de windfall tax.
A Comissão Europeia estudou recentemente experiências de Lituânia, Letônia e Estônia, concluindo que os modelos levantaram questões de desenho e equidade, mas não comprometeram a estabilidade bancária.
Já que evitam a jabuticaba do imposto único para fazer justiça tributária, podiam buscar as novidades dos frutos do pomar pensante de outros países, como Lituânia, Letônia e Estônia.
Parte dessa arrecadação poderia alimentar um fundo destinado à recuperação da capacidade de crédito de pequenas e médias empresas e à renegociação de dívidas de famílias superendividadas.
Outra discussão necessária é reduzir estruturalmente a indexação da dívida pública à Selic e alongar seus vencimentos.
Congelar unilateralmente a dívida ou simplesmente suspender a remuneração dos títulos públicos seria uma aventura perigosa, visto que haveria o risco de destruição da confiança.
Poderia provocar fuga de capitais, elevar o prêmio de risco e terminar produzindo juros ainda maiores. Mas tem de existir algo entre a submissão absoluta ao mercado.
Pode-se discutir imposto sobre lucro extraordinário. Pode-se ampliar tributação sobre determinadas rendas financeiras. Pode-se fortalecer fundos garantidores para pequenas empresas. Pode-se reduzir a indexação da dívida à Selic. Pode-se alongar vencimentos. Pode-se propor um novo paradigma para reconstrução do crédito produtivo, a partir de fundos custeados pela própria rentabilidade dos bancos.
O que não podemos é continuar fingindo que não existe problema. Os bancos precisam saber que será terra arrasada o dia em que não houver para quem emprestar o dinheiro.
O Brasil está chegando a uma situação grotesca em que produzir é arriscado, empregar é caro, investir exige coragem e dever dinheiro é quase uma sentença de morte.
Empresas centenárias entram em recuperação. Famílias são negativadas. Lojas esvaziam. Fábricas fecham.
E o dinheiro continua trabalhando tranquilamente para produzir mais dinheiro. Vida louca!
O próximo presidente precisa escolher que capitalismo pretende governar. O Brasil precisa de um capitalismo no qual o banco tenha sua rentabilidade, mas sirva para financiar a produção.
É imoral silenciar diante deste modelo deformado, em que a produção trabalha para financiar o banco. E banco trabalha para ficar ainda mais rico, com o dinheiro tirado de quem acabou quebrando.
PS: em 2023, o governo da Itália criou uma tributação extraordinária de 40% sobre o excesso de receita líquida de juros dos bancos, tomando como referência o crescimento em relação a 2021.
O modelo permitiu alternativamente que os bancos reforçassem reservas de capital. O FMI estimou que, sem essa alternativa, a arrecadação poderia chegar a cerca de 3 bilhões de euros.
A Espanha estabeleceu tributação extraordinária sobre bancos, incidindo sobre receitas de juros e comissões. O modelo inicial cobrava 4,8% e arrecadou aproximadamente 1,2 bilhão de euros em 2023.
Nos Estados Unidos, em 1980, durante o governo Jimmy Carter, o Congresso aprovou o Crude Oil Windfall Profit Tax Act. Era tecnicamente um imposto especial sobre o petróleo doméstico destinado a capturar parte do ganho provocado pela desregulamentação dos preços. Até dezembro de 1984, havia produzido mais de US$ 72 bilhões em receitas reportadas.
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