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Entrega da faixa presidencial na posse é apenas ato simbólico, explicam especialistas

Legislação não obriga presidente nem vice a realizar o ato durante a cerimônia, que ocorrerá no dia 1º de janeiro de 2023, em Brasília

Brasília|Renato Souza, do R7, em Brasília

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Faixa presidencial usada na cerimônia de posse em exposição
Faixa presidencial usada na cerimônia de posse em exposição

Apesar do forte simbolismo que marca a cerimônia da posse presidencial no Brasil, a transmissão da faixa para o presidente que acaba de assumir o comando do país não é um ato regulamentado por lei. A entrega é apenas simbólica, de acordo com especialistas ouvidos pelo R7.

Obecedendo a uma previsão constitucional, o presidente eleito toma posse em 1° de janeiro. Nesse dia, tradicionalmente, o novo chefe do Executivo visita o Congresso Nacional. Em seguida, ele sobe a rampa do Palácio do Planalto, onde recebe a faixa do ex-presidente, e ambos apertam as mãos, em um gesto de apreço democrático.


Confira abaixo fotos do momento da posse de ex-presidentes do Brasil:

O professor e doutor em direito Lênio Streck afirma que não existe obrigação legal de se transmitir a faixa para o sucessor, mas que se trata de um gesto de cordialidade. Ele destaca que o vice-presidente pode cumprir a tarefa, mas que também não existe determinação jurídica.


"Poderia o vice passar se naquele dia estivesse no exercício da Presidência, mas também não há qualquer obrigação", destaca Streck, autor do livro Hermenêutica Jurídica e(m) Crise e Verdade e Consenso.

Streck ressalta que, apesar de não existir obrigação legal, "é um ato político que se reveste de enorme simbologia" e que "faz parte da tradição".


A palavra 'tradição' significa 'entrega'. Por isso%2C quando compramos algo%2C a compra se perfectibiliza com o ato da tradição%2C da entrega das chaves. Por isso%2C o presidente deveria entregar a faixa.

(Lênio Streck - professor e doutor em direito)

Hamilton Mourão, vice-presidente da República
Hamilton Mourão, vice-presidente da República REUTERS/Ueslei Marcelino 14/02/2019

O vice-presidente Hamilton Mourão — eleito senador no Rio Grande do Sul — afirmou que não pretende passar a faixa. Nos bastidores do governo corre que essa tarefa poderia ficar a cargo do ministro-chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, que está na coordenação da transição representando a atual composição do Executivo. Apesar disso, também se avalia a possibilidade de que o ato não ocorra.

Juramento

A advogada constitucionalista Vera Chemim destaca que o decreto de lei nº 70.247, de 1972, prevê que o presidente da República em exercício e o eleito estejam na cerimônia, mas que na ausência do titular do cargo, o vice-presidente da gestão atual poderá transmitir a faixa. Apesar da citação no dispositivo, a redação da lei não torna o procedimento uma obrigação.


No entanto, a cerimônia é prevista legalmente, e o juramento ao texto constitucional é uma etapa obrigatória por parte de quem vai assumir o cargo.

O único rito verdadeiramente obrigatório é que o presidente eleito jure compromisso com a Constituição Federal no Congresso Nacional. É nesse momento que ocorre a posse%2C conforme previsto no artigo 78 da Carta Magna e no decreto. Outras atividades tradicionais da cerimônia%2C como o costumeiro desfile de automóvel pela Esplanada dos Ministérios%2C são festividades de caráter facultativo do presidente eleito.

(Vera Chemim - advogada constitucionalista)

De Figueiredo para Sarney

Ao longo da história, desde a redemocratização do Brasil, após o regime militar, apenas o presidente João Baptista Figueiredo deixou de entregar a faixa a José Sarney, em 1985. O presidente eleito Tancredo Neves foi hospitalizado e morreu antes de tomar posse, cabendo a Sarney assumir o cargo.

O país voltava às mãos da população civil após duas décadas de supressão de direitos, o que incluia a possibilidade de escolher os governantes. Havia um clima de distanciamento entre os militares e os políticos eleitos, o que levou à decisão de Figueiredo de não passar a faixa.

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Outros casos

Antes disso, o general Floriano Peixoto, que governou o país entre 1891 e 1894, também faltou à posse de Prudente de Morais. E Afonso Pena morreu de pneumonia em 1909, antes de passar a faixa para Nilo Peçanha.

Em 1954, Getúlio Vargas se matou, levando Café Filho a assumir o cargo às pressas, sem possibilidade de receber a faixa. Em 1992, Fernando Collor de Mello sofreu um impeachment e não passou a faixa para o sucessor, Itamar Franco.

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