Endividamento e clima pressionam produtores e elevam recuperações judiciais
Alta de 66% nas recuperações judiciais expõe problema de liquidez concentrado na soja e no milho e aumenta preocupação com clima e endividamento

O avanço no número de produtores rurais em recuperação judicial no primeiro semestre de 2026, na comparação com o mesmo período do ano passado, acendeu um alerta sobre a saúde financeira do campo.
Mais do que uma crise de produtividade, o cenário revela um problema de liquidez, concentrado principalmente em produtores de soja e milho, pressionados por margens menores, crédito e insumos mais caros, dívidas acumuladas e eventos climáticos.
O Mundo Agro conversou com Alan Mincache, advogado especialista em agronegócio.
Mundo Agro: Quais são os principais fatores que explicam o aumento de 66% no número de produtores rurais em recuperação judicial em relação ao primeiro semestre do ano passado?
Alan Mincache: O aumento não é na crise de produtividade, mas de liquidez — e está concentrado: soja e milho, sobretudo no Centro-Oeste. Entre produtores de soja, a incidência chega a cerca de 70 vezes a média nacional. Pesam safras seguidas de margem comprimida, preços deprimidos, insumo e crédito rural caros — a Selic leva um ano para chegar ao campo —, o passivo represado de barter e CPRs e o clima, alegado em 85% das petições. Some-se o maior conhecimento da ferramenta após a Lei 14.112/2020. Com mais de 5 milhões de produtores, a RJ segue exceção; mas exceção que se agrava onde o risco se concentra.
Mundo Agro: Quais medidas os produtores rurais podem adotar para reduzir o risco de novas recuperações judiciais e preservar a sustentabilidade financeira das propriedades?
Alan Mincache: Entre as medidas que os produtores podem adotar, estão profissionalizar a gestão: escrituração contábil regular, fluxo de caixa projetado e separação entre patrimônio pessoal e o da atividade. Alongar dívida antes do vencimento, evitar concentração em barter e CPR de curto prazo, travar margem com hedge e seguro, e usar renegociação extrajudicial e mediação pré-processual. E atenção redobrada ao Provimento 216/2026 do CNJ, que passou a exigir dois anos de escrituração contábil formal: quem não organizar a contabilidade hoje pode perder o acesso ao instituto amanhã.
Faço uma ressalva ao Provimento 216/2026 do CNJ. Ao exigir dois anos de escrituração e, no art. 11, § 1º, restringir os bens de capital essenciais aos bens corpóreos, o CNJ inovou em matéria reservada à lei e cristalizou interpretação já superada pelo STJ no REsp 2.218.453/AL, que caminhou para a essencialidade funcional. No agro, o essencial muitas vezes não é a colheitadeira: é a safra, o direito creditório, o insumo. Não se salva a máquina deixando a colheita morrer.
Mundo Agro: Qual setor do agro é o mais afetado?
Alan Mincache: O setor mais afetado hoje é a soja, disparado: concentra praticamente metade dos casos do agro, com incidência cerca de 70 vezes acima da média nacional — reflexo de duas safras de margem deprimida e preços internacionais desfavoráveis. Na sequência vêm milho, café e, com forte aceleração, a pecuária leiteira. O efeito dominó já alcança a cadeia: revendas de insumos, atacado de máquinas agrícolas e laticínios também registram alta expressiva. E o perfil mudou: antes eram grandes agroindústrias, hoje predominam produtores e pequenas empresas.
Mundo Agro: Com o El Niño a situação pode se agravar?
Alan Mincache: O El Niño 2026-2027 já está configurado, com mais de 90% de probabilidade de persistir até 2027 e chance elevada de ser muito forte. O efeito não é uniforme: seca e calor no centro-norte, excesso de chuva no Sul. Num setor que vende safra futura por CPR, quebra de produção vira inadimplemento contratual imediato, com execução de garantias e efeito em cascata na cadeia. Por isso insisto: seguro, zoneamento e cláusulas de força maior precisam ser contratados antes do plantio.
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