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A fazenda de mentiras: esquema multiplicava artificialmente o alcance de conteúdos

Contas artificiais curtem, compartilham, comentam e reproduzem determinado conteúdo. O algoritmo percebe movimento e amplia sua distribuição

Blog do Porfírio|Vladimir PorfírioOpens in new window

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • A polícia encontrou uma "mini granja de bots" na Bolívia, ligada a Fernando Cerimedo, marqueteiro digital associado a campanhas da nova direita latino-americana.
  • Essas fazendas de bots multiplicam artificialmente o alcance de conteúdos, manipulando tendências e iludindo o público sobre a popularidade de certas ideias.
  • O Brasil enfrenta desafios regulatórios para lidar com manipulações digitais, enquanto a Europa adota medidas rigorosas para controlar plataformas digitais.
  • Há uma necessidade urgente de atualizar a legislação brasileira para proteger a democracia contra manipulações digitais e garantir a transparência nas plataformas online.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

O argentino Fernando Cerimedo, marqueteiro digital Agustin Marcarian/File Photo/Reuters

A polícia entrou numa casa na Bolívia e encontrou uma imagem quase didática do nosso tempo. Dinheiro, documentos e uma estrutura tecnológica conhecida como “mini granja de bots”. O endereço era vinculado ao argentino Fernando Cerimedo, marqueteiro digital que circulou por campanhas da nova direita latino-americana, trabalhou para Javier Milei e estabeleceu relações estreitas com o bolsonarismo.

Cerimedo nega que os equipamentos constituíssem uma fazenda de robôs. A perícia terá de dizer exatamente o que havia ali. Mas a história não começa nessa casa. O próprio Cerimedo já havia reconhecido publicamente administrar cerca de 50 mil contas artificiais na Argentina, além de outras no Chile.


Trata-se de uma escala industrial de fabricação de aparência.

O truque dessas fazendas é extraordinariamente simples, multiplicando artificialmente o alcance de conteúdos, numa criminosa manipulação de tendências travestida de algoritmos.


Contas artificiais curtem, compartilham, comentam e reproduzem determinado conteúdo. O algoritmo percebe movimento e amplia sua distribuição. A mensagem chega então a pessoas reais.

Cinquenta mil contas artificiais não significam apenas 50 mil manifestações falsas. Elas funcionam produzindo ondas de exposição muito maiores porque a fraude inicial serve para acionar o sistema de recomendação.


É a falsificação industrial da opinião pública, muitas vezes a serviço de interesses políticos e toda ordem de perversão bestial. Não necessariamente nessa mesma ordem.

O sujeito entra numa rede social e vê milhares de curtidas. Imagina que milhares de pessoas concordaram. Encontra centenas de comentários repetindo uma acusação e conclui que existe ali alguma tendência ou verdade. Descobre um assunto entre os mais comentados e supõe que o país esteja discutindo aquilo.


O zé-ruela fica impressionado e se deixa seduzir. Mas, quase sempre, está apenas olhando para o trabalho de máquinas.

Aliás, as peripécias desse tal de Cerimedo conhecem bem o Brasil. Ele é aquele estrangeiro que a Polícia Federal indiciou no inquérito sobre a tentativa de golpe. A Procuradoria-Geral da República, entretanto, não o incluiu na denúncia apresentada em fevereiro de 2025.

Curiosamente, a própria denúncia da PGR registrava que o conteúdo publicado pelo La Derecha Diario, de Cerimedo, apareceu no circuito da desinformação sobre as urnas de 2022, embora ressalvasse que não estava demonstrado, naquele ponto, que ele soubesse que determinado relatório continha falsidades.

Mais recentemente, em 23 de julho deste ano, Cerimedo apareceu numa transmissão com Eduardo Bolsonaro. Voltaram a lançar suspeitas sobre as urnas eletrônicas brasileiras, ressuscitando argumentos que já haviam circulado depois da derrota de Jair Bolsonaro em 2022.

Não é um debate acadêmico sobre tecnologia eleitoral ou defesas inocentes de pontos de vista. É método político.

O escândalo nesse caso não está em existir mentirosos na internet. A mentira nasceu com a humildade e sempre existirá.

O escândalo é termos construído um dos maiores ambientes digitais do planeta e continuarmos tratando empresas capazes de organizar a informação consumida por dezenas de milhões de brasileiros como quem assiste à distribuição de jornalzinho de escola ou faculdade. Não estamos falando de simples murais onde alguém cola um bilhete.

No pano de fundo desses esquemas poderosos a partir das Big Techs, gente rica prospera ainda mais em sistemas corporativos rentáveis, a partir de rotinas que vivem de selecionar conteúdos, recomendar conteúdo, ordenar conteúdo.

Tudo sem limite, sacrificando valiosas virtudes, impulsiona conteúdos que comprometem infâncias e consciências. Vendendo publicidade associada a conteúdo, eles criam regras próprias sobre conteúdo. Retiram conteúdo. Distribuem conteúdo para milhões de pessoas segundo critérios definidos por algoritmos que elas próprias controlam. Tudo graças a um marco regulatório pífio, leniente, sob a relatoria do então deputado Alessandro Molon.

Na falta de um marco “regulatório regulador”, quando confrontadas com os fatos, a hora de assumir responsabilidades pelo lixo que propagam, as Big Techs alegam candidamente que são apenas plataformas.

