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Por que o Paraguai entrou no radar da agroindústria brasileira

Custos competitivos, energia, tributação e o regime de Maquila levam empresas brasileiras a redesenhar operações e buscar no país vizinho uma nova frente de competitividade

Mundo Agro|Fabi GennariniOpens in new window

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Paraguai se consolida como destino estratégico para empresas do agro Foto cedida: Frontexa

O Paraguai vem ganhando espaço nas estratégias de empresas brasileiras do agronegócio e da agroindústria.

Por trás desse interesse estão fatores como custos operacionais mais competitivos, disponibilidade de energia, estrutura tributária e o regime de Maquila.


O Mundo Agro conversou com Suelen Raizer, fundadora da Frontexa, para entender melhor esse movimento.

Suelen Raizer, fundadora da Frontexa Foto cedida: Frontexa

Mundo Agro: O agronegócio brasileiro enfrenta uma combinação de custos elevados, pressão tributária e necessidade crescente de competitividade. Em que medida a busca por uma nova base operacional pode deixar de ser uma alternativa e passar a ser uma estratégia para algumas empresas?


Suelen Raizer: Por muito tempo, olhar para o Paraguai foi tratado como uma decisão de nicho, quase uma curiosidade de fronteira. Isso mudou. Quando se considera o custo total do trabalho no Brasil, incluindo encargos, benefícios obrigatórios e demais obrigações trabalhistas, a diferença em relação ao Paraguai pode ser significativa. No Paraguai, a contribuição patronal ao sistema previdenciário é de 16,5% sobre o salário, dentro de uma estrutura trabalhista mais enxuta. Para empresas que operam com margens pressionadas, essa diferença estrutural deixa de ser apenas uma questão de conveniência e passa a ter peso direto na competitividade.


Mundo Agro: Quais perfis de agroindústrias brasileiras podem se beneficiar mais de uma operação complementar no Paraguai?

Suelen Raizer: Vejo três perfis com maior aderência:


Empresas que produzem no Paraguai para exportar, inclusive, e principalmente, de volta para o Brasil. Esse é um ponto que costuma gerar confusão e vale desfazer: o regime de Maquila exige que a produção seja exportada a partir do Paraguai, mas o destino dessa exportação pode ser o próprio Brasil. Aliás, é o principal destino hoje, respondendo por cerca de 65% das remessas do regime. Ou seja, uma empresa não precisa renunciar ao mercado brasileiro para se beneficiar da Maquila; o que reduz o ganho é vender para o mercado interno paraguaio, que joga em outra lógica tributária, sem o mesmo benefício de suspensão de impostos sobre insumos importados.

Agroindústrias intensivas em mão de obra e energia, como processamento de proteína animal, laticínios, rações e insumos agrícolas, onde a diferença de custo estrutural entre os dois países é mais sentida no resultado final.

Empresas pressionadas por concorrência asiática ou por commodities de baixo valor agregado, que precisam de uma estrutura mais enxuta para manter margem sem renunciar a qualidade.

Mundo Agro: Há determinados elos ou modelos de negócio que apresentam uma vantagem mais evidente?

Suelen Raizer: Sim. Processamento e industrialização por encomenda, que estão na essência do modelo de Maquila, são elos em que a vantagem aparece com mais clareza: a empresa pode importar temporariamente insumos ou matérias-primas sob o regime de Maquila, com suspensão dos tributos aduaneiros aplicáveis, realizar o processamento no Paraguai com uma estrutura de custos mais competitiva e, posteriormente, exportar o produto resultante.

Rações e nutrição animal, processamento de grãos e biocombustíveis, além de insumos para pecuária, são elos que já mostram tração real. Também percebo espaço crescente em etapas de beneficiamento e embalagem, processos que agregam valor sem exigir a transferência da operação agrícola em si, que continua fazendo mais sentido em solo brasileiro.

Mundo Agro: Uma empresa não precisa necessariamente transferir toda a sua operação para outro país. Quais etapas da cadeia produtiva podem ser redistribuídas para o Paraguai, mantendo parte relevante da estrutura no Brasil?

Suelen Raizer: Este é um ponto que preciso destacar: a decisão raramente é binária. A empresa não muda de país, ela redesenha a cadeia.

Na prática, o que mais vejo migrar são as etapas de processamento industrial, beneficiamento e montagem final, aquelas que se beneficiam diretamente da isenção de importação de insumos e do custo operacional mais baixo. Já a origem da matéria-prima (produção agrícola), P&D, e frequentemente a área comercial e o centro de decisão seguem no Brasil, porque ali está a competência histórica da empresa e a proximidade com o mercado interno.

