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Os caminhos da expansão do açaí, do norte do Brasil para o mundo

CEO do JAH Açaí fala sobre o avanço do consumo, a internacionalização do produto e os desafios para fortalecer a cadeia produtiva

Mundo Agro|Fabi GennariniOpens in new window

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Rafael Corte, CEO do JAH Açaí, Sorvetes e Picolés Foto cedida: JAH Açaí, Sorvetes e Picolés

O que começou como um alimento tradicional da Amazônia ganhou espaço nas academias, no delivery e nas mesas de consumidores de diferentes partes do mundo.

O açaí deixou de ser um produto associado apenas à região Norte do Brasil e passou a integrar o mercado global de alimentos naturais e funcionais. Com o aumento da demanda, também crescem os desafios relacionados à produção, logística, sustentabilidade e profissionalização da cadeia.


Em entrevista ao Mundo Agro, Rafael Corte, CEO do JAH Açaí, Sorvetes e Picolés, analisa esse cenário e conta quais são os próximos passos da empresa no mercado internacional.

Mundo Agro: O que explica o crescimento acelerado do consumo de açaí no Brasil e no mundo?


Rafael Corte: O crescimento vem de dois movimentos que se encontraram na hora certa. De um lado, o consumidor passou a buscar alimentos mais nutritivos, funcionais e com origem natural, e o açaí, denso em antioxidantes e gorduras boas, virou resposta direta a essa demanda. De outro, o produto deixou de ser sazonal e regional para entrar na rotina: hoje está em academias, no delivery e no dia a dia das grandes cidades, não só no Norte do país.

Lá fora, esse movimento começou pelo esporte, com surfistas e atletas que levaram o açaí para os Estados Unidos no início dos anos 2000, e ganhou escala com a onda global dos superalimentos. O resultado é um mercado que hoje movimenta bilhões de dólares no mundo todo e segue crescendo em dois dígitos ao ano.


Mundo Agro: Como a tendência por alimentos saudáveis e funcionais impulsionou esse mercado?

Rafael Corte: A busca por uma alimentação limpa, com rótulo claro e alto teor nutricional, colocou o açaí em destaque no mercado de alimentos saudáveis. É um alimento denso em nutrientes, rico em antioxidantes, ômega 6 e 9, fibras e minerais. Desenhamos uma receita 100% natural, sem gordura vegetal ou conservantes artificiais, com 60% de pureza de polpa, mais que o dobro do padrão de mercado. Também criamos linhas focadas em performance, como opções zero açúcar e bebidas com Whey Protein, que atraíram o público fitness, atletas e quem busca refeições funcionais no dia a dia.


Mundo Agro: O açaí deixou de ser um produto regional para se tornar global. Quais foram os principais marcos dessa transformação?

Rafael Corte: O primeiro marco foi a virada dos anos 2000, quando empresas pioneiras, fundadas por surfistas que conheceram o açaí no Brasil, começaram a exportar a polpa congelada para os Estados Unidos e a registrar o produto nos órgãos regulatórios americanos.

Isso abriu caminho para o segundo marco: a associação do açaí ao esporte e ao estilo de vida saudável, que já vinha crescendo aqui dentro através do jiu-jitsu e do surfe, e se repetiu lá fora entre atletas e academias.

O terceiro foi a onda dos superalimentos, na década seguinte, que colocou o açaí ao lado de produtos como quinoa e chia nas prateleiras de mercados especializados pelo mundo. E o marco mais recente é a profissionalização da cadeia: hoje não se exporta só polpa crua, e sim produto industrializado, com marca e padrão de qualidade, como fazemos com nossa parceria de copacking em Portugal.

A expansão do açaí Foto cedida: JAH Açaí, Sorvetes e Picolés

Mundo Agro: Quais são os principais desafios para exportar açaí a diferentes países? Quais são os países que mais compram de vocês?

Rafael Corte: Os principais desafios envolvem barreiras regulatórias e sanitárias rígidas, manutenção da cadeia de frio durante o transporte marítimo e adaptação do paladar do consumidor local.

Hoje, a Europa é o nosso principal foco de expansão internacional, onde atuamos em países como Portugal e Alemanha. Para superar o gargalo logístico, fechamos uma parceria de copacking em Portugal, o que aproxima a produção do consumidor europeu e garante abastecimento contínuo com padrão de qualidade constante para as lojas no continente.

Mundo Agro: Como funciona a logística e a conservação do produto para mercados internacionais?

