Falta de cursos específicos no Brasil amplia apagão no mercado de trabalho
Há muita oferta de cursos no país em áreas que já são saturadas
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O Brasil passa por alguns apagões no mercado de trabalho. Há algumas semanas, falei sobre o apagão de professores(as) que teremos nos próximos anos nas mais diversas áreas.
Além disso, tem mais um assunto que preocupa as organizações: a falta de cursos específicos em muitas áreas, um problema que tende a gerar um grande caos na contratação de mão de obra nos próximos cinco anos.
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Essa falta de ofertas de profissionais específicos é uma realidade que já existe, porém, ainda não houve um colapso significativo a ponto de engessar o cenário.
Historicamente, temos formado muitos profissionais generalistas nos bancos acadêmicos. Entretanto, presenciamos uma falta real de conhecimentos técnicos e específicos dentro dessas áreas. Poderíamos citar dezenas delas, mas hoje vamos falar sobre as que estão mais próximas do colapso.
Dentro desse cenário, percebe-se muitas empresas desistindo de contratar para determinadas funções pelo fato de não conseguirem achar a pessoa ideal.
Em um lado, isso cria supersalários, pois quem tem o conhecimento barganha valor salarial que poderia pagar dois ou até mesmo três profissionais para duas ou três novas vagas. Sem saída, muitas das empresas acabam aceitando a condição.
Em uma outra frente, temos o poder público criando políticas públicas para tentar melhorar esse cenário. No entanto, se analisarmos os cursos que hoje são ofertados por secretarias e outras entidades, constata-se que muitos deles são em áreas saturadas e que não resolvem o problema em si.
Dois exemplos: cursos de cabeleireira e assistente administrativo, duas áreas com muitos profissionais disponíveis e concorrendo entre si. Na outra frente, vagas sobrando a botão.
Falta de gente para funções gerenciais
Alguns dados nos mostram que, a cada 10 vagas gerenciais (supervisores, coordenadores, gerentes e diretores), há uma oferta de seis profissionais disponíveis. Sendo assim, ficam de sobra quatro vagas.
Em grande escala, em um país continental como o nosso, isso se torna dezenas de milhares. Ainda dentro desse cenário, podemos destacar a escassez em algumas áreas específicas:
- Gestores(as) de trade marketing: é o profissional que planeja as estratégias de PDVs – pontos de vendas. Requer um grande conhecimento em marketing, negócios e dados. A cada 10 vagas, normalmente apenas duas são preenchidas.
- Gestores(as) de merchandising: é o profissional que executa o que o de cima planeja. Cuida de PDVs – pontos de vendas, exposições de produtos e eventos. A cada 10 vagas, apenas sete são preenchidas.
- Gestores(as) de eventos de casas de shows: diferentemente do gerente de unidade, essa é uma função que lidera várias unidades ao mesmo tempo, como uma espécie de gestor(a) regional. Nesse mercado há uma grande oferta de profissionais que gerem uma única operação, mas poucos que atuam gerindo um grupo inteiro. A cada 10 vagas, apenas uma é preenchida.
- Gestores(as) de materiais na indústria: esse é um tipo de função que oferta muitos profissionais até o nível de analista. Quando chega na supervisão em diante, colapsa com a escassez de mão de obra. Muitas empresas, ao perceberem isso, aumentaram suas médias salariais, porém, essa iniciativa acaba se tornando um ponto neutro, pois a questão é de formação profissional e não de fator salarial. A cada 10 vagas, apenas cinco são preenchidas.
- Gestores(as) de meio ambiente: é o profissional do século. Conservação, sustentabilidade e empresas socialmente responsáveis são algumas das linhas de atuação dessa função. Alguns novos conceitos, como o ESG, vêm surgindo e trazendo uma demanda enorme para as organizações, que ainda têm dificuldade de achar profissionais de gestão. Assim como a área anterior, até existe oferta de profissionais, porém, até o nível de analista, em maioria. A cada 10 vagas gerenciais, apenas uma é preenchida.
Falta de gente para funções gerenciais para funções técnicas e operacionais
As funções técnicas e operacionais também passam por esse período de quase apagão. São áreas que também sofrem a falta de oferta de capacitação profissional por parte de entidades públicas e privadas que promovem cursos e treinamentos.
Entre elas, podemos citar as mais escassas:
- Técnicos de manutenção de grande porte: os técnicos de manutenções industriais são a categoria que se destaca como a mais escassa de mão de obra. Até existem profissionais que atuam na área, entretanto, normalmente voltados às máquinas e equipamentos industriais, deixando carência na área de equipamentos de grande porte, como guindastes, gruas, manipuladores telescópicos, pórticos rolantes, bate-estacas e draglines, principalmente. Estima-se que 95% das vagas não sejam preenchidas.
- Técnicos de agricultura digital: esse é o profissional que atua diretamente no eixo do agronegócio de campo, usando tecnologias, dados e equipamentos tecnológicos para o controle e monitoramento de plantações em desenvolvimento para o produto final. Estima-se que 90% das vagas não são preenchidas.
- Motoristas: nessa categoria, podemos destacar as habilitações D e E como as mais escassas. Talvez pela burocracia e alto valor de investimento para conseguir essas habilitações, haja a dificuldade para que se tornem realidade. Estima-se que 75% das vagas não sejam preenchidas.
- Construtora/pedreiros: muitas organizações estão levando grupos desses profissionais de uma cidade para outra com o uso de alojamentos, pois normalmente não existe a quantidade suficiente de pessoas para ocuparem vagas em construções de grande porte, por exemplo, como shoppings, edifícios, complexos residenciais e comerciais, e outros similares. Estima-se que 96% das demandas não sejam atendidas localmente.
- Porteiros: é uma função que boa parte dos mais jovens não têm interesse em ocupar. Alguns até chegam a ocupar, mas essa atividade não é mais vista como profissão por eles, sendo apenas uma atividade passageira. Assim, cria-se um ponto crítico para o preenchimento de vagas em condomínios residenciais, principalmente. Estima-se que 98% das vagas não sejam preenchidas.
- Costureiras: as indústrias de produtos relacionados ao eixo têxtil sofrem com a falta de profissionais que costurem para a produção. Muitas dessas empresas começaram a criar cooperativas para tentarem captar mão de obra em grupos. Estima-se que 65% das vagas não sejam preenchidas.
O que tudo isso nos mostra na prática
O ponto em destaque sobre esse tema é que há muitas instituições privadas e públicas formando profissionais em áreas que não darão a oportunidade efetiva depois de formados. Na outra ponta, sobram vagas, as mesmas que poderiam ser ocupadas por talentos que estudam nessas instituições.
Algumas ideias para tentarmos resolver esse ponto:
- Monitorar, de forma contínua, as demandas reais que as empresas possuem. Dessa forma, dá para transformar isso em dados, que posteriormente serão transformados em política pública, uma que realmente dê a solução para o tema.
- Criar cursos em grupos/blocos. Exemplo: Empresa X sempre contrata profissionais com o perfil Z. Alguma instituição poderia formar 10, 20, 30 profissionais nessa função e, ao final do curso, oferecê-los em blocos para essas demandas.
- Formar profissionais que moram em cidades menores e que não possuem tantas alternativas de emprego e levá-los para as capitais, formando-os especificamente em áreas que as empresas precisam.
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