O resultado é uma operação binacional: Brasil como origem de insumo e cérebro estratégico, Paraguai como base de transformação e plataforma de exportação. Isso, aliás, é o que temos visto dar mais certo e é o modelo que defendo com os clientes da Frontexa: complementaridade, não substituição.

Mundo Agro: A Lei de Maquila é frequentemente apontada como um dos principais atrativos do Paraguai. Na prática, quais ganhos de competitividade existem além do regime de Maquila — em aspectos como energia, mão de obra, custos operacionais, logística e ambiente de negócios?

Suelen Raizer: A Lei de Maquila é a porta de entrada mais visível, mas o Paraguai tem méritos próprios que sustentam a decisão mesmo sem o regime:

Energia elétrica: o país conta com ampla disponibilidade de energia proveniente principalmente de Itaipu e Yacyretá, com preços industriais historicamente competitivos em relação ao Brasil. Esse é um fator especialmente relevante para agroindústrias intensivas em processamento térmico, refrigeração ou outras atividades de maior consumo energético.

Mão de obra: a estrutura trabalhista paraguaia é mais enxuta. A contribuição patronal ao Instituto de Previsión Social (IPS), por exemplo, é de 16,5% sobre o salário. Além disso, a jornada regular pode chegar a 48 horas semanais, contra 44 horas no Brasil. Evidentemente, a comparação do custo total do trabalho precisa considerar também férias e outras obrigações, mas, de maneira geral, a estrutura paraguaia tende a representar um custo trabalhista mais competitivo para determinadas atividades industriais.

Ambiente tributário geral: mesmo fora da Maquila, o Paraguai mantém uma estrutura tributária relativamente simples e alíquotas competitivas, com imposto de renda empresarial de 10% e IVA geral de 10%, embora existam tributos específicos sobre dividendos e rendimentos de não residentes.

Logística: a proximidade com o Brasil e a integração regional via Mercosul permitem estruturar operações no Paraguai preservando uma forte conexão com o mercado brasileiro. Dependendo da localização escolhida, uma planta pode estar a poucas horas da fronteira, o que reduz significativamente o impacto logístico de uma operação binacional.

Ambiente de negócios: o país combina uma estrutura regulatória relativamente simples, custos operacionais competitivos e uma política ativa de atração de investimentos industriais, fatores que ajudam a dar previsibilidade a projetos de médio e longo prazo.

Isso tudo forma um conjunto. E é justamente esse conjunto, e não um benefício isolado, que faz o Paraguai ser competitivo. A Maquila potencializa essa equação, mas uma decisão de investimento não deveria se sustentar apenas no imposto de 1%. Energia, trabalho, logística, tributação e localização precisam fazer sentido conjuntamente para que o projeto seja sustentável no longo prazo.

Mundo Agro: Quais setores do agronegócio e da agroindústria brasileira já demonstram interesse mais concreto em estruturar operações no Paraguai?

Suelen Raizer: Proteína animal e nutrição animal (rações e insumos), biocombustíveis e com destaque para etanol de milho, e processamento de grãos são hoje os segmentos com movimento mais concreto e visíveis. Também há interesse crescente em setores de insumos agrícolas e biológicos, atraídos pela combinação de segurança jurídica e menor custo operacional.

Alguns nomes já tornam esse interesse concreto: a Agrihold, grupo brasileiro dono da Agrotec, distribuidora de insumos agrícolas consolidada no Paraguai há mais de três décadas, adquiriu participação na brasileira Agrivalle justamente para expandir a fabricante de insumos biológicos para o outro lado da fronteira. A Sell Agro, mato-grossense especializada em desenvolvimento, formulação e produção de adjuvantes agrícolas e tecnologias de aplicação, também abriu sua primeira operação fora do Brasil no país. E no segmento de biológicos, a Gênica já opera no Paraguai há alguns anos, citando segurança jurídica e proximidade de solo, clima e idioma com o Paraná como fatores decisivos.

Mundo Agro: O movimento ainda está concentrado em determinados segmentos ou começa a se espalhar pela cadeia?

Suelen Raizer: Está se espalhando, e esse é o dado mais relevante para quem cobre o setor agora. Até poucos anos atrás, o fluxo era quase exclusivamente de produtores rurais comprando terra. Hoje, vemos indústria entrando com processamento, insumos, logística, o que indica uma segunda onda. Atualmente não é mais só produção primária migrando, é a cadeia de valor completa passando a considerar o Paraguai como parte do seu mapa operacional.