Rafael Corte: Estruturamos a logística do açaí dentro da cadeia de produtos congelados, com operadores homologados e certificados, o que garante rastreabilidade e qualidade do produto. Transporte e armazenagem são feitos a temperaturas inferiores a -20°C. Além do congelado, o açaí liofilizado já começa a conquistar alguns mercados, embora a adoção ainda seja inicial pelas diferenças de sabor e textura em relação ao produto fresco. Também temos avançado na vida útil do produto, hoje com prazo mínimo de 12 meses, sem abrir mão da qualidade.

Mundo Agro: O Brasil está preparado, do ponto de vista produtivo, para sustentar esse crescimento da demanda?

Rafael Corte: Esse é um dos grandes desafios do setor. Hoje a produção ainda é majoritariamente extrativista, dependente do clima, das comunidades ribeirinhas e de toda a cadeia de abastecimento, mas ela vem crescendo de forma consistente: segundo o IBGE, o Brasil saltou de cerca de 145 mil toneladas de açaí produzidas em 1987 para quase 2 milhões de toneladas hoje. Isso nos deixa tranquilos quanto ao abastecimento, apesar das oscilações de preço observadas nos últimos anos.

Ao mesmo tempo, iniciativas de cultivo em fazendas de açaí avançam e tendem a trazer uma produção mais padronizada e certificada, especialmente no Norte e em áreas próximas à linha do Equador. O avanço de novas tecnologias deve ampliar a produtividade também em outras regiões.

Mundo Agro: Como a expansão do consumo impacta os produtores da região amazônica?

Rafael Corte: Impacta diretamente a economia local de estados como o Pará, transformando o açaí em uma das principais fontes de renda para milhares de famílias ribeirinhas e pequenos produtores extrativistas. A demanda crescente abre caminho para mais formalização e renda na região, desde que venha acompanhada de preço justo e de incentivo ao manejo adequado, para garantir que a floresta permaneça em pé.

Mundo Agro: Há iniciativas voltadas à sustentabilidade e ao fortalecimento da cadeia produtiva do açaí?

Rafael Corte: Sim. Trabalhamos com fornecedores que valorizam práticas de sustentabilidade social e ambiental nas regiões produtoras do Norte. Na Ilha do Marajó, atuamos com parceiros locais para fomentar a produção. Também apoiamos iniciativas e associações voltadas ao fortalecimento das comunidades, com ações ligadas à melhoria do cultivo, da colheita e da educação. Essa atuação ainda está em fase de expansão, mas segue na direção de uma cadeia do açaí mais sustentável e do desenvolvimento das comunidades produtoras.

Mundo Agro: É possível crescer mantendo responsabilidade socioambiental?

Rafael Corte: Não só é possível, como é a única forma sustentável de crescer no longo prazo nesse setor. A floresta em pé é o ativo mais valioso da cadeia do açaí. Quando priorizamos fornecedores que praticam o manejo correto, preservamos a biodiversidade amazônica e garantimos o sustento das comunidades locais. Do lado da indústria, isso significa eficiência energética nas fábricas, menos perdas na cadeia produtiva e embalagens sustentáveis.

Mundo Agro: Quais são as perspectivas para o mercado de açaí para este ano? Há novos mercados internacionais no radar?

Rafael Corte: As perspectivas são excelentes. Projetamos fechar o ano com faturamento de R$ 210 milhões e mais de 200 lojas ativas. No cenário internacional, nosso foco imediato é consolidar a presença na Europa, com nossa infraestrutura logística em Portugal e a expansão na Alemanha, além de estudar novos países. Também estamos abrindo nossa primeira unidade no Chile em outubro, com previsão de mais 4 lojas no país até o final deste ano.

Mundo Agro: O que ainda falta para o açaí brasileiro avançar ainda mais no cenário global?

Rafael Corte: Falta agregar valor antes de exportar. O Brasil ainda exporta muita polpa como commodity básica, enquanto o grande potencial está na exportação do produto finalizado e do conceito de marca, como fazemos com o modelo do JAH. Também falta mais marketing institucional do país, para educar o consumidor estrangeiro sobre os modos de consumo e os benefícios nutricionais do açaí, isso ajudaria a acelerar bastante essa expansão.

Mundo Agro: Como você costuma tomar o açaí?

Rafael Corte: Gosto dele bem cremoso, com bastante polpa de fruta e granola, uma combinação clássica e perfeita.

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