No fim das contas, trata-se de algo com o poder de uma televisão e a responsabilidade de um poste.

Uma emissora brasileira vive cercada por legislação, concessão pública, regras eleitorais, proteção de crianças, direito de resposta, responsabilidade civil e normas sobre publicidade. Se uma televisão vender espaço comercial, aquilo precisa ser reconhecido como publicidade. Existem responsáveis editoriais identificáveis.

Se uma emissora usar um conteúdo que foi produzido por outra, será processada e terá de pagar pelas exploração comercial do conteúdo que não é da sua lavra. Mas a rede social usa e abusa de extrair benefícios e dividendos em cima da imagem e do trabalho alheios.

Nas redes, um desconhecido pode fabricar centenas ou milhares de personagens, colocá-los todos para conversar entre si e oferecer ao cidadão a impressão de que está diante de uma multidão consensual.

A Europa, contudo, resolveu começar a enfrentar essa aberração.

O Digital Services Act impôs obrigações especiais às plataformas com mais de 45 milhões de usuários mensais na União Europeia. Elas precisam avaliar riscos sistêmicos, inclusive aqueles relacionados aos processos eleitorais, explicar mecanismos de recomendação, ampliar a transparência publicitária, permitir auditorias e acesso de pesquisadores a determinados dados e adotar medidas para reduzir riscos identificados. Descumprimentos graves podem produzir multas de até 6% do faturamento mundial anual.

Fizeram o que tinham de fazer para salvar as gerações futuras de toda ordem de má influência, de perversão e bestialidade. E nem por isso acabou a liberdade de expressão na Europa.

Acabou a fantasia de que faturamento bilionário pode existir sem responsabilidade correspondente.

A China tomou caminho muito mais duro em vários aspectos, quando comparado com o modelo democrático ocidental.

Por lá prevalecem exigências de autenticação de identidade nos bastidores das contas e regras específicas para algoritmos e conteúdo sintético, inclusive obrigações de identificação e controle.

O Brasil não precisa escolher entre a selva digital e Pequim.

Mas precisa garantir ao menos que a nossa democracia tenha sistemas de autodefesa.

Nosso Marco Civil da Internet foi importante quando aprovado, em 2014. Alessandro Molon, seu relator na Câmara, defendia uma internet aberta e protegida contra censura privada e vigilância. Mas não foi capaz de supor os desdobramentos de um sistema que nunca foi estático. O mundo digital de 2014 já era.

Naquele universo não existiam, na dimensão atual, inteligência artificial generativa, deepfakes convincentes, redes industriais de perfis falsos, operações políticas transnacionais e algoritmos capazes de entregar individualmente propaganda e desinformação em escala monumental.

A tal proteção concedida pelo artigo 19 às plataformas tornou-se tão problemática que o próprio Supremo Tribunal Federal decidiu, em 2025, que o modelo era parcialmente inconstitucional e insuficiente para proteger direitos fundamentais e a democracia, estabelecendo novas regras enquanto o Congresso não legisla.

O Congresso precisa produzir rapidamente uma legislação para o mundo que existe em 2026, e não para a internet de 2014.

Perfis automatizados precisam ser identificáveis. Operações coordenadas de comportamento fabricado precisam deixar rastros auditáveis. Propaganda política precisa revelar quem pagou, quanto pagou e quem foi atingido. Plataformas devem ser obrigadas a combater estruturas destinadas a fabricar artificialmente engajamento. Pesquisadores e autoridades eleitorais precisam ter acesso suficiente aos dados para descobrir manipulações sistêmicas. Empresas que lucram recomendando conteúdo precisam responder quando seus próprios mecanismos são utilizados deliberadamente para multiplicar ilegalidades e manipulações.

Isso não é censurar opinião. É preservar a capacidade autônoma de construir uma opinião isenta e livre.

Um cidadão continuar dizendo que Lula, Bolsonaro, Milei ou qualquer outro político é maravilhoso ou desastroso é liberdade de expressão.

Criar 50 mil cidadãos que não existem é outra coisa.

Robô não tem liberdade de expressão.

Servidor não vota.

Chip não é eleitor.

Uma empresa que sabe distinguir, para fins publicitários, a idade aproximada de alguém, seus hábitos de consumo, localização, interesses e probabilidade de comprar um sapato não pode aparecer diante do Estado dizendo-se tecnologicamente impotente para enfrentar redes industriais de comportamento artificial.

É mais ou menos como um cirurgião que se diz incapaz de prescrever um remédio para dor de barriga.

As Big Techs conhecem extraordinariamente bem seus usuários quando precisam ganhar dinheiro com eles. Curiosamente, fazem-se de vítimas quando chega a hora de assumir responsabilidade pelos crimes que acontecem dentro de seus sistemas.

A casa boliviana vinculada a Cerimedo talvez seja pequena diante da indústria mundial de manipulação. A Fiscalía chamou o que encontrou de “mini granja”.

Um diminutivo que engana…

Porque o que estava potencialmente sendo cultivado ali não eram curtidas. Era realidade artificial.

Democracia nenhuma sobreviverá por muito tempo se continuar permitindo que máquinas fantasiadas de cidadãos fabriquem multidões, reputações, indignações e consensos.

Até porque propagação artificial gera lideranças artificiais. Representações políticas artificiais. Congresso Nacional artificial. Em resumo, uma percepção artificial e mentirosa do sufrágio universal.

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