Carros usados começam a perder valor: elétricos, SUVs e sedãs premium lideram a desvalorização
Embora o mercado continue aquecido em volume de vendas, alguns modelos já acumulam perdas significativas na Tabela Fipe

Depois de um período de forte valorização provocado pela pandemia, pela escassez de veículos novos e pela alta demanda no mercado de seminovos, os preços dos carros usados começam a dar sinais de acomodação.
Embora o mercado continue aquecido em volume de vendas, alguns modelos já acumulam perdas significativas na Tabela Fipe, especialmente entre elétricos, SUVs de luxo e veículos de maior valor agregado. As últimas apurações mostram quedas expressivas.
Detalhe do acabamento da porta do Omoda E5
Marcos Camargo Jr 20.07.2026
Levantamentos recentes publicados por diferentes plataformas do setor mostram que a desvalorização voltou a fazer parte da realidade do mercado. A diferença é que ela não atinge todos os segmentos da mesma forma.
Enquanto picapes, compactos e SUVs de grande liquidez continuam preservando boa parte do valor de revenda, modelos eletrificados e veículos premium registram quedas bem mais expressivas.

Segundo dados divulgados pela Webmotors, o ritmo de desvalorização dos usados a combustão desacelerou em abril de 2026, com queda média de apenas 0,322%.
Apesar da retração, o índice indica que os preços voltaram a seguir um comportamento mais próximo do histórico do mercado após anos de valorização atípica. O movimento ocorre em um cenário de crescimento das vendas de seminovos e usados, impulsionado pelos preços elevados dos veículos zero-quilômetro.
Elétricos concentram as maiores perdas
Os exemplos mais expressivos aparecem entre os carros elétricos. Um levantamento baseado no histórico da Tabela Fipe mostra que alguns modelos perderam mais de 30% do valor em pouco mais de um ano.
Bancos do BYD Dolphin SE
Marcos Camargo Jr 02.06.2026
Mas isso ocorre nos modelos premium, como Audi e-tron S Sportback 2023, com desvalorização de cerca de 32,7%. Já os modelos chineses compactos já sofreram baixa desvalorização, como Dolphin Mini com 14% de perda em um ano, enquanto Dolphin e GWM Ora caíram 20%.

No mesmo intervalo, modelos tradicionais como Volkswagen Polo, Chevrolet Onix e Hyundai HB20 registraram depreciação entre 15% e 17%, demonstrando que a diferença entre elétricos e veículos convencionais já é menor do que nos primeiros anos da eletrificação.

“Também o consumidor vem perdendo renda pela situação econômica e sai de um modelo mais caro para um mais barato. Conheço muita gente que ia chegar a um ciclo de troca e desistiu pelo preço alto. Então leva o carro para o mecânico e fica mais alguns anos. Se ele não troca de carros, não gira a economia e o modelo mais caro perde mais valor”, completa Nave.
SUvs perdem mais porém depende da marca
Os modelos grandes também vêm perdendo valor. Modelos da Jeep, por exemplo, vêm perdendo espaço em função de um desconto forte na tabela real de venda em concessionária.

“O Compass caiu bastante de preço, agora você pega, por exemplo, o Corolla, que subiu do mês passado para este de R$ 1.000 a R$ 1.800. A tabela não é uma regra pra todos os carros”, explica Daniel Nave, que atua com plataformas digitais de venda de veículos.
Em feirões, a queda mostra o real valor de mercado
Em feirões como o AutoShow, realizado aos domingos no Anhembi, o movimento subiu nos últimos anos. Com 1.500 carros anunciados por domingo, os revendedores já perceberam que a queda tem sido mais acentuada em 2026. O motivo? As marcas têm feito taxas de juros subsidiadas, valorização do carro usado na troca, entre outras ações.

Assim, veículos usados mais caros tendem a perder valor mais rápido. No feirão de domingo, um Renault Duster 2025 com tabela de R$ 132 mil (zero quilômetro por R$ 141 mil), foi comercializado por R$ 98 mil, bem abaixo da tabela Fipe. Outros modelos seminovos foram encontrados por até 25% abaixo da Fipe.

“Tem muitas marcas novas vendendo carro que antes era R$ 250 mil numa marca como Jeep, Honda e Toyota por R$ 160 mil, com motor híbrido e muito mais econômico. Eu trabalho com carro há 30 anos e tenho trabalhado com modelos mais baratos porque os mais caros estão perdendo preço mês a mês”, diz Antônio Meira.
Mercado vive nova fase
Especialistas apontam que o comportamento é consequência de diversos fatores. O primeiro deles é a forte queda nos preços dos veículos novos em 2026, impulsionada pela chegada de novas marcas chinesas, aumento da concorrência e campanhas agressivas de descontos realizadas pelas montadoras.

“O que eu tenho feito para driblar essa fase? Veículos de R$ 100 mil eu já não tenho trabalhado na loja. Tem carro chegando com muita tecnologia e preço atrativo, bônus, juros baixos, e, no carro seminovo, a pessoa prefere comprar um zero quilômetro. Eu tinha um Nivus por R$ 106 mil, mas na concessionária tem o mesmo carro por R$ 115 mil. Eu tenho trabalhado com carros de até R$ 70 mil, porque há demanda. Esses de R$ 50 mil a R$ 70 mil estão girando”, diz Anderson Pereira, proprietário da PR Carros, na zona sul de SP.
Painel de instrumentos do Volkswagen T-Cross Extreme
Marcos Camargo Jr 29.06.2026
Outro fator é a rápida evolução tecnológica, principalmente entre os elétricos. Novos modelos chegam ao mercado, oferecendo baterias maiores, carregamento mais rápido e sistemas eletrônicos mais modernos, tornando versões lançadas há poucos anos menos competitivas na revenda.
Além disso, o aumento da oferta de seminovos também contribui para reduzir os preços, principalmente entre modelos que tiveram grande volume de vendas corporativas e de locadoras.
Liquidez continua sendo decisiva
Apesar da retomada da desvalorização em alguns segmentos, veículos com elevada procura continuam preservando melhor seu valor. Picapes médias, SUVs compactos líderes de mercado, hatchbacks de grande volume e modelos reconhecidos pela confiabilidade mecânica seguem apresentando uma liquidez muito superior à média do mercado.
Para quem pretende comprar um carro pensando na futura revenda, especialistas recomendam observar não apenas o preço de aquisição, mas também o histórico de desvalorização, o custo de manutenção, a reputação da marca e a facilidade de comercialização do modelo.
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