Ainda é um movimento concentrado nos elos com maior intensidade de exportação e maior sensibilidade a custo, mas a tendência é de espraiamento, inclusive para segmentos que, há cinco anos, não olhavam para o país vizinho.

Mundo Agro: Já existem exemplos de agroindústrias brasileiras que fizeram ou anunciaram movimentos de expansão, produção ou estruturação no Paraguai? O que esses casos revelam sobre o tipo de estratégia que está ganhando espaço?

Suelen Raizer: Sim, e os casos públicos já formam um padrão interessante. A JBS retomou sua presença no Paraguai com a aquisição da Pollos Amanecer e anunciou inicialmente US$ 70 milhões em investimentos nos dois anos seguintes, incluindo expansão da capacidade produtiva e uma nova fábrica de ração. A BRF mantém presença no país por meio de operação ligada à nutrição animal. A Camil expandiu sua operação internacional de arroz para o Paraguai por meio de aquisições locais, reforçando sua estratégia de originação e competitividade regional. A Inpasa, por sua vez, consolidou no país uma importante operação de etanol de milho, demonstrando o potencial do Paraguai também para a industrialização de commodities agrícolas. Há ainda empresas ligadas à produção agropecuária e companhias de insumos e biológicos que vêm ampliando sua presença no país nos últimos anos.

O que esses casos revelam, em conjunto, é que a estratégia que está ganhando espaço não é simplesmente “sair do Brasil”, e sim, construir uma plataforma regional, muitas vezes binacional. As empresas mantêm operações, mercados e diferentes elos da cadeia no Brasil enquanto incorporam o Paraguai como base de produção, processamento, originação, exportação ou expansão regional. Ou seja, não se trata de substituir um país pelo outro, mas de distribuir a cadeia de forma mais eficiente entre os dois mercados.

Mundo Agro: O governo paraguaio afirma que alimentos e agronegócio estão entre os segmentos que mais despertam o interesse de investidores brasileiros. Na sua avaliação, estamos diante de uma tendência pontual ou de uma possível reconfiguração regional da cadeia agroindustrial?

Suelen Raizer: Minha leitura é que estamos além de uma tendência pontual, mas ainda aquém de uma reconfiguração completa. O que existe hoje é uma redistribuição seletiva: elos específicos da cadeia, como processamento, insumos e exportação, estão migrando para onde o custo estrutural é mais competitivo, sem que a base agrícola e o mercado consumidor brasileiro percam relevância.

Isso é, na prática, o início de uma integração regional mais madura da cadeia agroindustrial do Cone Sul. E não se trata de uma substituição do Brasil pelo Paraguai, mas de uma divisão de funções entre os dois países dentro de uma mesma cadeia de valor. Se essa tendência vai se aprofundar depende, entre outros fatores, da evolução das condições energéticas relacionadas a Itaipu, da estabilidade do ambiente regulatório e da capacidade dos dois países de aprofundar sua integração produtiva nos próximos anos.

Mundo Agro: O que o empresário brasileiro deveria estar colocando no radar agora?

Suelen Raizer: Destaco a seguir.

1. Mapear a cadeia antes de decidir o país. A pergunta certa não é: “Devo ir para o Paraguai?”, e sim “Quais etapas da minha operação ganham competitividade sendo redistribuídas?”. Empresas que fazem esse diagnóstico primeiro tomam decisões melhores do que aquelas que decidem apenas pela pressão do custo imediato.

2. Tratar isso como decisão estrutural, não como corte de custo emergencial. Regime tributário, estrutura societária, transfer pricing (preços de transferência), regras de origem e requisitos de valor agregado exigem planejamento. Uma operação que parece vantajosa olhando apenas para imposto ou mão de obra pode perder competitividade se logística, estrutura fiscal e fluxo entre os dois países não forem corretamente desenhados.

3. Ficar atento ao novo cenário regulatório e energético. O Paraguai acaba de modernizar seu regime de Maquila, com a Lei nº 7.547/2025 e sua regulamentação em 2026, trazendo um marco atualizado para novos projetos. Ao mesmo tempo, a revisão das condições relacionadas a Itaipu e ao Anexo C coloca a questão energética no radar para os próximos ciclos. Para o empresário, isso significa que este é um momento importante para estudar projetos com antecedência e entender como essas mudanças afetam sua equação de custos.

Quem se planeja agora, com um diagnóstico técnico sólido, consegue avaliar essa oportunidade antes que o movimento se torne consenso. Quando uma vantagem competitiva passa a ser óbvia para todo o mercado, normalmente parte dela já foi capturada por quem se movimentou primeiro.

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